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Disparos de foguetes contra interesses dos EUA no Iraque aumentam tensão com Irã

19/06/2019 21h45

Bagdá, 20 Jun 2019 (AFP) - Os disparos de foguetes contra os interesses dos Estados Unidos no Iraque deixaram em situação extremamente incômoda o governo de Bagdá e aumentaram a tensão na queda de braço com Teerã, afirmam especialistas.

Ninguém reivindicou estes disparos, mas a origem de um deles foi localizada por observadores na zona onde atuam grupos armados próximos ao Irã, peso-pesado na região.

Este país, xiita como o Iraque, está em plena escalada de tensão com os Estados Unidos, grande aliado de Bagdá.

Quase todas as noites desde a sexta-feira passada, um ou dois foguetes caíram em bases onde estão estacionados soldados americanos, de Bagdá a Mossul, no norte.

Na noite de terça-feira, o premiê iraquiano, Adel Abdel Mahdi, indicou que estava proibido para qualquer força agir fora do âmbito das tropas governamentais.

"Não deixaremos que isto continue", disse.

- "Sinal" para Washington -Sua advertência não teve efeito e apenas horas depois, novos foguetes caíram sobre complexos petroleiros na província de Basra, onde operam empresas americanas de serviços, assim como o gigante do ouro negro, Exxon Mobil.

Nesta província situada no extremo sul do país, as companhias americanas, que enfrentam há muito tempo os conflitos tribais e outros disparos de foguetes com diferenças locais, se posicionaram "em estado de alerta vermelho", diz à AFP um expatriado que trabalha na região.

"Os executivos estrangeiros partem hoje e amanhã" do Iraque, afirma, destacando que esta é a segunda vez desde meados de maio que se ativa este dispositivo.

Para Fanar Haddad, especialista em Iraque da Universidade de Singapura, "o momento" destes ataques e "o contexto" mostram "um vínculo com as crescentes tensões entre o Irã e os Estados Unidos".

"É uma forma para o Irã de demonstrar os meios de pressão de que se dispõe no Iraque", explica à AFP este pesquisador. "Sem causar danos importantes", envia "o sinal aos Estados Unidos e aos outros de que pode responder".

Estes ataques, continua, têm vários objetivos: "demonstrar a capacidade de atacar o pessoal americano; incomodar e sobrecarregar o governo iraquiano; e ameaçar perturbar os fluxos mundiais de energia e as operações das grandes companhias petroleiras internacionais".

O Iraque se pronuncia há semanas contra a guerra Washington e Teerã, e busca evitar que seu território - retomado por completo há menos de um ano e meio dos jihadistas do grupo Estado Islâmico (EI) - não sirva de campo de batalha por meio de terceiros.

Se o conflito chegasse a seu território, o Iraque perderia muito: "um acesso reduzido ao Golfo o afetaria duramente", diz à AFP Ruba Husari, especialista no petróleo iraquiano.

Por um lado, a quase totalidade dos 3,5 milhões de barris por dia que exporta transita pelo estreito de Ormuz, onde se concentram as tensões iraniano-americanas. Por outro lado, o petróleo representa cerca de 90% do orçamento de Bagdá e é sua única fonte de divisas.

De forma mais simbólica, "bombardeios reiterados contra bases onde estão presentes estrangeiros, entre eles americanos, põem o governo em uma situação incômoda e sob pressão", avalia uma autoridade.

- Questão de vulnerabilidade -Estes disparos deixam clara a vulnerabilidade de certos lugares e a dificuldade das forças de segurança iraquianas em protegê-los, afirma esta fonte governamental à AFP.

"As forças de segurança intensificam seus esforços para impedir estes ataques, mas os responsáveis por estes atos terroristas continuam podendo acessar estes locais e bombardeá-los", acrescenta esta fonte que não quis revelar sua identidade.

Embora a Exxon Mobil tenha retirado seu pessoal estrangeiro há menos de três semanas, após ter recebido "garantias" do governo, a repetição destes ataques poderia agravar o caos econômico.

Até agora, assegura à AFP Asem Jihad, porta-voz do Ministério de Petróleo, a produção e exportação de cru não foram afetadas pela recente escalada de tensões regionais.

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