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Quênia luta para recuperar "vozes perdidas" por conta da violência policial

2019-02-23T10:02:00

23/02/2019 10h02

Edurne Morillo.

Nairóbi, 23 fev (EFE).- Mama Vic perdeu seus dois filhos durante a onda de violência pós-eleitoral que sacudiu o Quênia em 2017 e, desde então, se transformou em uma ativista contra as desaparições forçadas e as execuções extrajudiciais.

Seu nome real é Benna Buluma, mas em Mathare, um dos subúrbios mais pobres de Nairóbi, todos a conhecem com o nome de um dos seus filhos falecidos: Victor. Ela, como muitas outras mães do bairro, leva consigo a pesada carga de um nome.

Victor morreu junto com seu irmão, Bernard, em 9 de agosto de 2017, durante a repressão policial neste bairro no mesmo dia em que a Comissão Eleitoral queniana revelou os resultados provisórios e apontou o atual presidente, Uhuru Kenyatta, como vencedor das eleições; inundando as ruas de manifestantes.

"Vieram para matar. Não houve nenhum confronto: seu único alvo era a juventude", declarou Benna, usando o tradicional turbante africano e uma camiseta do movimento Kenya Tuitakayo ("O Quênia que queremos"), um coletivo civil que luta contra a impunidade.

Considerado como um dos redutos da oposição no Quênia, o subúrbio de Mathare, na zona leste de Nairóbi, tem aproximadamente 500 mil habitantes, e foi um dos bairros que mais sofreu com a violência após as eleições presidenciais, com um total de 19 mortos.

Entre as vítimas, a jovem Stephanie Moraa, de nove anos, morta depois que uma bala perdida da polícia a atingiu no peito enquanto brincava na varanda de sua casa. Sua morte se transformou em um símbolo para estes ativistas, que ainda hoje, um ano e meio depois, pedem justiça.

"Como mães, ainda temos medo quando vemos oficiais da polícia, até mesmo as crianças se afastam deles assustados. Temos medo de nossos netos serem as próximas vítimas", disse Benna, que se sustenta fazendo trabalhos esporádicos, enquanto ajuda a criar seus dois netos órfãos.

Nos últimos anos, contra a passividade das autoridades, surgiram iniciativas civis que dão apoio e orientação jurídica às famílias, além de "manter viva a esperança e encontrar justiça", segundo explicou a ativista e voluntária Beth Mukami, que trabalha no Centro de Justiça Social do subúrbio de Dandora (leste de Nairóbi).

Estes centros colaboram de perto com a iniciativa Missing Voices Kenya ("As vozes perdidas"), um projeto lançado pela Missão de Justiça Internacional (IJM, na sigla em inglês), que documenta os casos e oferece estatísticas sobre o número de execuções extrajudiciais no país.

"O projeto nasceu em agosto de 2018 em resposta ao vácuo que existia quanto ao número de desaparições forçadas e a recusa da polícia a esclarecer estas mortes", afirmou à Agência Efe Joseph Kariuki, responsável de comunicação da IJM no Quênia.

Desde a sua criação, a Missing Voices documentou 2.170 desaparições forçadas e execuções extrajudiciais em todo o Quênia, tendo sido verificados 153 desaparições e 285 assassinatos, enquanto os 1.732 restantes estão sendo analisados.

"Não se pode negar os números. Se rastrearem bem os assassinatos, dá para ter uma ideia mais clara de qual é a situação das execuções extrajudiciais no Quênia", destacou Kariuki.

Esta organização publica cada história confirmada em seu site, dando nome e sobrenome às vítimas, assim como divulga uma fotografia e dados que possam ajudar a resolver os casos ou a descobrir o paradeiro da vítima.

"Há uma família em Migori (oeste do Quênia) cujos parentes tinham desaparecido em 2017 e tinham perdido toda esperança de encontrá-los. Depois de publicar o caso na plataforma, parece que a investigação está avançando", relatou Kariuki.

As várias vítimas da violência policial encontram na Missing Voices Kenya e outros projetos uma plataforma onde podem ser escutadas e, apesar dos seus poucos recursos, onde lutar contra a impunidade e recuperar a esperança. EFE

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