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Morte de enfermeiro por suspeita de covid-19 gera medo em hospital de SP

 Hospital Tide Setubal na zona leste de São Paulo - Rubens Cavallari/Folhapress,
Hospital Tide Setubal na zona leste de São Paulo Imagem: Rubens Cavallari/Folhapress,
do UOL

Felipe Pereira

DoUOL, em São Paulo

03/04/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Auxiliar de enfermagem do hospital Tide Setúbal morreu e há suspeitas de coronavírus
  • Os profissionais se sentiram tristes e fragilizados com a notícia, que rapidamente se espalhou pelo hospital
  • Há ainda relatos de falta de equipamentos de proteção para os funcionários como máscaras e luvas

A morte faz parte da rotina dos hospitais. Desde que escolheram enfermagem ou medicina, profissionais de saúde sabem que ela será parte do cotidiano. Mas quando a morte se manifesta levando alguém próximo, assusta. Os funcionários do hospital Tide Setúbal, em São Paulo, sentiram isto na pele terça-feira. Neste dia, o auxiliar de enfermagem Eduardo Gomes da Silva, 48 anos, morreu com suspeita de covid-19. O novo sempre gera medo e o coronavírus é o novo que mata.

A notícia da morte do auxiliar de enfermagem se espalhou no modo antigo, correu os corredores do plantão no boca a boca. Os funcionários relatam que o impacto foi imediato. As pessoas se sentiram triste e frágeis. Passar a história era contar uma novidade, mas também uma forma de descarrego.

Muitos funcionários do hospital informaram que desde a morte de Eduardo saem de casa por obrigação moral e senso de dever a cumprir. Mas admitem que falta de vontade em ir trabalhar. O motivo é o medo de se contaminar e de contaminar a família. Quem é mais remediado, tratou de se isolar.

Há profissionais mandando esposa ou marido de volta para a casa dos pais, filho indo viver com os avós e até quem desistiu de alugar um apartamento para ter um lugar onde é possível ficar longe da própria família. No Tide Setúbal, as pessoas se comportam como se fossem uma arma biológica ambulante em potencial.

O auxiliar de enfermagem Eduardo Gomes da Silva, 48 anos, morto no Hospital Municipal Tide Setúbal, em São Miguel Paulista, por suspeita de Covid-19  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O auxiliar de enfermagem Eduardo Gomes da Silva, 48 anos, morto por suspeita de Covid-19
Imagem: Arquivo pessoal

Tanta preocupação transformou os funcionários do hospital em exemplo de proteção. Fazem tudo que o ministro da Saúde sugere nas coletivas e mais um pouco. Uma enfermeira que estava em seu primeiro dia de trabalho no Tide Setúbal falou que riscos sempre fizeram parte da profissão, mas que agora a ameaça e nova.

Houve preocupação também em preparar a estrutura do hospital, que teve o pronto-socorro infantil removido para junto da pediatria, o que liberou espaço para uma ala de contenção da covid-19. O local tem oito leitos de UTI para atender pacientes infectados com o novo coronavírus.

Mas se o enfrentamento à covid-19 é algo inédito, o hospital tem reclamações antigas e comuns do sistema público de saúde. Nesta semana, funcionários reclamaram da falta de equipamentos de proteção como máscaras e luvas. Havia falta até de infectologista.

Natura que ninguém trabalhe sossegado com esta situação no meio de uma pandemia, mas a morte do auxiliar de enfermagem deixou todos mais alertas. Mas com dentistas, educadores físicos e até médicos veterinários sendo cadastrados, nenhum deles cogita recuar.

Sabem que atendem uma legião de pessoas sem acesso a planos de saúde e que tem no local seu ponto de apoio. O Tide Setúbal tem nome de uma neta de senador que foi primeira-dama de São Paulo e casada com um dos maiores acionistas do banco Itaú. Mas ela é lembrada pelo trabalho de assistência social. Os funcionários querem manter o legado fazendo o senso de dever a cumprir ser maior que o medo.

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