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O adeus à empregada?

Astrid Prange

16/09/2020 13h03

O adeus à empregada? - A pandemia forçou muitas famílias a se virar sem empregada e talvez faça com que o trabalho das domésticas seja mais valorizado. Quando a patroa limpa a casa, sente o peso do trabalho que sempre terceirizou.Caros brasileiros,

nunca imaginei ver um lado bom no coronavírus. Ele teve o poder de abalar uma instituição da sociedade brasileira que parecia insubstituível e inquestionável: a empregada doméstica.

O vírus está forçando muitas famílias brasileiras a se virar sem empregada há um bom tempo. De repente, a patroa e, às vezes, também o patrão começaram a aprender a cozinhar, lavar roupa, passar aspirador de pó, passar pano no chão e tomar conta das crianças.

Uma amiga minha virou cozinheira. Com as dicas da empregada pelo telefone, começou a fazer pratos refinados, como lasanha de berinjela e suflê de legumes. E gostou. A empregada, que desde março está em casa recebendo salário, se impressionou com a chefe: "Em duas semanas, ela aprendeu tudo."

O coronavírus mudou as regras de casa. Cozinhar virou coisa de chefe. Programas de culinária na televisão, receitas no Instagram e dicas compartilhadas em grupos de Whatsapp fizeram milhares de pessoas no home office aprenderem a cozinhar.

Além disso, os sites de gastronomia viram um aumento gigantesco no tráfego desde o início da pandemia. O portal de receitas do Uol teve um crescimento de 230% na audiência em junho em relação a março. Já o canal do programa MasterChef no YouTube ganhou 129 mil novas inscrições durante o período de quarentena.

Quem não gosta de cozinhar, talvez tenha se inspirado com os programas e pedido um prato especial num dos serviços de entrega de comida que tanto cresceram na pandemia. Para muitos restaurantes, esses eram os únicos meios de manter seu negócio vivo.

As empregadas que ficaram em casa também tinham que inventar uma maneira de ganhar dinheiro, pois muitos patrões, segundo a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas, não continuaram pagando o salário.

"Muitas mulheres tentaram fazer alguma coisa nova", disse Maria Noeli dos Santos, do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas do município do Rio. "Algumas fizeram comida em casa e venderam para fora, outras ofereceram serviço de manicure. Se der certo, vão continuar."

Será que o coronavírus conseguiu, então, o que a PEC das Domésticas pretendia alcançar e ainda não conseguiu? A meu ver, a pandemia deu no mínimo um empurrão, ao fazer com que um trabalho essencial, sempre negligenciado e discriminado, fosse mais valorizado. Pois se a patroa limpa a casa, vai sentir o peso do trabalho que ela sempre terceirizou. Se o patrão cozinha, ele provavelmente vai declarar a nova atividade como "arte culinária".

No entanto, essa minha esperança em relação a uma valorização do trabalho doméstico infelizmente se depara com um cenário nada favorável: metade das 8 milhões de empregadas domésticas brasileiras trabalha sem contrato e ficou quase totalmente desamparada durante a crise do coronavírus.

No novo livro Coronavírus: O trabalho sob o fogo cruzado, o sociólogo Ricardo Antunes, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas na Unicamp, descreve a realidade cruel de uma crescente precarização. Segundo Antunes, as desigualdades já existentes no período pré-pandêmico adquiriram "um toque de crueldade": "A classe-que-vive-do-trabalho se vê na encruzilhada: morrer por covid-19 ou morrer de fome", escreve.



É verdade: muitas empregadas domésticas continuam trabalhando, arriscando a própria vida. Precisam do dinheiro, e a patroa não quer abrir mão do serviço, mesmo com o risco de uma infeção pelo coronavírus.

Mas a crueldade do coronavírus deve sacudir a sociedade brasileira. Depois que a crise passar, provavelmente cada vez menos mulheres vão voltar a trabalhar como empregadas, seja porque acharam uma alternativa, seja porque o empregador não chamou mais.

As mensalistas vão se transformando cada vez mais em diaristas, uma transformação que já vinha acontecendo há muitos anos. A pandemia deve contribuir ainda mais para essa mudança de perfil da categoria mudou. Não adianta reclamar: a empregada não deve mais fazer parte da "tradicional família brasileira".

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Astrid Prange de Oliveira foi para o Rio de Janeiro solteira. De lá, escreveu por oito anos para o diário taz de Berlim e outros jornais e rádios. Voltou à Alemanha com uma família carioca e, por isso, considera o Rio sua segunda casa. Hoje ela escreve sobre o Brasil e a América Latina para a Deutsche Welle. Siga a jornalista no Twitter @aposylt e no astridprange.de.
Autor: Astrid Prange

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