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Jovem refugiada afegã em Istambul relata tortura na fronteira da Turquia

16/09/2021 14h47

Desde a vitória do Talibã no Afeganistão e a retirada das tropas do Ocidente, milhares de afegãos tentaram fugir de seu país. Muitos têm como direção a Turquia, a última parada antes da Europa, que é alcançada via Irã, após uma longa viagem difícil e arriscada. Yasamin é afegã. Ela tem 19 anos e deixou Cabul logo após a queda da cidade. A jovem relata sua jornada e seu cotidiano na Turquia, um misto de confusão e medo.

Desde a vitória do Talibã no Afeganistão e a retirada das tropas do Ocidente, milhares de afegãos tentaram fugir de seu país. Muitos têm como direção a Turquia, a última parada antes da Europa, que é alcançada via Irã, após uma longa viagem difícil e arriscada. Yasamin é afegã. Ela tem 19 anos e deixou Cabul logo após a queda da cidade. A jovem relata sua jornada e seu cotidiano na Turquia, um misto de confusão e medo.

Anne Andlauer, correspondente da RFI em Istambul

Não podemos dizer, é claro, que Yasamin é uma garota de sorte. Ela sonhava em se tornar engenheira de computação em seu país, o Afeganistão. A vitória do Talibã apagou seu projeto, destruiu tudo. Mas Yasamin resiste em um café tranquilo em Istambul, na Turquia, menos de um mês depois de deixar Cabul. Para tantos outros afegãos que ainda se encontram no país, isso já é algo que se assemelha a um sonho.

Yasamin não foi evacuada pela capital. Junto com seu irmão de 18 anos, ela fugiu pela estrada dois dias depois que os talibãs entraram em sua cidade.

No total, foram 4.500 quilômetros percorridos entre Cabul e Istambul: "Viajamos de táxi até Teerã, no Irã. Demorou cinco dias. Dia e noite em um táxi. Depois, de Teerã, novamente um táxi para Makou, não muito longe da fronteira com a Turquia. De lá até a fronteira, caminhamos durante três horas. Eu, meu irmão e muitos outros. Éramos 250. Foi muito difícil. Meu corpo inteiro doía", lembra.

Uma chegada cansativa à Turquia

A travessia da fronteira montanhosa entre o Irã e a Turquia é sua lembrança mais dolorosa. Não apenas a dor e o cansaço físico, mas também o que ela viu. Yasamin abraça as abas de seu lenço azul-celeste, amarrado frouxamente sobre o cabelo. "Na fronteira, fomos parados duas vezes por policiais turcos. Eles torturaram os homens. Como sou mulher, eles não fizeram nada comigo, nem fizeram nada com o meu irmão mais novo. Mas para os outros homens que estavam lá sim, muito", denuncia.

A jovem fala de espancamentos no corpo e na cabeça, com punhos, pés, armas, por mais de meia-hora, de policiais que gritavam para o grupo de migrantes: "Voltem para o Irã!" A Turquia não é sua casa!"

Logo após a fronteira, Yasamin e seu grupo chegaram a Dogubeyazit. Lá, os traficantes de migrantes lhes entregaram uma passagem de ônibus para Istambul, a última parada da viagem que durou uma semana.

Na maior cidade da Turquia, Yasamin e seu irmão não conhecem ninguém. Um uzbeque oferece aos dois irmãos para dividir um estúdio no porão de um prédio dilapidado. O irmão encontra um emprego mal pago e não declarado em uma oficina têxtil depois de entrar ilegalmente na Turquia.

Perdida em Istambul

Yasamin conta que evita sair de casa: "Fico muito assustada quando vejo a polícia. Eu me pergunto o que farei se eles me prenderem e me mandarem de volta para o Afeganistão. Meu irmão foi parado por policiais uma vez. A polícia perguntou-lhe para onde ia, pediu os documentos. Ele disse que não tinha nada e a polícia o deixou partir. É uma questão de sorte. Às vezes eles param. Às vezes não", relata.

A jovem diz que se sente perdida. Ela não entende turco e ninguém ao seu redor fala dari ou inglês. A menor menção à sua família - seus pais, seus quatro irmãos e irmãs que permaneceram em Cabul - enevoam seus olhos negros com lágrimas pesadas. Ela garante que ela e o irmão, assim que tiverem dinheiro suficiente, tentarão ir para a Europa.

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