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Pressão de governadores favorece Doria na corrida pela vacina

Governadores participam de reunião com o Ministério da Saúde para debater o PNI - Governo do Estado de São Paulo
Governadores participam de reunião com o Ministério da Saúde para debater o PNI Imagem: Governo do Estado de São Paulo
do UOL

Felipe Pereira e Guilherme Castellar

Do UOL, em São Paulo, e Colaboração para o UOL, do Rio de Janeiro

21/10/2020 04h00

Funcionários do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, deixaram o trabalho sorrindo ontem, pela certeza de que o governo João Doria (PSDB) marcou um "golaço político". Horas antes, o Ministério da Saúde cedeu e incluiu a Coronavac, vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, no Plano Nacional de Imunização (PNI).

Caso os testes apresentem resultados positivos e a vacina seja aprovada pela Anvisa, o governador de São Paulo poderá se apresentar como político que trouxe ao Brasil a primeira vacina contra o novo coronavírus.

A previsão é que as doses estejam disponíveis a partir de janeiro. A vacina de Oxford, que tem a simpatia do Palácio do Planalto, deve ficar pronta em fevereiro, mas a expectativa é que chegue ao país em grande volume somente no segundo semestre.

A avaliação de governadores é que em Brasília não havia motivos para alegria. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) vê em Doria um adversário na eleição presidencial de 2022 e o alinhamento do Planalto com os Estados Unidos faz que existam reservas à China, país produtor da Coronavac.

Na semana passada, o governo federal anunciou um cronograma de vacinação que não contemplava a Coronavac. Mas São Paulo já tinha negociado o fornecimento de 60 milhões de doses deste imunizante à população.

Os "brasileiros de São Paulo", para usar a expressão repetida por Doria nas coletivas, seriam imunizados até o meio do ano que vem —antes dos demais brasileiros, por uma decisão do governo federal.

Imunização e retorno à normalidade

Para os governadores, além de salvar vidas, imunizar as pessoas significa voltar à normalidade, ao lazer, e fazer a economia girar e criar empregos.

Um governador ouvido pelo UOL diz que ele e outros colegas já tinham manifestado a intenção de comprar as suas próprias doses de Coronavac, que seriam entregues diretamente para cada estado. Isso desgastaria o presidente Bolsonaro, deixando claro mais uma vez que existe uma disputa política sobreposta à proteção dos brasileiros.

Ao aceitar a vacina, o Planalto adotou a política de redução de danos. Se o Palácio dos Bandeirantes acredita que fez um golaço, o Plantalto conseguiu somente evitar uma goleada.

Corrida pela vacina com jeito de corrida eleitoral

Depois de uma intensa troca de farpas entre Doria e Bolsonaro, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, se reuniu com 24 governadores em uma videoconferência ontem para debater o PNI. Ele anunciou a compra de 46 milhões de doses da Coronavac logo no começo do encontro.

"Na sua primeira frase na reunião, o ministro deixou claro que todas as vacinas farão parte do programa de imunização, inclusive a produzida pelo Instituto Butantan", diz o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB).

Para Dino, foi "um avanço", considerando o clima dos dias anteriores. "Recentemente, o Bolsonaro deu muitas declarações esquisitas contra a China, contra o Doria, contra o Butantan. Então, havia uma dúvida se isso iria impactar na decisão do Ministério da Saúde."

Nas redes sociais, governadores e parlamentares falaram sobre o acordo. No seu post, Doria parabenizou o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e não o governo federal ou o presidente.

Recados ao governo federal

Nas conversas anteriores entre técnicos do Instituto Butatan e da Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo com integrantes do Ministério da Saúde, não havia vacina chinesa, de Oxford nem vírus chinês. As reuniões foram descritas como técnicas, bastante profissionais e produtivas. Apesar da disputa que envolvia os políticos que estão acima deles, os pesquisadores e cientistas se entendiam bem.

Por este motivo, causou surpresa a exclusão da Coronavac do plano de imunização, na semana passada. O sentimento era de que o órgão responsável por distribuir as vacinas estava agindo como se uma das pesquisas mais promissoras do mundo não existisse e não estivesse ao alcance do país.

O Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) reagiu. A entidade tem muito peso na formação de políticas públicas de saúde e convocou uma reunião que resultou em um ofício encaminhado ao Ministério da Saúde.

Doria já havia anunciado que viajaria a Brasília hoje e este seria o prazo final para um acordo sobre a Coronavac no PNI. Ontem, governadores marcaram reunião com o ministro da Saúde. Os recados eram claros, mas o tom de conciliação predominou.

"Ressaltamos a importante atitude do ministério. Saúde se faz com diálogo e democracia. Algumas vezes com divergências respeitosas, mas sobretudo com a preocupação de cuidar da população brasileira, garantindo a vacina o tão logo possível", declarou Carlos Eduardo Lula, presidente do Conass

A decisão foi comemorada por gestores de vários campos políticos. "Ótima notícia que levará ao trabalho conjunto entre a União, estados e municípios para alcançarmos igualmente todos os brasileiros", disse o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB).

"O governo federal e o Ministério da Saúde têm sido bastante leais e republicanos no tratamento dessa questão", comentou o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB). "Não faz sentido que num país como o nosso houvesse disputa entre os estados por aquisição de vacinas. É o ministério que vai adquirir e distribuir essas vacinas."

Médicos criticam politização da vacina

Para a classe médica, que está na linha de frente da pandemia, a guerra no discurso atrapalha o combate à covid-19. "Se você tem autoridades de Saúde dizendo que a vacinação começa no dia 15 de dezembro, mas logo depois voltam atrás, isso gera confusão entre a população", diz Denise Garrett, médica e epidemiologista e vice-presidente do Instituto Sabin de Washington, nos EUA.

Para a pesquisadora Cristina Bonorino, que é imunologista, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e integrante da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), "a pandemia toda foi marcada pelo uso político". "Qual é a relevância de se politizar discussões como uso de máscara, a cloroquina, a vacina? Até um tempo atrás, nossos políticos diziam a vacinação seria em outubro. Agora estão mudando para tentar ganhar alguma coisa com isso."

Ela afirma que é necessário ter critérios para aprovar os imunizantes e não criar uma corrida pela vacina. "Nessa competição, o tempo não é o mais relevante, mas sim a qualidade da vacina. Você pode ter encomendado o imunizante que fique pronto primeiro, mas pode não ser o melhor."

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