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Secretário troca comandante da Rota crítico a Bolsonaro e alinhado a Doria

Tenente-coronel Mário Alves da Silva Filho comandou a Rota por um ano - Reprodução
Tenente-coronel Mário Alves da Silva Filho comandou a Rota por um ano Imagem: Reprodução
do UOL

Luís Adorno e Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

27/05/2020 18h24

Quando assumiu a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) em maio do ano passado, o tenente-coronel Mário Alves da Silva Filho recebeu a promessa de ficar até pelo menos outubro deste ano, quando o batalhão vai completar 50 anos de existência. No entanto, ontem foi seu último dia à frente da tropa.

Por decisão do secretário da Segurança Pública, o general João Camilo Pires de Campos, Silva Filho foi transferido para o CPChq (Comando de Policiamento de Choque). Para substituí-lo à frente da Rota, Campos escolheu o tenente-coronel José Augusto Coutinho, que estava no 4º BPChq, o batalhão de operações especiais.

Para muitos da tropa, Silva Filho se alinhou ao discurso do governador João Doria (PSDB), que é criticado internamente dentro da Rota, e se opôs ao discurso do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que tem a simpatia da maioria dos policiais do batalhão.

Desde que Silva Filho testou positivo para a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, em 15 de maio, suas opiniões públicas sobre saúde pública e política começaram a incomodar. Ele defendeu publicamente e para pessoas próximas o isolamento social como precaução contra a doença.

Além disso, criticou o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a covid-19, a exemplo da cloroquina e hidroxicloroquina — na semana passada, o governo Bolsonaro divulgou um protocolo para aplicação da cloroquina e hidroxicloroquina em pacientes em todos os casos.

O secretário da Segurança Pública fez uma série de mudanças entre oficiais da PM, que foram publicadas no Diário Oficial de hoje. A reportagem apurou que Campos, ao ponderar pressões feitas por membros da bancada da bala, decidiu estrategicamente retirar Silva Filho da Rota por receio de "perder a tropa".

Com o novo comandante, espera conter os ânimos de muitos policiais, da ativa e da reserva, praças e oficiais, que circulam pelo batalhão.

A reportagem questionou pela manhã se o governador João Doria tinha ciência da movimentação e os motivos da troca, mas, até esta publicação, o Palácio dos Bandeirantes não se manifestou. Já a SSP (Secretaria da Segurança Pública) afirmou que se trata de uma mudança "de rotina" (leia mais ao final do texto).

Possível troca natural

À reportagem, deputados federais da bancada da bala negaram que a troca no comando da Rota tenha qualquer relação com os posicionamentos de tenente-coronel Silva Filha e afirmaram ser "natural", levando em conta as características do comando do batalhão.

"Trocas são normais, não é uma posição fixa naquela unidade. Existe uma certa rotatividade até em decorrência das promoções, das aposentadorias. A tropa de São Paulo sempre foi muito leal ao governador, muito disciplinada, não faria nada assim. Não há possibilidade de retaliação", disse o deputado Capitão Augusto (PL), presidente da Comissão de Segurança da Câmara. "Os membros da bancada de SP jamais fariam algo nesse sentido", complementou.

O deputado Guilherme Derrite (PP), conhecido como Capitão Derrite e que já comandou pelotão na Rota, afirma que a mudança tem relação com a possibilidade de promoção do comandante.

"Via de regra, a Rota é comandada por um tenente-coronel que tenha possibilidade de ser promovido. O comandante Mário Alves [da Silva Filho] já foi preterido nessa promoção, já passou a vez dele. Como já passou a vez dele, é natural que escolham outro tenente-coronel com chance de ser promovido, isso é uma questão histórica da Rota", disse.

Sobre as posições de Silva Filho, ele afirmou que "o comandante da Rota não tem propriedade para falar sobre cloroquina ou sobre isolamento". "Se ele falou isso, foi como cidadão e não como comandante", argumentou.

Rafael Alcadipani, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, disse que "pessoas que pertenceram a esse batalhão usam-no para justificar candidaturas e posições eleitorais. É importante que movimentações do tipo sejam estritamente profissionais".

Procurado, o comandante Silva Filho não respondeu a reportagem até esta publicação. Se houver um posicionamento, será acrescentado ao texto.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que Silva Filho "foi transferido para a chefia de Estado Maior do Comando do Policiamento de Choque, órgão responsável por todos os batalhões de Choque do Estado de São Paulo, incluindo a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar)".

"Trata-se, ao contrário do que sugere a reportagem, de uma movimentação de rotina da Instituição, promovida com absoluta transparência e baseada exclusivamente em critérios técnicos e estratégicos estabelecidos pelo Comando da Polícia Militar", diz a SSP.

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