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15 dias

A dura viagem dos haitianos pela selva colombiana

28/09/2021 13h28

El Darién, Colômbia, 28 Set 2021 (AFP) - Um menino de 12 anos escorrega e cai em uma pedra na selva colombiana de Darién. O garoto não chora nem reclama, apenas ajeita a mochila que carrega no ombro e segue andando com a mãe, o pai e o irmão mais novo.

Eles fazem parte de um grupo de 500 haitianos que avançam a pé em direção à fronteira com o Panamá carregados de enormes malas. São pelo menos quatro dias de travessia por uma floresta tropical infestada de cobras e grupos armados.

Mas, desesperados para sair da América do Sul e ir para os Estados Unidos, muitos tentam o trajeto com seus filhos nas mãos ou bebês nos braços.

A AFP os acompanhou por vários quilômetros de trilhas lamacentas cheias de pedras pontiagudas, onde um escorregão pode ser fatal. Um novo grupo percorre a rota quase todos os dias.

"Quem já passou fala que tem que preparar a cabeça pra ver muita coisa (...). Tenho medo do que pode acontecer, pelos filhos, pela família", diz Francisco, de 30 anos, prestes a desafiar o Darién.

Junto com o grupo, 35 homens uniformizados com camisa preta, shorts e bota de borracha. Apresentam-se como "guias" que oferecem "proteção" e "segurança" na selva. Eles estão desarmados.

- "Vamos numa viagem" -"Eu disse (aos meus filhos) que faríamos uma viagem e que poderíamos encontrar agressores, animais, muitos perigos", explica uma mulher que aos 38 anos já emigrou para a República Dominicana e Chile, onde economizou dinheiro para se lançar em busca do 'sonho americano'.

Ela prefere não se identificar por medo de represálias das autoridades de imigração ao longo do caminho.

A maioria dos haitianos vem do Chile ou do Brasil, para onde emigraram após o terremoto de 2010, que deixou cerca de 200.000 mortos em seu país.

O orçamento para toda a rota é de cerca de US $ 1.500. Michaud Noel os reuniu trabalhando como operário da construção civil no Brasil. Na noite anterior à entrada na selva, o homem de 41 anos não conseguia fechar os olhos no acampamento porque se sentia "ansioso".

Ele viaja com sua companheira, sua filha de quatro anos, sua sobrinha de 14 anos e seu irmão, que carrega a mais nova das meninas nos ombros. "As crianças não entendem bem o que está acontecendo, elas só te acompanham", explica Noel, que não entrou em detalhes sobre o percurso e seus perigos com sua filha.

Nos trechos mais difíceis o grupo dá as mãos, formando um imenso cordão humano que se estica e se encolhe ao ritmo dos acidentes do terreno. Os mais pesados e os mais velhos apoiam-se em gravetos que afundam na lama.

- "Não sou coiote" -Os haitianos caminharão dois dias inteiros pela selva até o topo de uma montanha na fronteira com o Panamá. Os guias lideram a marcha.

Cada migrante pagou US $ 300 pelo acompanhamento.

Uma pessoa em boas condições físicas poderia fazer o trajeto em um único dia, "mas têm crianças, velhos, gordos, doentes", explica Alexis, um guia da região.

Aprendeu com os haitianos a expressão "Ann Alé" (vamos lá) e a repete como um mantra na estrada. Avisados sobre a presença de assaltantes e estupradores no caminho, os haitianos seguem os guias com uma estranha mistura de desconfiança e alívio.

"Eu não sou um coiote. Coiote é aquele que rouba, estupra, trai seus clientes. Eu sou um guia e estamos aqui para ajudá-los (os migrantes)", acrescenta este homem de 42 anos.

A caminhada começa com o primeiro raio de sol e, durante a manhã, o grupo avança acompanhando o leito do rio El Muerto, uma serpente de águas cor de esmeralda que cruzam várias vezes.

Várias dragas artesanais aparecem no caminho. São vestígios de uma bonança já extinta da mineração ilegal de ouro na área.

- Autoridade da selva -Dezenas de locais oferecem o transporte de bagagem por US $ 30. A família Noel rejeitou a oferta a princípio, mas depois de uma hora caminhando sobre pedras no calor úmido da selva, negociam para se livrarem de duas malas por 40 dólares.

Um homem magro coloca a bagagem pesada nas costas e desaparece no caminho. Outros preferem aliviar a carga e deixar jaquetas, calças e sapatos no caminho.

"Aqui não se pode roubar o migrante, pelo contrário, nenhum fio de cabelo pode ser tocado", diz Alexis.

Os sherpas da selva são identificados e numerados com uma credencial plastificada e os Noel encontrarão seus pertences no próximo acampamento, explica o guia.

Nem o exército nem a polícia colombiana estão presentes na área, onde exerce autoridade o Clan del Golfo, a maior gangue de narcotraficantes da Colômbia.

Seus integrantes se encarregam da segurança da trilha e punem os infratores com penas que podem ir até a morte. Em troca, cobram um imposto por cada migrante.

Os guias afirmam não fazerem parte dessa organização, mas dependem de sua aprovação para atravessar o território e cumprem suas regras.

"Diz-se muito que aqui roubam os imigrantes, que os enganam e até os estupram. Mas sei que quando o mundo vir a realidade vai mudar a sua imagem da fronteira colombiano-panamenha", defende-se Alexis, enquanto um de seus companheiros estende a mão para um dos migrantes na travessia de um rio.

- "Terra de ninguém" -Por volta das 9h, e com o cansaço cobrando seu preço, a caravana encontra uma subida íngreme cheia de lama.

Este ano, cerca de 70 mil pessoas concluíram o trajeto, segundo autoridades panamenhas. Outras 19 mil aguardam o embarque para a selva no porto colombiano de Necoclí.

"Confie em Deus, porque se não tiver Deus, não chega lá", aconselha um haitiano que prefere não se identificar.

A partir de agora, tudo será subida até o topo da cordilheira que separa a Colômbia do Panamá.

Chegar ao topo não será nenhum alívio. Neste ponto, o acordo termina com os guias colombianos, que correm o risco de serem detidos e processados por tráfico de migrantes pelas autoridades do país vizinho se cruzarem a fronteira.

Segundo Alexis, o outro lado da fronteira é uma "terra de ninguém", onde os migrantes são expostos a gangues que os atacam durante a descida de dois dias a pé até a cidade de Bajo Chiquito.

Nem a aspereza da estrada nem a possibilidade de serem deportados ao chegarem à fronteira com os Estados Unidos impedem os haitianos de cruzar o Darién.

Sinto "um pouco de dor (física), mas isso não é nada. Meu destino são os Estados Unidos", diz Jhon, um dos homens do grupo.

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