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Sem brilho, "Days Gone" cumpre o básico para sobreviver

do UOL

Rodrigo Lara

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2019-04-25T09:02:00

25/04/2019 09h02

Resumo da notícia

  • Jogo exclusivo de PS4 faz pouco para se destacar no gênero "sobrevivência pós-apocalíptica"
  • Enfrentar as hordas de Frenéticos é o ponto alto da aventura: exige criatividade e improviso
  • Narrativa linear se alterna com a liberdade de ação nas missões

O cenário explorado por "Days Gone", game exclusivo para PlayStation 4, não é exatamente inovador: um mundo pós-apocalíptico tomado por uma epidemia que transformou as pessoas em "zumbis" (Frenéticos, aqui). Já vimos isso em diversas séries de TV, como "The Walking Dead", e vários games, como "State of Decay", para citar só um.

Para ir além, caberia ao Bend Studio inovar. E o estúdio, da própria Sony, até consegue isso com alguns elementos, como as hordas de Frenéticos, mas o resultado geral não empolga.

Ao trazer elementos novos e ao mesmo tempo beber de fontes consagradas, "Days Gone" não consegue fugir da sina de um jogo que ficou em desenvolvimento por seis longos anos. Com exceção da temática "gangue de motociclistas", pouco traz de identidade própria. Não existem defeitos graves, mas esse caráter genérico deixa o jogo bem distante de uma experiência memorável como "The Last of Us", por exemplo.

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Uma vida em duas rodas: a moto de Deacon pode ser aprimorada para estocar munição e suprimentos Imagem: Divulgação

História em prestações

Em "Days Gone", você é Deacon St. John, um sobrevivente do caos que se instalou no mundo. Conforme o jogo avança, você vai conhecendo a história do personagem e entendendo melhor sua forma de pensar - uma estratégia para fazer o jogador se tornar "amigo" do protagonista. Você descobre, por exemplo, como ele e seu parceiro Boozer foram parar ali. Ou ainda, como Deacon carrega um enorme peso pelo desaparecimento de Sarah, sua namorada.

Essa história, separada em linhas de narrativas com suas próprias missões, é um dos pontos agridoces de "Days Gone". Por um lado, isso acrescenta camadas na construção dos personagens. Principalmente no caso de Deacon, que precisa lidar com o passado, resolver questões bem práticas do presente - sobreviver, coletar recompensas etc - e nas horas vagas ainda encontrar uma motivação para o seu futuro.

A tática também dá um ar de importância para missões que, de outra forma, seriam relegadas ao segundo plano. Mas esse método de contar a história dá a falsa impressão de que o jogador poderá se concentrar em qualquer uma dessas linhas narrativas e concluí-las na hora que bem entender, o que não é verdade. Existe um "fio condutor" central na trama que acaba dando linearidade ao jogo. É uma estrutura que lembra um bocado "Horizon Zero Dawn", só que um pouco mais fechada. No fim, funciona se você estiver mais interessado na conclusão da história do que na exploração do mundo.

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Em "Days Gone", a munição não cai do céu, então fique atento para investir no corpo-a-corpo e economizar alguns projéteis Imagem: Divulgação

Seja criativo

A forma de encarar os desafios é o que faz "Days Gone", de fato, ganhar vida. As missões permitem abordagens distintas, que variam entre o clássico tiroteio e soluções menos óbvias, como ataques furtivos e criação de armadilhas com explosivos, por exemplo. Ao coletar recursos pelo cenário, Deacon pode produzir uma boa quantidade de "gadgets" para serem usados nessas horas, como minas de proximidade, coquetéis molotov, bombas caseiras etc. Curiosamente, é mais fácil encontrar recursos para fazer esse tipo de arma do que munição em si.

O tiroteio não é dos mais empolgantes. Admito que poucos games com mecânicas de tiro que joguei até hoje traziam tanta dificuldade para se acertar os alvos. Um argumento seria a suposta inexperiência de Deacon com armas de fogo, mas vemos nas primeiras horas de jogo que isso não é bem verdade. Uma dose exagerada de realismo, talvez? Isso acaba incentivando o uso de armas brancas, explosivos ou outros improvisos. É bom, portanto, ser criativo.

Fauna, flora, Frenéticos

Os inimigos, aliás, vêm em três formas: Frenéticos, humanos e animais, sendo os últimos os mais ameaçadores individualmente.

Os Frenéticos, quando isolados, têm um comportamento previsível. É muito fácil se aproximar sorrateiramente pelas costas de um desses monstros e acabar com ele de maneira furtiva. A situação complica, porém, na hora de encarar hordas. Rápidas e letais, elas demandam uma dose de planejamento. Você precisa pensar em como fazer com que esses zumbis passem pelas suas armadilhas e também planejar uma rota de fuga. Esse é, de longe, o momento mais divertido e emocionante de "Days Gone". Dezenas de Frenéticos investem contra você, criando aqueles momentos de tensão que poucos jogos fazem bem.

Os humanos, por sua vez, podem ser desde sobreviventes como Deacon - que, inclusive, armam emboscadas para surpreender o jogador - até cultistas que enlouqueceram com os novos rumos do mundo. Por fim, temos os animais. Ainda que alguns deles, como cervos, sejam alvos para caça, lobos e ursos podem ser uma tremenda dor de cabeça caso você seja pego de surpresa.

Um cara e sua moto

Deacon explora o mundo devastado de "Days Gone" tanto a pé quanto usando uma moto para trajetos mais longos.

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Alguns animais são apenas caça, outros são caçadores e podem te surpreender pelas estradas Imagem: Divulgação

E, por mais que você possa fazer viagem rápida entre acampamentos ou pontos conhecidos, ainda vai passar longos minutos pilotando a moto em estradas vazias. É uma tarefa maçante, que fica ainda mais incômoda pelo fato de a moto ser como aquelas da vida real: o tanque de combustível não é infinito. Se a gasolina acabar, Deacon estará a pé.

Além de meio de transporte, com o tempo - e os devidos aprimoramentos - a moto acaba funcionando como uma espécie de "posto avançado de operações", podendo carregar munição e outros tipos de suprimentos que você só encontraria em acampamentos. Com a escassez de recursos do jogo, acaba sendo uma ajuda e tanto.

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Quando uma horda de Frenéticos surge, você pode até correr, mas não conseguirá ir muito longe sem um plano Imagem: Divulgação/Sony Interactive Entertainment

Passa de ano, com ressalvas

Em termos de ambientação, "Days Gone" é competente, e só. Você dificilmente vai se deparar com situações de tirar o fôlego, e o som segue na mesma linha, dando um ar de solidão - seja intencional ou não. No final das contas, gostar ou não de "Days Gone" depende mais do que você espera do jogo. Se você está atrás de uma boa história, jogabilidade na média e sem grandes defeitos técnicos, vá em frente. Por outro lado, se procura algo extremamente inovador - em um campo absurdamente explorado nos últimos anos -, que ofereça uma experiência memorável e momentos marcantes, a chance de frustração, infelizmente, é bem grande.

Nota: 7

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