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Milhares de pessoas carbonizadas e multidão de feridos: sobrevivente relembra bomba em Hiroshima

06/08/2020 09h36

Há 75 anos, a primeira bomba atômica foi lançada sobre a cidade de Hiroshima, no Japão. Três dias mais tarde, Nagasaki foi devastada pela segunda bomba. Aos 80 anos, Kunihiko Bonkohara lembra da explosão e da chuva negra de radiação que caiu na sequência. Sua mãe e sua irmã estavam entre as cerca de 200 mil pessoas que perderam suas vidas nos bombardeios.

Há 75 anos, a primeira bomba atômica foi lançada sobre a cidade de Hiroshima, no Japão. Três dias mais tarde, Nagasaki foi devastada pela segunda bomba. Aos 80 anos, Kunihiko Bonkohara lembra da explosão e da chuva negra de radiação que caiu na sequência. Sua mãe e sua irmã estavam entre as cerca de 200 mil pessoas que perderam suas vidas nos bombardeios.

Bonkohara é um hikabusha, um sobrevivente da bomba atômica. Ao lado do diretor de teatro, Rogério Nagai, 41, ele dedica seu tempo ao projeto Sobreviventes pela Paz, que tem a missão de divulgar a tragédia e sensibilizar as novas gerações contra os riscos da guerra e da violência entre povos.

Kunihiko Bonkohara tinha apenas cinco anos quando "Little Boy", a primeira das bombas, explodiu sobre Hiroshima. Na manhã daquele 6 de agosto, ele não saiu de casa com a mãe e a irmã. Foi para o trabalho do pai em um escritório há cerca de dois quilômetros do centro da explosão.

Feridos, mas vivos

Quando veio o clarão, seu pai o jogou para baixo de uma escrivaninha. "Meu pai me protegeu com seu corpo. Ouvi uma explosão muito grande com vento. O escritório era em uma casa de madeira, o telhado voou, as janelas e a porta [voaram]. Os armários caíram, tudo caiu. Quando baixou a poeira, meu pai tirou as madeiras de cima da gente e me ajudou a levantar. As costas do meu pai sangravam, minhas pernas e meus braços também. Estávamos feridos, mas vivos", conta em entrevista à RFI.

Desse dia, ele lembra-se da imagem do centro da cidade em chamas e de muita fumaça. Sua casa foi destruída, como tantas outras que não foram atingidas pelos incêndios que seguiram a explosão.

No meio do fogo, ele viu uma multidão correndo. "Eles tinham o rosto vermelho, olhos fechados, quase não tinham roupa. As peles penduradas. Todo mundo andava devagar e pedia água, homens, crianças, mulheres. Essas pessoas passaram o dia inteiro para um lado e para o outro."

Durante dois dias, ele e o pai tentaram em vão encontrar a mãe e sua irmã pela cidade. "Não tinha nada, tudo era cinza. No centro, muita gente morta, muita gente machucada sentada. Tinha um rio, muitos corpos boiando e depois ficavam amontoados nas duas margens."

Ele se lembra das pessoas queimadas, e até mesmo dos corpos mortos em pé dentro do bonde que foram carbonizados imediatamente pela explosão. "Tinha muito amontoado de cinzas, e meu pai me falou para não pisar nas cinzas porque eram pessoas mortas."

Esse relato é compartilhado por Bonkohara durante o espetáculo "Três sobreviventes de Hiroshima", escrito por Nagai a partir de sua história e da de Takashi Morita, 96, e Junko Watanabe, 77.

Três sobreviventes com uma missão

Os três se encontraram em terras brasileiras, para onde imigraram para refazer suas vidas durante a grande crise que seguiu o final da guerra no Japão. 

O grupo já viajou o Brasil e mais de 40 países contando sua experiência. E, apesar da idade dos participantes, continuam a levar a história para quem se interessar, com o objetivo de manter a memória para que "nunca mais se repita".

Bonkohara destaca que a história é contada com as bombas atômicas como marca do fim da Segunda Guerra, mas pouco se fala sobre as mortes provocadas pela chuva radioativa e as doenças desenvolvidas pelas vítimas da radiação, como o câncer.

Até março de 2020, o governo japonês reconheceu 136.682 hibakushas, sobreviventes das bombas atômicas. "A comunidade japonesa no Brasil pouco fala sobre a história de Hiroshima e Nagasaki, é um assunto tabu", afirma Nagai, que agora faz pesquisas para criar um novo projeto também com vítimas do Holocausto.

O diretor de teatro alerta para o risco do esquecimento do que aconteceu na Segunda Guerra em um momento em que o mundo testemunha o avanço de grupos neonazistas e grandes países deixando para trás os tratados de não proliferação de armas nucleares, como o recente fim do acordo nuclear entre Estados Unidos e Rússia.

 

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