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15 dias

“O Brasil corre o risco de virar um pária internacional”, diz Collor

Collor diz que se o governo Bolsonaro não reorientar políticas ambientais, o Brasil pode ficar ainda mais isolado na comunidade internacional - Kleyton Amorim/UOL
Collor diz que se o governo Bolsonaro não reorientar políticas ambientais, o Brasil pode ficar ainda mais isolado na comunidade internacional Imagem: Kleyton Amorim/UOL
do UOL

Colaboração para o UOL

19/04/2021 19h36

O ex-presidente e senador Fernando Collor de Mello (PROS-AL) disse que se o governo do presidente Jair Bolsonaro não reorientar suas políticas externa e ambiental, o Brasil pode ficar ainda mais isolado na comunidade internacional.

"O Brasil corre risco de virar um pária internacional", disse Collor ao jornal O Globo.

A declaração de Collor, de quem Bolsonaro é próximo, vem na esteira de uma bagagem em que ele teve relativo sucesso. Em junho de 1992, Collor tinha diante de si dois grandes desafios. Enfrentar a crise política que ameaçava seu governo e condução do país na Rio 92, até então a maior e mais importante conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente.

Se no âmbito doméstico, Collor enfrentou, mais tarde, enormes dificuldades, no plano internacional, a participação do presidente e da equipe liderada por ele foi considerada bem-sucedida. Nos anos seguintes, o Brasil passou da condição de coadjuvante a um dos atores principais nas discussões sobre mudanças climáticas.

Nesta semana, o Brasil vai participar da Cúpula de Líderes sobre o Clima, um evento convocado pelo presidente americano, Joe Biden, para marcar o retorno dos Estados Unidos aos debates sobre mudanças climáticas.

Para Collor, Bolsonaro terá um "tarefa árdua" para evitar se transformar no "vilão" do evento. Collor diz que o país não vem fazendo o seu "dever de casa" e afirma que, enquanto o país não apresentar um plano robusto de combate ao desmatamento, o país não vai receber recursos estrangeiros para esse fim, como quer o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

Entrevista ao O Globo na íntegra

Sua participação na Rio 92 foi considerada um relativo sucesso. Como o presidente Bolsonaro pode evitar se transformar no vilão da cúpula do clima?

Trata-se de uma tarefa árdua e que vai demandar esforço muito grande do governo federal no sentido de se reposicionar diante da comunidade internacional como um protagonista confiável e um parceiro aceitável porque ela (comunidade internacional) está muito atenta às mudanças climáticas e à questão ambiental como um todo. A partir de 1992, o Brasil assumiu um protagonismo positivo na discussão ambiental e isso graças às posições que foram adotadas na própria Eco 92 e da ação do governo demonstrando claramente o nosso compromisso de conservação do meio ambiente com vistas a evitar a catástrofe das mudanças climáticas e no cumprimento dos tratados e convenções. De lá pra cá, o Brasil veio se mantendo numa posição de ser um parceiro confiável e de ser um país sempre chamado a dar a sua opinião quando qualquer questão ambiental se colocasse diante daqueles signatários. Infelizmente, de uns anos para cá, essas contenções que havia no governo brasileiro para evitar, por exemplo, propagação das queimadas, aumento dos garimpos, ameaças a comunidades indígenas, tudo isso foi relaxado aos poucos e com isso o Brasil foi perdendo o protagonismo adquirido a partir de 1992.

Na sua avaliação, esse processo se acentuou no governo do presidente Jair Bolsonaro?

Sim. Esse processo se acentuou no governo Bolsonaro porque houve um distanciamento entre a política externa brasileira e a política ambiental brasileira. No meu governo, essas duas áreas vinham atuando em conformidade até porque, na pauta internacional, não se pode dissociar a política externa de um país da sua política da sua política estratégica de meio ambiente.

Considerando os índices de desmatamento em alta do país e a retórica do governo ao longo dos últimos anos, o senhor acha que a atual administração tem crédito para se apresentar como um parceiro confiável junto à comunidade internacional?

Tem crédito, mas é preciso que se tome as medidas. Em primeiro lugar, tem que haver uma inflexão da política externa brasileira. A política externa brasileira afastou o país dos grandes centros de discussão e dos debates internacionais. Houve um isolamento do Brasil. Com o descaso que foi oferecido pelo Brasil, isso nos foi isolando. Para que o Brasil volte a ser protagonista, é preciso que o governo ajuste as duas políticas: a externa e a ambiental. As duas têm que estar perfeitamente sintonizadas e sintonizadas com o que o mundo espera do Brasil. E o mundo espera por um Brasil absolutamente responsável nas questões ambientais, com respeito aos compromissos e cumprimento das metas que o próprio Brasil assinou como seu compromisso.

