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A batalha na Flórida: os 3 grupos que podem decidir se Trump ganhará novo mandato nos EUA

Luis Fajardo

Da BBC Monitoring em Miami

19/09/2020 21h38

Poucos observadores da política americana ficariam surpresos em saber que, segundo pesquisas de opinião recentes, a Flórida é um dos Estados em que a corrida presidencial está mais apertada.

Considerado um Estado-pêndulo crucial, a Flórida está acostumada a disputas eleitorais dramáticas, resultado de sua extrema polarização política.

É comum que o voto local fique dividido meio a meio entre democratas e republicanos, fazendo com que o resultado de eleições muitas vezes dependa de pequenas variações, pendendo para um ou outro lado, entre os múltiplos grupos do vasto e diverso eleitorado estadual.

Neste ano, três desses grupos estão atraindo atenção particular. Padrões de voto entre cubano-americanos, cidadãos idosos e ex-criminosos podem acabar definindo qual candidato presidencial vai ganhar na Flórida - e ter uma influência desproporcional na decisão de quem ocupará a Casa Branca a partir do ano que vem.

1 - Trump avança entre cubano-americanos

Muitos moradores de Miami (a maior região metropolitana da Flórida) devem ter notado um aumento no número de peças publicitárias eleitorais produzidas em espanhol pela campanha do democrata Joe Biden.

A torrente de anúncios democratas é parte de uma tentativa de conquistar o voto hispânico nessa parte do Estado. Mas, para alguns analistas, esse esforço pode ser insuficiente e demasiado tardio.

"Isso é algo que os democratas deveriam ter feito meses ou mesmo anos atrás, e não dias atrás", diz à BBC o estrategista eleitoral democrata Fernand Amandi.

Uma pesquisa divulgada no início da setembro pela empresa dele, a Bendixen & Amandi, mostrava a campanha do presidente Donald Trump fazendo progresso na cooptação dos eleitores de origem cubana, que representam cerca de um terço da população do condado de Miami-Dade.

Segundo a pesquisa, 68% dos cubano-americanos em Miami dizem que votarão no presidente e apenas 30% em Biden. Em 2012, quase a metade dos votos desses eleitores havia ido para Barack Obama; e, em 2016, 41% deles votaram em Hillary Clinton.

Na última terça (15/9), Biden visitou o enclave porto-riquenho de Kissimmee, perto de Orlando, prometendo ajuda econômica para a ilha caribenha e até tocando, por alguns segundos, o hit Despacito, do cantor porto-riquenho Luis Fonsi.

No geral, Biden ainda tem vantagem no condado de Miami-Dade. A pesquisa de Bendixen & Amandi apresenta-o com uma margem considerável, de 55% contra 38% de Trump.

Mas Amandi aponta que Biden não pode se dar ao luxo de vencer por pouco na região de Miami: ele teria de ganhar com folga ali. Isso porque uma vitória apertada significaria que Trump precisaria de uma vantagem menor no rural (e amplamente republicano) norte da Flórida para conquistar o Estado.

Ou seja, ceder - mesmo que uma parcela pequena - dos votos latinos de Miami pode virar um grande revés para Biden.

Pode parecer surpreendente o avanço de Trump com o eleitorado latino, se considerado o polêmico histórico de declarações do presidente a respeito dos imigrantes mexicanos sem visto. Mas os cubano-americanos tendem a votar com os republicanos desde a década de 1960 - uma exceção à regra entre os hispânicos, em geral mais alinhados aos democratas.

Trump também fez intensa campanha nessa região, encontrando-se com frequência com líderes cubano-americanos. Muitos desses eleitores, cuja história familiar é definida por sua fuga da Cuba comunista, foram convencidos pela caracterização, por parte dos republicanos, dos democratas como radicais de extrema esquerda.

"A campanha do medo que eles (republicanos) estão fazendo em torno do socialismo, e acusando os democratas de serem semi-comunistas, aparentemente está tendo um impacto", explica Amandi à BBC.

A comunidade hispânica da Flórida, de quase 5,8 milhões de pessoas, está por sua parte se tornando mais diversificada. Democratas esperam que, no futuro, uma crescente comunidade porto-riquenha em Orlando possa fazer frente ao bastião cubano-republicano em Miami.

Mas, entre os mais de 1 milhão de porto-riquenhos da Flórida, a maioria são relativamente recém-chegados aos EUA continentais, e muitos têm pouca fidelidade seja a democratas ou a republicanos.

2 - A pandemia pode convencer os mais velhos a apoiar Biden

Quase 20% da população da Flórida tem 65 anos ou mais, segundo o censo americano. O Estado só perde em porcentagem de idosos para o Maine.

Candidatos republicanos têm por hábito fazer campanha em locais como The Villages, uma crescente e afluente comunidade de aposentados perto de Orlando, e geralmente são calorosamente recebidos ali.

Neste verão (no hemisfério Norte), porém, a imprensa local mostrou simpatizantes de Biden fazendo carreatas com carrinhos de golfe, para competir com os eventos eleitorais comumente elaborados pelos candidatos republicanos em The Villages.

Pesquisas indicam que a pandemia do coronavírus, e a forma como o governo Trump respondeu à emergência, pode estar erodindo a vantagem republicana entre os eleitores idosos.

Um levantamento da NBC/Marist divulgado em 8 de setembro mostrou Biden tecnicamente empatado, com 49% de intenções de voto dos cidadãos de terceira idade da Flórida, contra 48% de Trump.

Para efeitos comparativos, na eleição de 2016, Trump venceu com 57% dos votos nesse grupo etário, contra 40% de Hillary.

3 - Voto de pessoas com histórico criminal

Em 11 de setembro, uma decisão de uma corte federal de apelações tornou mais difícil, senão impossível, para que muitos dos quase 1,4 milhão de ex-criminosos da Flórida possam votar nas eleições de novembro.

O voto desse grupo tem peso no Estado, explicou em março à BBC a professora Kathryn DePalo-Gould, da Universidade Internacional da Flórida. "Muitos deles são afro-americanos - e em cerca de 90% das vezes os afro-americanos se filiam ao Partido Democrata e votam em candidatos democratas", disse.

A Flórida já era um dos poucos Estados americanos a impor um veto perpétuo à participação eleitoral de pessoas com histórico criminal. Até que, em 2018, um plebiscito reverteu isso. Mas, pouco depois, o legislativo estadual aprovou uma lei determinando que, para votar, ex-criminosos teriam primeiro que quitar as multas judiciais (às vezes de milhares de dólares) que haviam sido condenados a pagar.

Agora, a decisão judicial de 11 de setembro mantém essa lei em vigor. Ou seja, os democratas podem possivelmente contar com o voto de ex-criminosos que consigam quitar sua dívida judicial até as eleições de novembro, mas provavelmente esse grupo não irá às urnas em peso.

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