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Mercado financeiro teme Corbyn, mas desconfia de Brexit "radical" de Johnson

11/12/2019 17h11

Guillermo Ximenis.

Londres, 11 dez (EFE).- O mercado financeiro do Reino Unido encara as eleições desta quinta-feira como uma faca de dois gumes. Por um lado, teme que um governo de Jeremy Corbyn, do Partido Trabalhista, possa adotar medidas "antinegócios", e por outro desconfia da modalidade mais rígida de Brexit que pode ser implementada por Boris Johnson, do Partido Conservador.

O que parece claro para analistas, investidores e empresas baseados no país é que as eleições vão marcar o início de uma nova era para a economia britânica.

O resultado do pleito vai determinar tanto as condições do Brexit - processo de saída do país da União Europeia (UE) - como uma possível mudança na dimensão e forma do Estado após uma década de austeridade.

MAIORIA ABSOLUTA CONSERVADORA.

Uma vitória ampla de Johnson abriria o caminho para um divórcio negociado com a UE. Analistas concordam que esse cenário estimularia os investimentos, a libra esterlina e as perspectivas econômicas de curto prazo do Reino Unido.

A redução da incerteza política e os estímulos fiscais planejados por Johnson podem levar a uma elevação dos juros no segundo semestre de 2020, com possibilidade de chegarem a 1,5% um ano e meio depois (hoje os juros são de 0,75%), segundo previsões da consultora Capital Economics.

Já a Nomura calcula que a libra esterlina reagiria com uma valorização de cerca de 3,8% em relação ao dólar em caso de vitória dos conservadores nas urnas.

Especialistas alertam, no entanto, que os detalhes da futura relação comercial entre os dois lados do Canal da Mancha ainda estarão incertos, mesmo que o Parlamento britânico ratifique o acordo de separação que Johnson firmou com a UE.

Se o Reino Unido sair da UE em 31 de janeiro com base nesse acordo, começarão em seguida as complexas negociações que visam a elaboração de uma nova relação comercial, cujos pormenores não estão incluídos nesse pacto de saída.

Essa relação deve estar concluída até dezembro de 2020, data em que termina o período de transição. Se este limite não for respeitado e se o prazo não for prorrogado, o Reino Unido será confrontado com um cenário semelhante a um Brexit sem um acordo um ano após a ruptura dos laços com a UE.

Essa possibilidade neutralizaria o otimismo gerado por uma vitória conservadora, disse Paul Dales, economista-chefe da Capital Economics, à Agência Efe.

Caso um governo conservador não concorde rapidamente com uma nova relação comercial ou peça uma prorrogação da transição, o crescimento econômico do Reino Unido pode ser enfraquecido, e o cronograma de aumento de juros, adiado, segundo os especialistas.

CONSEQUÊNCIAS DE UM "BREXIT" RÍGIDO.

O acordo de Johnson aposta em um vínculo futuro mais distante do mercado único e das restantes estruturas do bloco do que o concebido pela ex-primeira-ministra Theresa May, também conservadora.

De acordo com cálculos do governo britânico divulgados em novembro de 2018, um acordo de livre comércio com a UE no mesmo estilo que o feito com o Canadá - como defende Johnson - significaria que o Produto Interno Bruto (PIB) da Grã-Bretanha cresceria 6,7% a menos nos próximos 15 anos, em comparação com a permanência no bloco.

Apesar desses presságios negativos, alguns especialistas acreditam que os mercados podem ver aspectos positivos nesse cenário.

"Com o acordo de Johnson haverá muito mais autonomia (para o Reino Unido), e isso significa flexibilidade para obter melhores resultados econômicos em termos de comércio, circulação de trabalhadores e legislação em geral", disse Bethel Loh, analista da ThinkMarkets, à Efe.

"Sem dúvida, há alguma preocupação sobre como isso pode afetar as empresas, mas também há bastante otimismo", acrescentou.

Dales, por sua vez, afirmou que o mercado vai enfrentar certas contradições ante qualquer resultado eleitoral.

"Terá que lidar com um Brexit mais difícil se houver um governo conservador, mas com políticas favoráveis às empresas, ou com um Brexit mais brando com os trabalhistas, que potencialmente implementariam políticas que reduziriam as margens de lucro", disse.

GOVERNO CONSERVADOR EM MINORIA.

"Uma vitória de Johnson sem maioria absoluta no Parlamento complicaria a ratificação do acordo do Brexit. Isso abriria a porta para um novo adiamento da saída do Reino Unido da UE ou para a possibilidade de uma ruptura não negociada em 31 de janeiro.

Nesse cenário, o estímulo fiscal de cerca de 20 bilhões de libras (US$ 26,3 bilhões) proposto pelos conservadores poderia chegar a um impasse, e os juros poderiam ser reduzidos a 0,5% antes de voltarem a se recuperar, segundo a Capital Economics.

VITÓRIA TRABALHISTA.

Um governo trabalhista garantiria um Brexit suave e uma futura relação mais estreita com a UE, além de permitir a reabertura das negociações com o bloco e, previsivelmente, a realização de um novo referendo, desta vez sobre uma nova adesão.

Ao mesmo tempo, Corbyn propõe aumentar os gastos públicos para um patamar inédito desde a década de 1970 e nacionalizar as empresas ferroviárias e de serviços.

Economistas preveem que um governo liderado por Corbyn com maioria na Câmara dos Comuns poderia pôr em andamento estímulos de 55 bilhões de libras anuais (US$ 72,3 milhões) à economia.

Alguns analistas argumentam que o aumento dos gastos proposto pelo Partido Trabalhista pode impulsionar a economia britânica, mas apontam que este movimento pode ser ofuscado por outras medidas.

"Um dos aspectos mais preocupantes do programa eleitoral trabalhista para o mercado é que o preço a ser pago pelas empresas nacionalizadas seria estipulado por uma comissão de deputados, e não refletiria necessariamente o valor de mercado", disse Thomas Pugh, da Capital Economics.

A própria consultora acredita que haveria uma queda dos juros em caso de maioria trabalhista, enquanto a Nomura considera que a libra se desvalorizaria em 4,4%. EFE

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