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Como dominar novas habilidades com a 'prática deliberada'

William Park - BBC Capital

25/08/2019 20h07

Quando se trata de aprender coisas novas, o 'como' supera o 'quanto'. Entenda por quê.

Nem sempre a quantidade de tempo que investimos em determinada tarefa é proporcional à qualidade do resultado dela. Correr os mesmos percursos, superando seu próprio recorde de tempos em tempos, por exemplo, pode até afagar sua autoestima, mas possivelmente nunca o tornará um atleta de elite.

Mas e se o autoaperfeiçoamento não exigisse um investimento tão grande de tempo? Há qualidades únicas que as pessoas que lutam pelo topo possuem que lhes permitam superar os demais? A reportagem da BBC Capital fez essas perguntas a um técnico olímpico vencedor de medalhas de ouro, a um diretor de futebol americano detentor de diversos recordes e a um aluno super-dedicado.

Sessenta minutos fazendo "a coisa certa" é melhor do que qualquer quantidade de tempo gasto aprendendo sem foco, segundo o professor Anders Ericsson, da Universidade Estadual da Flórida, nos Estados Unidos. É crucial identificar áreas as quais precisamos melhorar e, em seguida, elaborar um plano propositivo para corrigi-las. Ericsson chama esse processo de "prática deliberada".

Ele passou a maior parte das últimas três décadas analisando como profissionais de elite, de músicos a cirurgiões, alcançam o topo em seus campos de atuação. Desenvolver o modo certo de pensar, diz ele, é mais importante do que o talento. "Sempre houve essa discussão de que, para ser bom, você tinha que nascer com um dom. Do contrário, estaria fadado ao fracasso. Essa é uma visão errada", diz ele.

Adeptos da chamada prática deliberada muitas vezes criticam a maneira como somos ensinados na escola. Os professores de música, por exemplo, iniciam os alunos com os elementos básicos: as notas, as teclas, como ler uma partitura. Se você precisa avaliar os alunos uns contra os outros, é necessário compará-los com medidas simples e objetivas. Ensinar assim torna a avaliação mais fácil, mas também pode desestimular os iniciantes, que não conseguem se imaginar atingindo o objetivo final de tocar a música de que gostam porque estão fazendo tarefas que não têm significado para eles.

"Acho que o caminho certo para aprender é o contrário", diz Max Deutsch, de 26 anos, que levou o aprendizado ao extremo. Em 2016, Deutsch, que vive em San Francisco, estabeleceu como meta aprender 12 novas e ambiciosas habilidades em um padrão muito alto, uma por mês. A primeira foi memorizar um baralho de cartas em dois minutos sem um erro. A realização dessa tarefa é considerada o limite para um grande mestre de memória. A última foi ensinar a si mesmo como jogar xadrez, desde o início, e derrotar o grande mestre Magnus Carlsen em uma partida.

"Comece traçando seu objetivo", diz Deutsch. "O que é que eu teria que saber, ou ser capaz de fazer, para atingir meu objetivo? Em seguida, crie um plano para chegar até lá e cumpri-lo. No primeiro dia, eu disse a mim mesmo: 'É isso que vou fazer todos os dias'. Eu pré-defini cada tarefa para todos os dias. Em outras palavras, eu não pensava 'Será que eu tenho energia ou devo deixar isso de lado?' porque eu tinha esse objetivo pré-definido. Tornou-se uma parte não negociável do meu dia".

Deutsch diz que foi capaz de completar esse desafio enquanto mantinha um emprego em tempo integral, se deslocando ao trabalho durante uma hora por dia e tendo oito horas diárias de sono. Quarenta e cinco a 60 minutos por dia durante 30 dias foram suficientes para completar cada desafio. "Essa estrutura fez 80% do trabalho duro", diz ele.

Se a prática deliberada lhe soa familiar, ela forma a base da regra das 10 mil horas, popularizada pelo jornalista britânico Malcolm Gladwell. Um dos primeiros artigos de Ericsson sobre práticas deliberadas sugeriu que os artistas de elite gastam 10 mil horas, ou aproximadamente 10 anos, treinando de maneira focada antes de chegar ao topo de sua área. Mas é um erro pensar que qualquer pessoa que gaste 10 mil horas fazendo alguma coisa, de alguma forma, chegará ao mesmo patamar. "Você precisa estar praticando com um objetivo. Além disso, é necessário estar preparado psicologicamente para isso", diz Ericsson.

