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Huawei enfrenta fase de 'vida ou morte' com sanções americanas

Vlad Savov e Yuan Gao

20/08/2019 17h35

(Bloomberg) -- O fundador da Huawei Technologies, Ren Zhengfei, alertou em um memorando interno que a companhia está em um "momento de vida ou morte" e pediu que funcionários subutilizados formem "esquadrões" para explorar novos projetos. Quem não estiver à altura pode ter o salário reduzido progressivamente e perder o emprego, avisou o bilionário.

Desde maio, a Huawei ocupa uma posição desconfortável: é uma marca global de tecnologia bem estabelecida e integrante da lista do governo americano que proíbe negócios com fornecedores dos EUA. Apesar de diversas suspensões das sanções com prazos de 90 dias (a última ontem), a incerteza já custou muito à empresa. Mesmo que as proibições diminuam, o impacto dos acontecimentos do terceiro trimestre será amplo e doloroso.

A perda mais imediata da Huawei se observa no mercado internacional de smartphones. A estimativa interna é vender 60 milhões de aparelhos a menos em 2019 do que venderia sem as restrições americanas. Em 2018, a Huawei aumentou a venda de dispositivos móveis em 34% para 206 milhões de unidades, de acordo com dados da IDC. No primeiro trimestre de 2019, o crescimento se acelerou para 50%, enquanto as rivais Samsung Electronics e Apple registraram quedas. No segundo trimestre, em parte pelo impacto dassanções dos EUA, o crescimento das vendas da Huawei recuou para 8,3%.

Após a entrada bem sucedida no mercado europeu, a Huawei estava prestes a se tornar a maior provedora mundial de celulares. No entanto, a perda do Android, sistema operacional do Google que atua como cérebro dos aparelhos, e do ecossistema de aplicativos da Play Store tornou os dispositivos Huawei indesejáveis fora da China.

Ren advertiu no memorando que funcionários redundantes precisam encontrar maneiras de se tornarem úteis: "Ou eles formam um 'esquadrão' para explorar novos projetos, podendo ser promovidos a postos de comando se forem bem... ou podem encontrar emprego no mercado interno. Se não conseguirem encontrar uma função, seus salários serão reduzidos a cada três meses."

A divisão de consumo é o motor de crescimento da empresa, segundo a própria Huawei, representando 45% da receita no ano passado. A venda de telefones e outros aparelhos para o consumidor é fundamental para sua saúde futura, mas sua reputação foi golpeada pelas acusações e sanções e não será reparada tão cedo.

A Huawei também perdeu tempo com engenharia de software por causa da corrida para entregar um potencial substituto do Android. Com a proibição pelos EUA, a empresa passou a funcionar 24 horas por dia, empregando até 10.000 programadores em três turnos e três escritórios para eliminar a necessidade de software e circuitos dos EUA. A Huawei conseguiu apresentar o HarmonyOS neste mês, apenas para demonstrar que consegue desenvolver sistema operacional próprio, mas não convenceu que tem uma alternativa ao Android pronta para sair do forno.

A fuga de talentos é menos quantificável, mas ainda significativa. A Huawei sofre com os prejuízos a sua reputação global e com o excesso de trabalho dos funcionários em meio aos esforços de recuperação. A empresa demitiu gente em resposta às novas circunstâncias.Ren escreveu que a prioridade é que os empregados façam "ações meritórias" e que os gestores "promovam funcionários de destaque assim que possível e injetem sangue novo na nossa organização".

Repórteres da matéria original: Vlad Savov Tokyo, vsavov5@bloomberg.net;Yuan Gao Beijing, ygao199@bloomberg.net

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