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Se negros e índios fossem às ruas o 'sistema' caía, diz ativista brasileiro

Joselito Crispim atua em movimentos contra desigualdade em Salvador - Divulgação
Joselito Crispim atua em movimentos contra desigualdade em Salvador Imagem: Divulgação
do UOL

Cleber Souza

Do UOL, em São Paulo

05/06/2020 04h06

"Lá [nos Estados Unidos], eles não brigam só pelo [George] Floyd, mas pela saúde, segurança e infraestrutura. Agora, se essa faísca se acender no Brasil, será completamente diferente. Se índios e negros saírem às ruas para lutar por direitos, o sistema cai".

Esse foi a afirmação de Joselito Crispim, atuante em movimentos contra a desigualdade social e racial na favela Solar Unhão, periferia de Salvador, Bahia.

Ele faz a afirmação baseado na radiografia da população brasileira. Pardos, pretos e indígenas juntos compõem cerca de 64% dos habitantes do país (IBGE, 2015). "Seria o fim da sociedade como a conhecemos", argumenta Crispim.

Olhando para a situação nos Estados Unidos (EUA), ele afirma que o movimento negro brasileiro sempre esteve atento a qualquer ato racista no mundo, e que isso pode ser revertido no Brasil.

Nesta quinta-feira, norte-americanos velaram o corpo de George Floyd, 46, negro morto asfixiado por um policial branco no dia 25 de maio, na cidade de Minneapolis.

Na mesma semana, no Brasil, a morte de João Pedro, 14, numa operação policial conjunta entre as polícias Federal e Civil no Complexo do Salgueiro, Rio, causou indignação — mas não com as mesmas proporções e mobilizações do país norte-americano.

Nos EUA, prefeitos e governadores apoiam os protestos com o discurso de que o movimento tem razão em estar furioso. Em solo brasileiro, o presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, chamou o movimento negro de "escória maldita".

Nos EUA e no Brasil

O UOL ouviu movimentos negros do Brasil para entender o estágio atual da luta por igualdade de direitos e tratamento no país. A reportagem questionou também o que pensam ativistas sobre a diferença dos protestos nos EUA e no Brasil.

Professor de história e membro do movimento negro Uneafro Brasil, Douglas Belchior aponta o obstáculo da miséria, agravada pela pandemia.

"População negra precisa dar conta da sobrevivência. São as organizações e coletivos de pessoas negras que têm prestado apoio imediato e combatido a fome e a miséria gerada pela crise do coronavírus. A polícia que não deixa de matar em plena pandemia", afirmou Belchior.

Philippe Oliveira de Almeida, professor de filosofia do direito da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador do grupo de pesquisa Controle Estatal, Racismo e Colonialidade Cerco), entende que trata-se, evidentemente, de um tema que está na ordem do dia, e é uma comparação de movimentos arriscada.

Multidão se reúne em Nova York contra a morte de George Floyd, em Minneapolis - Johannes EISELE / AFP - Johannes EISELE / AFP
Multidão se reúne em Nova York contra a morte de George Floyd, em Minneapolis
Imagem: Johannes EISELE / AFP

"O racismo é um sistema de opressão complexo de estratégias distintas. A luta antirracista, no Brasil, não pode e não deve assumir as mesmas configurações da luta nos EUA. O Brasil também tem uma tradição de resistência ao racismo. Por causa da 'democracia racial' essa tradição acaba sendo invisibilizada", apontou o professor.

"As mobilizações pelas mortes da menina Ágatha Félix e Marielle Franco tem um fundo antirracista mais que evidente. Mas que acabam sendo sistematicamente ignorados. Essa faceta do movimento, no entanto, é apagada das nossas narrativas", disse Almeida.

Os desdobramentos de manifestações como nos Estados Unidos, no entanto, podem ganhar força e "mudar a chave" no Brasil. Para Philippe, é possível que vejamos, nos próximos anos, uma nova onda de manifestações em solo brasileiro.

Aza Njeri - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Aza Njeri, professora e doutora de Literaturas Africanas, especialista em África e Afrodiáspora
Imagem: Arquivo pessoal

Professora pede mais organização

Aza Njeri, professora e doutora em Literaturas Africanas, especialista em África e Afrodiáspora, aponta que o que ocorre nos Estados Unidos é uma consequência de uma longa experiência de organização que eles têm.

"Eu não acho que a movimentação parece ser mais poderosa. A visibilidade nos Estados Unidos é maior. E nem é porque a movimentação é negra, e sim porque a movimentação acontece nos Estados Unidos", apontou Njeri

Para ela, o movimento negro brasileiro precisa de organização dessas manifestações para os pós. "Não só em relação às manifestações do movimento negro, mas em geral elas são mobilizadoras, elas não são organizadores, e por serem assim elas não conseguem construir nada para o após".

"Quando acontece um protesto pela morte de um pobre, negro, manifestos de estudantes, a população vai, quebra tudo, a polícia vem e quebra eles também. E depois isso dispersa. Não há uma preparação nem para um segundo ato", comentou a professora

João Pedro, morto aos 14 anos em operação policial no Rio, com a mãe Rafaela e a irmã Rebeca - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
João Pedro, morto aos 14 anos em operação policial no Rio, com a mãe Rafaela e a irmã Rebeca
Imagem: Arquivo Pessoal

Vidas "matáveis"

Para Almeida, racismo é, em si, um instrumento desumanizador. A morte de uma criança preta, frequentemente, causa menos escândalo que de uma criança branca.

"Por quê? Por que o racismo dissemina a ideia de que vidas negras são 'matáveis'. O racismo cria caricaturas que 'animalizam' o negro, o que dificulta a construção de laços de identificação e de solidariedade", comentou o professor.

Crispim, que disse a frase que abre esta reportagem, afirma ainda que o que conforta a classe média alta é a morte de um negro, pobre e que possivelmente estava cometendo crimes. Ele tem um filho nascido na França e viaja com frequência à Europa.

"Os jovens negros estão morrendo em combate com a polícia no Brasil e isso não é mostrado como nos EUA. Já tomei 'baculejos' [abordagens] de policiais europeus, na França, Alemanha e Suíça, por eu ser negro. Sou tratado como o pior traficante de favela", comentou.

Com seis anos de idade, Crispim afirma que descobriu que a cor da sua pele gerava desconforto para pessoas brancas. Relata também que seu filho já percebe a forma que são tratados quando estão juntos.

"Meu filho percebeu que só quando estou com ele na Europa que os policiais e seguranças seguem a gente. A polícia esconde vícios históricos de abordagem. Somos tratados como terroristas em todos os países."

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