"Não é sobre o tempo total gasto praticando algo, isso precisa ser combinado com o compromisso do aluno", diz ele. "Eles estão a todo momento se corrigindo, estão mudando o que fazem. Não está claro por que algumas pessoas pensam que continuar cometendo os mesmos erros vai torná-las mais habilidosas."

'Foco no aprimoramento'

O mundo esportivo adotou muitas das lições de Ericsson. "São os jogadores que fazem o grosso do trabalho. Eles têm que estar muito determinados em se tornar um jogador que chega ao topo", diz Roger Gustafsson, um ex-jogador de futebol que virou treinador. Foi durante seu comando que o time IFK Goteborg venceu cinco títulos da liga sueca nos anos 1990 - um recorde nunca batido por nenhum outro técnico na história do futebol do país. Agora com 60 anos, Gustafsson está envolvido com as categorias de base do clube.

"Tentamos ensinar aos jovens de 12 anos [que jogam pelo IFK Goteborg] o triângulo de passe do Barcelona por meio da prática deliberada. Eles aprenderam incrivelmente rápido: cinco semanas. Chegaram a um ponto em que estavam fazendo o mesmo número de passes que o Barcelona em partidas oficiais. É claro que não estou dizendo que eles eram tão bons quanto os jogadores do Barcelona, mas era incrível a rapidez com que eles aprenderam."

Cinco dicas para a prática deliberada

1. Comece traçando seu objetivo. O que você está tentando alcançar: ser o melhor do mundo ou outra coisa? Sem saber aonde você quer chegar, você não sabe o que planejar.

2. Vá atrás de seu objetivo. O que você precisa fazer para chegar lá? Elimine as coisas do seu treinamento que são desnecessárias para atingir seu objetivo.

3. Divida seu plano de ação em etapas menores. Estabeleça prazos. Dessa forma, você saberá se está começando a ficar para trás ou se estabilizou.

4. Peça feedback de alguém experiente ou filme a si mesmo desempenhando determinada tarefa. Se você quer ser um bom orador público, filme-se apresentando e compare com vídeos de bons oradores.

5. Se você se estabilizar, talvez seja necessário trabalhar de trás para frente. O que outras pessoas fazem que você não faz? Dar um passo atrás para depois dar dois adiante é uma possibilidade factível.

O vídeo tornou-se uma ferramenta essencial para fornecer feedback imediato. "Se você apenas falar com o jogador, ele pode não ter a mesma imagem na cabeça que você", diz Gustafsson. "Eles têm que se ver e se comparar com um jogador que fez isso de forma diferente. Os jogadores se sentem muito confortáveis com o feedback do vídeo. Eles estão acostumados a filmar a si mesmos e uns aos outros. Como treinador, é difícil dar feedback a todos, porque você tem 20 jogadores sob sua tutela. A prática deliberada é de capacitar as pessoas a se dar feedback uma a outra".

Gustafsson enfatiza que, quanto mais imediato o técnico puder dar seu feedback, mais valor ele terá. Ao corrigindo erros no treinamento, menos tempo é gasto fazendo as coisas erradas.

"A parte mais importante disso é a intenção do atleta; eles têm que querer aprender", diz Hugh McCutcheon, treinador de vôlei da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos.

"O atleta tem que sentir segurança que pode piorar para melhorar. Isso pode acabar desincentivando alunos eventuais, mas o domínio técnico é difícil. É igual em qualquer esporte; o que faz o melhor se destacar é o domínio técnico, e isso exige um grande compromisso por parte do atleta."

'Raro não é o talento, mas sim talento, motivação e foco na maestria'

McCutcheon foi treinador da equipe masculina de vôlei dos Estados Unidos, que arrebatou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, 20 anos após última conquista. Ele assumiu, então, a equipe feminina, com a qual conquistou a prata nos jogos de Londres 2012. "Temos a responsabilidade de ensinar e eles têm a responsabilidade de aprender", diz McCutcheon. "Os vencedores são aqueles que se comprometem a consertar seus erros. Não existe mágica. Há várias pessoas talentosas. Mas o talento não é raro nesse campo. O que é raro é a combinação de talento, motivação e foco".

Outra recomendação importante é criar um plano de ação para encarar seu desafio.

"Normalmente, subestimamos o que podemos realizar em pouco tempo e superestimamos o que é preciso para fazer alguma coisa", diz Deutsch, que conseguiu concluir 11 de suas 12 tarefas (ele não venceu o mestre de xadrez). "Ao criar um plano de ação, você remove possíveis obstáculos. Quando foi a última vez em que você dedicou grande parte do seu tempo para concluir algo?"

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