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Alunos contam como conseguiram tirar 1.000 na redação do Enem; veja modelo

Os alunos Carlos Eduardo Immig, 19, e Gabriel Lopes, 20, que tiraram nota máxima na redação do Enem 2019 - Arquivo pessoal
Os alunos Carlos Eduardo Immig, 19, e Gabriel Lopes, 20, que tiraram nota máxima na redação do Enem 2019 Imagem: Arquivo pessoal
do UOL

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

17/01/2020 16h00Atualizada em 17/01/2020 16h00

Resumo da notícia

  • Notas do Enem 2019 foram divulgadas pelo Inep
  • Entre 4 milhões de candidatos, só 53 tiraram nota máxima na redação
  • 'Treinar muito e manter a calma na prova ajuda', dizem estudantes

Treinar muito e manter a calma na hora da prova. Para os estudantes Gabriel Lopes, 20, e Carlos Eduardo Immig, 19, que conquistaram a nota 1.000 na redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2019, esses são dois grandes segredos para conquistar a nota máxima.

No ano passado, cerca de 4 milhões de candidatos fizeram o Enem — só 53 deles conseguiram tirar a nota 1.000 na prova de redação, cujo tema foi "Democratização do acesso ao cinema no Brasil". Os resultados foram divulgados hoje pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

Gabriel, que mora no Rio de Janeiro, e Carlos Eduardo, que mora na cidade de Estância Velha, no Rio Grande do Sul, contam que, em suas rotinas de estudos para o Enem, costumavam fazer entre uma e duas redações por semana.

Rascunho da redação feita por Gabriel no Enem 2019 - Arquivo pessoal
Rascunho da redação feita por Gabriel no Enem 2019
Imagem: Arquivo pessoal

"Tem que treinar bastante. É treinando que você consegue ver seus erros, entendê-los e melhorar o texto", diz Gabriel, que é aluno do Colégio pH.

O jovem, que quer cursar medicina, fez o Enem pela primeira vez em 2015. Ele conta que, de lá para cá, percebeu que a redação não envolvia apenas as aulas de produção textual. "Eu via jornal, aulas de história, de geografia, e pensava que ali podiam existir elementos para o texto", afirma.

No Enem, ele fez citações ao filme "Na Quebrada", que fala da relação de jovens da periferia de São Paulo com o cinema, e ao conceito de indústria cultural, termo criado pelos filósofos alemães Theodor Adorno e Marx Horkheimer para falar sobre padrões de consumo (leia o texto mais abaixo).

"O principal, para mim, foi estudar por redações nota mil dos anos anteriores", diz o jovem, citando uma cartilha que é divulgada pelo Inep e que traz textos que conquistaram a nota máxima nas provas do Enem de anos anteriores. "Quando você lê um texto comentado, você entende o que é cobrado."

Carlos Eduardo também conta ter tido a cartilha como base. O jovem, que fez o Enem pela terceira vez e também quer cursar medicina, diz ter ficado surpreso com o tema da redação. "O que me ajudou a tirar nota mil foi eu ter feito muitas outras [redações] antes. A redação do Enem usa um modelo", afirma.

Carlos Eduardo tirou 1.000 na redação - Reprodução
Carlos Eduardo tirou 1.000 na redação
Imagem: Reprodução

Ele destaca a importância de ler os textos de apoio, que acompanham a proposta do tema.

"Um dos textos [de apoio] falava de dificuldade regional, que no Nordeste tem muito menos cinemas do que no Sudeste e como isso dificulta o acesso das pessoas [ao cinema]. Meu primeiro argumento foi falando da chegada da família real e como isso concentrou todos os investimentos em cultura, em modernização, no sudeste do país", diz Carlos Eduardo.

"O importante é manter a calma, porque muitas pessoas quando veem o tema já ficam nervosas e ansiosas. O Enem é uma prova que não tem muito tempo para fazer, então manter a calma é fundamental", aconselha.

Veja, abaixo, o rascunho da redação feita pelo aluno Gabriel Lopes.

