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O estressante ofício dos paramédicos mexicanos

03/07/2020 17h33

Ciudad Nezahualcóyotl, México, 3 Jul 2020 (AFP) - Ao cair da noite, um grupo de paramédicos está atento às chamadas de doentes com COVID-19 perto da Cidade do México, mas não apenas. Situações de morte e violência esperam por eles.

- COVID letal -Uma mensagem via WhatsApp alerta Jorge Lino, de 52 anos, e Hugo Cruz, de 40, que atendem o chamado de uma família em Nezahualcóyotl, um dos municípios mais afetados pela pandemia, com 602 mortes e 3.617 infecções.

Com três décadas de experiência, Jorge entra na casa onde uma senhora, cercada por imagens religiosas, jaz na cama.

Com uma voz serena, confirma o que seus parentes temiam: está morta. Diabética, a mulher apresentava sintomas do coronavírus. Dos 29.189 mortos pela COVID-19 no México, cerca de 10.500 tinham diabetes, segundo dados oficiais.

Desolada, a família pede a Jorge que verifique o pai idoso, isolado em outro quarto com febre, falta de ar e sem conseguir se mover.

Por causa da pressa com que partiu, o maqueiro usa apenas máscara e luvas. Mesmo assim, ele se senta na beira da cama para reanimá-lo.

Então, aconselha a família a levá-lo para um hospital na Cidade do México, onde - segundo o governo - a ocupação é de 56%, e ele terá um leito com respirador.

Jorge diz que sua vocação floresceu na infância. "Fui salva-vidas, socorrista, paramédico, operador de veículos de emergência, tudo para acompanhar as pessoas nos momentos mais críticos", disse ele à AFP.

Após essa missão, uma jovem grávida o espera, em crise nervosa por causa de uma discussão em família.

- Quarentena violenta -Em plena madrugada, os paramédicos Mydori Carmona, 38 anos, e Sergio Villafan, 24, vão para uma casa humilde, onde um homem supostamente drogado espancou brutalmente sua mãe e tentou esfaquear o próprio coração.

A vítima já havia sido socorrida pela Cruz Vermelha. O agressor, na casa dos 40 anos, contou com Sergio e Mydori, que afirmam que os chamados por violência doméstica aumentaram durante a quarentena.

Segundo o governo, em maio foram registrados 16.057 casos de violência doméstica, dos 85.445 registrados neste ano.

Fora da casa, uma dúzia de vizinhos se prepara para repreender o agressor.

"Covarde! Isso o bairro não aceita!", grita um vizinho furioso, enquanto dois policiais conduzem o acusado à patrulha.

Os justiceiros atacam o agressor com murros e chutes. "Já chega! Na cara, não! O juiz não vai nos receber assim!", grita um oficial.

A dupla de enfermeiros já não podia fazer mais nada. Só voltar para a ambulância e aguardar o próximo caso, o atropelamento de um sem-teto.

"A pandemia deveria ser uma grande oportunidade para apreciar momentos em família, o que somos, vivemos e temos. É uma pena que não seja esse o caso!", lamenta Mydori.

A COVID-19 também deixou 238.511 infectados no México, com 127 milhões de habitantes.

- "Vai morrer" -É quase meia-noite, e a luz da sirene ilumina as ruas onde Emma Velázquez, 42 anos, e Jesus Sholndick, 29, vão para uma casa modesta.

Emma caminha por um beco quando é interceptada por uma velha desesperada. Chorando, ela diz que ligou, porque sente que está morrendo.

Jorge se apressa e detecta fortes mudanças de pressão na mulher, a quem pergunta se alguém pode acompanhá-la ao hospital. Mas ela está sozinha com os netos: um bebê e uma criança de seis anos.

Sua filha trabalha à noite para uma empresa de segurança privada.

O paramédico a estabiliza e sugere levá-la para o hospital, mas a avó se nega.

Resignado, caminha em direção à ambulância, onde Emma espera por ele. Então, com um olhar triste, prevê: "ela vai morrer".

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