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'Recontar trará mais mortes, não menos', diz líder de secretários de Saúde

Alberto Beltrame, presidente do Conass - Reprodução/Conass
Alberto Beltrame, presidente do Conass Imagem: Reprodução/Conass
do UOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

06/06/2020 19h42

O presidente do Conass (Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde), Alberto Beltrame, afirmou hoje ao UOL que uma hipotética recontagem de mortos pela covid-19 irá encontrar mais óbitos por conta da subnotificação, do que menos como insinuou o secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Carlos Wizard.

Mais cedo, o Conass soltou um dura nota assinada por Beltrame classificando a fala do secretário como uma tentativa "autoritária, insensível, desumana e antiética" de dar invisibilidade aos mortos pelo coronavírus.

Se a recontagem fosse hipoteticamente feita, ele teria uma surpresa."

"Aqui no Pará, eu garanto que não tenho nenhuma subnotificação de óbito, todos que ocorreram foram notificados corretamente. Mas é possível que em algum lugar eventualmente tenha sido registrado como causa desconhecida, e pode ser que o secretário se surpreenda ao ver que há mais do que menos mortes, ao contrário do que ele está dizendo", diz.

Para Beltrame, Wizard deve desconhecer a forma como é feito o preenchimento dos atestados que resultam na contagem de óbito. "A secretaria dele é de ciência e tecnológica, não de vigilância. "Tenho certeza de que ele desconhece esse tema, duvido que conheça como é a averiguação de óbito por qualquer causa", afirma.

Outra insinuação desmentida pelo presidente do Conass é que os estados recebem mais recursos à medida em que têm mais mortes por covid-19.

"Nenhum estado recebe recursos por casos ou número de óbitos. Ele está muito equivocado, desinformado, porque a declaração carece de qualquer credibilidade."

Ele [Wizard] está colocando em dúvida os médicos [que assinam os atestados], ou então está acusando um secretário de chegar e mudar a CID [classificação internacional de doenças] desses atestados. É como se isso fosse trazer mais recursos, e essa relação não existe."

"Pazuello resolveu coisas atrasadas há meses"

Apesar de ter feito críticas às trocas de comando do ministério, ele afirma que o novo gestor interino da pasta, o general Eduardo Pazuello, melhorou a interlocução com estados e municípios.

O Pazuello tem feito um esforço muito grande para retomar o diálogo. Tivemos uma enorme dificuldade com o [ex-ministro Nelson] Teich, ficamos três semanas sem interlocução com o ministério. Agora temos feito reuniões diárias, e a relação com ministério melhorou bastante."

"Providência práticas começaram a andar, como a habitação de leitos de UTI [Unidade de Terapia Intensiva] Ou seja, o Pazuello resolveu coisas que estavam atrasadas há meses, como os hospitais de campanha. Houve um avanço na interlocução, com um diálogo bem mais fácil", comenta.

Sobre o avanço no número de casos no país, Beltrame diz ainda ver um "longo caminho a andar".

"Temos alguns estados já com curvas descendente, e outros com curvas a subir. O que a gente precisa agora é que a gestão da pandemia seja colegiada, que tenha uma linguagem unificada e que as decisões sejam tomadas em conjunto", finaliza.

Cobranças

Ainda em conversa com o UOL, o líder dos secretários estaduais afirmou que vê um dos pleitos dos secretários é a unificação de um discurso por parte dos governos para que haja uma fala única. Para Beltrame, as falas contrárias ao que orientam os cientistas — e ao que fizeram os governos estaduais — dificultaram as ações para garantir o isolamento.

"Isso tem sido uma cobrança permanente no Conass. Mas, como não temos tido sucesso nessa empreitada de unificar, nós [estados] seguimos fazendo o que nos compete: dizer à população o que as melhores indicações da ciência indicam", diz.

Entretanto, ele afirma que, como a questão legal foi resolvida, o problema foi convencer as pessoas. "Podemos ignorar que isso tem influência e cria uma dificuldade. A questão dos decretos foi resolvida pelo STF [Supremo Tribunal Federal], dizendo que os estados tinham autonomia. A partir daí, o que se segue é o problema da comunicação."

"Seria importante ter um ministério falando de isolamento como política pública mais eficaz. Mas isso não ocorreu", lamentou.

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