O longa-metragem nacional "Na Quebrada" revela histórias reais de jovens da periferia de São Paulo, os quais, inseridos em um cenário de violência e pobreza, encontram no cinema uma nova perspectiva de vida. Na narrativa, evidencia-se o papel transformador da cultura por intermédio do Instituto Criar, que promove o desenvolvimento pessoal, social e profissional dos alunos por meio da sétima arte. Apresentando-se como um retrato social, tal obra, contudo, ainda representa a história de parte minoritária da população, haja vista o deficitário e excludente acesso ao cinema no Brasil, sobretudo às classes menos favorecidas. Todavia, para que haja uma reversão do quadro, faz-se necessário analisar as causas corporativas e educacionais que contribuem para a continuidade da problemática em território nacional.

Deve-se destacar, primeiramente, o distanciamento entre as periferias e as áreas de consumo de arte. Acerca disso, os filósofos Adorno e Horkheimer, em seus estudos sobre a "Indústria Cultural", afirmaram que a arte, na era moderna, tornou-se objeto industrial feito para ser comercializado, tendo finalidades prioritariamente lucrativas. Sob esse prisma, empresas fornecedoras de filmes concentram sua atuação nas grandes metrópoles urbanas, regiões onde prevalece a população de maior poder aquisitivo, que se mostra mais disposta a pagar um maior valor pelas exibições. Essa prática, no entanto, fomenta uma tendência segregatória que afasta o cinema das camadas menos abastadas, contribuindo para a dificuldade na democratização do acesso a essa forma de expressão e de identidade cultural no Brasil.

Ademais, uma análise dos métodos da educação nacional é necessária. Nesse sentido, observa-se uma insuficiência de conteúdos relativos à aproximação do indivíduo com a cultura desde os primeiros anos escolares, fruto de uma educação tecnicista e pouco voltada para a formação cidadã do aluno. Dessa forma, com aulas voltadas para memorização teórica, o sistema educacional vigente pouco estimula o contato do estudante com as diversas formas de expressão cultural e artística, como o cinema, negligenciando, também, o seu potencial didático, notável pela sua inerente natureza estimulante. Tal cenário reforça a ideia da teórica Vera Maria Candau, que afirma que o sistema educacional atual está preso nos moldes do século XIX e não oferece propostas significativas para as inquietudes hodiernas. Assim, com a carência de um ensino que desperte o interesse dos alunos pelo cinema, a escola contribui para um afastamento desses indivíduos em relação ao cinema, o que constitui um entrave para que eles, durante a vida, tornem-se espectadores ativos das produções cinematográficas brasileiras e internacionais.

É evidente, portanto, que a dificuldade na democratização do acesso ao cinema no Brasil é agravada por causas corporativas e educacionais. Logo, é necessário que a Secretaria Especial de Cultura do Ministério da Cidadania torne tais obras mais alcançáveis ao corpo social. Para isso, ela deve estabelecer parcerias público-privadas com empresas exibidoras de filmes, beneficiando com isenções fiscais aquelas que provarem, por meio de relatórios semestrais, a expansão de seus serviços a preços populares para regiões fora dos centros urbanos, de forma que, com maior oferta a um maior número de pessoas, os indivíduos possam efetivar o seu uso para o lazer e para o seu engrandecimento cultural. Paralelamente, o Ministério da Educação deve levar o tema às escolas públicas e privadas. Isso deve ocorrer por meio da substituição de parte da carga teórica da Base Nacional Comum Curricular por projetos interdisciplinares que envolvam exibição de filmes condizentes com a prática pedagógica e visitas aos cinemas da região da escola, para que se desperte o interesse do aluno pelo tema ao mesmo tempo em que se desenvolve sua consciência cultural e cidadã. Nesse contexto, poder-se-á expandir a ação transformadora da sétima arte retratada em "Na Quebrada", criando um legado duradouro de acesso à cultura e de desenvolvimento social em território nacional.

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