Recentemente, o governo americano passou a cobrar publicamente uma posição mais firme do Brasil no combate ao desmatamento. Por outro lado, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, se manifestou contra a maior apreensão de madeira ilegal da história no Brasil. Na sua avaliação, Ricardo Salles é ruído ou solução?

Naturalmente, os ministros não são ministros autônomos. Eles obedecem a uma orientação do presidente. Então, é necessário que o presidente se reposicione diante da situação extremamente incômoda, pra dizer o mínimo, na qual o Brasil se encontra. Os ministros seguem a orientação do presidente. Essa mudança tem começar, toda ela, sem dúvida alguma, com uma reorientação do presidente da República.

E se presidente não fizer essa reorientação, o Brasil corre o risco de virar um pária internacional?

Sem dúvida alguma, o Brasil corre o risco de virar um pária internacional. Posição que o Brasil já está vivenciando, se não na sua plenitude, mas no início do isolamento da comunidade internacional. Seja pelos desacertos da política externa com sua a aproximação excessiva com o governo do ex-presidente Donald Trump, seja com osproblemas havidos com a China, com a França. Foram criados diversos pontos de dificuldades onde antes não havia. É preciso fazer essa reorientação sob pena de estarmos alijados do mundo.

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É possível conciliar a pressão internacional e os interesses de parte significativa do eleitorado do presidente que parece dar pouca importância a temas como sustentabilidade, mudanças climáticas ou preservação ambiental?

É possível, sim. Eu fui eleito em 1989 com apoio muito forte do agronegócio e também de garimpeiros.

O presidente e pessoas do seu entorno já alegaram que haveria uma espécie de conspiração ou uma campanha difamatória contra o Brasil por conta da política ambiental do país. Ele também diz que essas críticas são resultado do protecionismo econômico de países da Europa. O senhor acredita nessa tese?

Em conspiração internacional eu não acredito. Agora, o que ele fala em relação ao protecionismo, sobretudo o europeu, isso realmente existe. Temos um acordo entre Mercosul e União Europeia que demorou 20 anos para ser aprovado. Mas estamos muito longe de chegarmos a um final satisfatório porque todas essas medidas têm que ser aprovadas pelos 27 parlamentos que compõem a comunidade. Ele tem razão quando fala no protecionismo, especialmente o da França, que é muito duro. Eles têm as razões deles, mas também temos as nossas.

Veja também: Biden prega cooperação com cúpula climática, mas interesses das potências globais colidem

Mas nesse aspecto, o Brasil vem fazendo o seu dever para evitar esse tipo de cobrança por conta da sua política ambiental?

O Brasil está dando motivo (para essas cobranças). A França, hoje, tem um escudo para defender o excessivo protecionismo dela. O Brasil está dando razões suficientes pra que eles usem isso como escudo. Hoje, essas críticas contra a nossa política ambiental não são resultado apenas da pressão dos governantes europeus. Os próprios cidadãos, os consumidores, cobram os seus governantes para não importarem mercadorias produzidas às custas do desmatamento.

Recentemente, o ministro Ricardo Salles vem solicitando recursos estrangeiros sob a alegação de que ele seriam usados em ações de combate ao desmatamento na Amazônia. Por outro lado, há recursos parados no Fundo Amazônia desde o início da sua gestão. Com esse passivo, o senhor acha que a comunidade internacional tem condições de confiar recursos ao Brasil?

Não. E não terá condições enquanto o Brasil não apresentar um plano robusto e amplo de combate ao desmatamento. E essa proposta tem que ser apresentada e aceita pela comunidade internacional como algo em que se possa confiar e algo que faça sentido. Enquanto isso não acontecer, enquanto isso não for apresentado, não vamos receber nada. O Brasil, nessa conferência convocada pelo (Joe) Biden, vai ter a oportunidade de fazer isso. E espero que ela esteja pronta e seja robusta de verdade. Se o Brasil chegar na conferência pra dizer "me manda dinheiro que nós vamos começar a trabalhar pra nos adequarmos às metas que nós mesmos assumimos", nada será resolvido. O Brasil tem que entender a sinalização que foi feita pelo governo americano dessa missão do representante de comércio que visitou a América do Sul e não visitou o Brasil. Acho que estamos com um prazo muito curto para apresentar uma proposta que seja aceita nessa reunião.

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