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Coronavírus ameaça transplante de órgãos e deve aumentar espera

Christopher Furlong/Getty Images
Imagem: Christopher Furlong/Getty Images
do UOL

Arthur Sandes

Do UOL, em São Paulo

30/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Associação Brasileira de Transplantes diz que pandemia reduzirá a quantidade de doadores, seja por riscos ou real contaminação
  • Mesmo antes da crise, número de transplantes já era insuficiente e situação de filas de espera agora deve piorar
  • Se não forem transplantados, pacientes que precisam de fígado, coração e pulmão vão morrer, diz médico
  • Quem passou por transplante relata medo de contaminação: com ou sem pandemia, tem que sair de casa para tratamento médico
  • Entidade teme colapso financeiro das clínicas de diálise e transplante que prestam serviço ao SUS

Uma das graves consequências do novo coronavírus, causador da covid-19, será a diminuição do número de transplantes de órgãos e o consequente aumento de tempo de espera. Segundo avaliação da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), a pandemia vai reduzir a quantidade de doadores, seja pelos riscos ou pela real contaminação.

Em condições normais são realizados cerca de 24,1 mil transplantes por ano no Brasil, o que já não dá conta das quase 38 mil pessoas na lista de espera, segundo os dados mais recentes do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT). A maioria espera por rins (66%) ou córneas (28%), e grande parte dos pacientes (41%) está em São Paulo, estado mais afetado pela pandemia de covid-19.

"O cenário é extremamente complexo. À medida que o coronavírus avança, precisamos de mais leitos nos hospitais, inclusive na UTI, e isso vai dificultando a realização dos transplantes", explica o médico José Huygens Garcia, presidente da ABTO. "Por outro lado os transplantes de fígado, coração e pulmão precisam ser mantidos. Se estes pacientes não forem transplantados, eles vão morrer", alerta. Em dezembro, 1.178 pacientes no Brasil esperavam um fígado; 276, um coração; e 187, pulmão.

A tendência é que o covid-19 também diminua muito a captação de órgãos, pelo risco de contaminação causar maior descarte de doadores. E também há hospitais que são referência nos transplantes e também o são no atendimento aos contaminados pelo vírus, o que potencializa a disputa por leitos.

Em circular divulgada nesta semana, a ABTO admite os transplantes de córneas e pâncreas "podem ser postergados, mas não abolidos". Em 2019, estes procedimentos corresponderam juntos a 63% de todos os transplantes realizados no Brasil.

"Se eu não tomar cuidado, eu posso morrer"

Josenaldo Matos Filho, de 38 anos, fez um transplante em junho de 2013, quando recebeu um rim doado pela sogra. Dois anos depois, teve rejeição. "Foi complicado, eu quase morri. Estava seguindo o tratamento direitinho, mas mesmo assim aconteceu", diz. A experiência o traumatizou, e ele ainda não quer voltar à fila de transplantes. Mas ele é do grupo de risco, e também tem o tratamento impactado pelo covid-19

"O cuidado aumentou muito. Antes, quando saía, eu não precisava me preocupar em desinfetar a roupa ao chegar em casa. Não tinha que tirar a roupa, botar em um saco preto, colocar para lavar o mais rápido possível e ir tomar banho", afirma, comparando a rotina atual com a anterior à pandemia. "Tenho que estar pensando o tempo todo: se eu não tomar cuidado, eu posso morrer."

Com ou sem pandemia, Josenaldo tem que sair de casa três vezes por semana para fazer hemodiálise, procedimento que funciona como um rim artificial: retira todo o líquido do corpo e em seguida o devolve, após filtragem. "Estou o tempo inteiro em casa. Só saio para ir à clínica", afirma, temendo a contaminação.

"Não consigo dormir antes das 8h; é preocupação demais. Tento manter o medo sob controle, mas vendo o tanto de pessoas que não estão preocupadas... Por mais cuidado que eu tenha, se eu trombar com qualquer pessoa na rua, eu pego o vírus. O clima é aterrorizante", diz Josenaldo.

Pessoas com doenças renais crônicas, como Josenaldo, estão no grupo de risco do covid-19 por não produzirem hormônios renais e terem baixa imunidade. São 133 mil pacientes nestas condições no Brasil, que mesmo em risco precisam de sessões frequentes de hemodiálise ou diálise peritoneal — esta, feita em casa.

Procurada, a Associação Brasileira de Centros de Diálise e Transplantes (ABCDT) diz que "o tratamento dos pacientes continua normalmente" mesmo durante a pandemia. A ABCDT alerta, no entanto, para um possível colapso financeiro das clínicas que prestam serviço ao SUS (Sistema Único de Saúde). "Elas já vinham enfrentando grave crise", afirma, pois os preços das sessões são congelados enquanto os insumos necessários são cotados em dólar — que vive forte alta.

"É outro medo que temos: se houver um colapso do sistema, como nós vamos ficar? Quando não tiver mais médicos para atender, a gente vai continuar sendo atendido? Se perder uma única sessão, o risco de morte já é muito grande. E como vai ficar para a gente?", diz Josenaldo.

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