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Fracos líderes fortes

Astrid Prange

13/11/2019 13h28

O Brasil e seus parceiros do Brics não precisam de mitos ou de messias. Precisam de instituições fortes que garantam o Estado de direito. Autoproclamados salvadores da pátria podem ser perigosos para a democracia.Caros brasileiros,

nesta semana, o Brasil é palco dos "líderes fortes" do Brics. Nestas quarta e quinta-feira (13 e 14/11), os chefes dos cinco grandes países emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) se encontram para mais uma cúpula do grupo, desta vez realizada em Brasília.

Parece que a aposta em "líderes fortes" é um denominador comum entre esses países emergentes. Mas será que eles são fortes mesmo e conseguem colocar ordem na casa como prometeram?

No Brasil, em meio à crise econômica, à Amazônia ameaçada e a um presidente que está brigado com quase todo mundo, inclusive o próprio partido, está difícil afirmar isso. O presidente Jair Bolsonaro, até agora foi forte nas suas falas, tão forte que no nível internacional causou crises diplomáticas.

Na Rússia, o presidente Vladimir Putin oprime protestos da oposição, dificulta o trabalho de ONGs e se envolveu na guerra da Síria. Como se isso não bastasse, ele ainda enfrenta os conflitos na Crimeia e na Ucrânia. Com as sanções econômicas da União Europeia contra a Rússia, a economia do país anda debilitada.

Na Índia, o nacionalista Narendra Modi se apresenta como "guardião da nação" no conflito da Caxemira. A retórica nacionalista ajudou-o a ganhar as eleições em maio deste ano. Como na Rússia, o conflito externo desvia a atenção para longe dos problemas econômicos do país. O desemprego alcançou 6%, e no primeiro trimestre deste ano, a taxa de crescimento da Índia ficou atrás da da China.

Nem mesmo a toda poderosa China, com seu "líder forte" Xi Jinping, escapa de desafios. Xi se depara com uma onda de protestos em Hong Kong. O movimento contra a extradição de suspeitos de crimes para China continental coloca em xeque o poder absoluto de Pequim. As manifestações continuam apesar de Xi ameaçar reprimi-las violentamente.

Parece que a aparente força desses "líderes fortes" não somente contribuiu para crises e polarizações profundas, mas se beneficia estrategicamente e politicamente delas. Pois conforme a situação vai se agravando, aumenta também o clamor por um líder forte para resolver os problemas.

No Brasil, mais um "líder forte" voltou ao cenário político disposto a resolver a situação: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A onda de euforia depois que Lula saiu da prisão me fez refletir sobre uma questão: de onde vem essa crença de que um líder forte pode acabar com todos os problemas do país?

Até onde me lembro, o balanço mais recente dos "líderes fortes" no governo brasileiro está bastante fraco. O ex-presidente Fernando Collor do Melo, o "caçador dos marajás", sofreu impeachment sob acusação de corrupção. Getúlio Vargas se suicidou. Jânio Quadros teve que renunciar porque "forças terríveis se levantaram" contra ele. E Lula, solto na última sexta-feira, foi condenado por corrupção.

Sinto muito, mas estou totalmente desiludida com os tais "líderes fortes". Chega de esperar por um salvador da pátria! Em vez de criar mitos e messias, por que não cobrar mais do Congresso Nacional? Por que a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara só iniciou o debate de uma PEC para permitir a prisão após condenação em segunda instância depois do julgamento do STF sobre o tema? Por que ainda não foi votada a reforma política nem a tributária?

O Congresso brasileiro é poderoso. Nenhum presidente pode governar contra ele. Está na hora de o Congresso sair da confortável sombra do presidente e legislar projetos de interesse nacional. Está na hora também de os eleitores escolherem criteriosamente os seus deputados e senadores e acompanharem o trabalho deles. Pois posicionamentos ideológicos e frases marcantes podem até ajudar políticos a se eleger, mas não garantem que o representante eleito faça um trabalho parlamentar bem-sucedido.

Líderes supostamente fortes muitas vezes se revelam fracos, como é o caso de Bolsonaro. Para defender a democracia e o Estado de direito, são necessárias instituições fortes. Com elas, é até mesmo possível superar crises causadas pelos tais "líderes fortes".

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Astrid Prange de Oliveira foi para o Rio de Janeiro solteira. De lá, escreveu por oito anos para o diário taz de Berlim e outros jornais e rádios. Voltou à Alemanha com uma família carioca e, por isso, considera o Rio sua segunda casa. Hoje ela escreve sobre o Brasil e a América Latina para a Deutsche Welle. Siga a jornalista no Twitter @aposylt e no astridprange.de.

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Autor: Astrid Prange

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