PUBLICIDADE
Topo

Testemunha de defesa de sucessor de Dorothy Stang é assassinada no Pará

3.dez.2018 - José Amaro Lopes de Souza, o padre Amaro, é acusado de liderar uma ocupação irregular; a principal testemunha de defesa dele foi assassinada - Repórter Brasil
3.dez.2018 - José Amaro Lopes de Souza, o padre Amaro, é acusado de liderar uma ocupação irregular; a principal testemunha de defesa dele foi assassinada Imagem: Repórter Brasil
do UOL

Aliny Gama

Colaboração para o UOL, em Maceió

06/12/2019 20h46

A principal testemunha de defesa do processo judicial sobre invasão irregular de terras movido contra o padre Amaro Lopes de Souza, da CPT (Comissão Pastoral da Terra), foi assassinada com uma facada no pescoço, por um homem desconhecido, em uma estrada vicinal entre os municípios de Anapu e Pacajá, na região sudoeste do Pará. O assassinato de Marcio Rodrigues dos Reis, 33, ocorreu na noite da última quarta-feira (4), mas foi divulgado hoje.

Padre Amaro é o sucessor da missionária Dorothy Stang, assassinada em 2005, e atua na luta por posse de áreas públicas para trabalhadores rurais sem-terra no Pará.

Até agora, nenhum suspeito do assassinato foi preso. O crime está sendo investigado pela delegacia de Anapu. Segundo a CPT, com essa morte, já são 15 assassinatos registrados em Anapu envolvendo trabalhadores rurais desde 2015. A CPT afirma que existe uma milícia, formada por pistoleiros e grileiros, responsável pela série de assassinatos.

Marcio Rodrigues dos Reis sofria ameaças de morte, segundo a CPT, por ter se recusado a incriminar o padre Amaro, por meio de declaração falsa, pela liderança de uma invasão irregular de terra na fazenda Santa Maria, em Anapus, em 2016. O padre ficou preso por 92 dias no ano passado pela acusação baseada em depoimentos de fazendeiros.

Segundo a CPT, Reis teria sido pressionado por um delegado, que teria contato com o proprietário da fazenda, a acusar o padre Amaro de liderar a ocupação nas terras e em outras propriedades da região. A CPT disse que Reis negou qualquer tipo de participação do padre e tornou-se a principal testemunha de defesa dele na acusação.

Reis trabalhava como mototáxi e foi encontrado morto com uma facada no pescoço, depois que um homem não identificado fez uma corrida com ele para a zona rural de Pacajás. "Antes de chegarem ao suposto destino, o passageiro pistoleiro desferiu um golpe de faca em seu pescoço, Marcio não teve como reagir e teve morte instantânea. Seu corpo foi localizado por pessoas que trafegavam pela vicinal e avisaram a polícia", relata a CPT.

A Polícia Civil do Pará informou que policiais estiveram no local do crime, fizeram a remoção do corpo com ajuda de um agente funerário. Ontem o corpo foi levado para necropsia no Instituto Médico Legal de Tucuruí. Ainda não há informações sobre a liberação do corpo de Reis para enterro.

O crime está sendo investigado pela delegacia de Anapu, município vizinho à Pacajá. A mulher de Reis, Fernanda Lima Pereira, e uma testemunha, identificada pelo nome de Josenildo Lopes de Santana, já prestaram depoimento na delegacia de Anapu, mas o conteúdo dos depoimentos não foi divulgado pela polícia.

A ocupação

Famílias sem-terra montaram acampamento em 2016 na fazenda Santa Maria. Elas reivindicavam serem assentadas no lote 44 da Gleba Bacajá, ocupada pelo fazendeiro Silvério Albano Fernandes. Na época, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) de Altamira ingressou com ação judicial para arrecadar a fazenda sob alegação de a propriedade estar em terra pública federal. A Justiça Federal em Altamira determinou a imissão de posse do Incra, mas o fazendeiro impetrou com recurso. Atualmente, o caso aguarda julgamento final no TRF-1 (Tribunal Regional Federal), em Brasília.

A CPT relata que ainda durante a ocupação, em 2016, ocorreu um acordo entre acampados e fazendeiro, mediado pelo governo do Estado e Ouvidoria Agrária, para que as famílias permanecessem acampadas fora dos limites da propriedade, até que todos os recursos fossem julgados.

"Meses depois do acordo, um grupo de fazendeiros e pistoleiros fortemente armados, liderados por Silvério Fernandes, invadiu, ateou fogo, destruiu o acampamento e expulsou as famílias", diz a CPT.

Em 2017, um grupo de agricultores tentou reerguer o acampamento na fazenda Santa Maria, mas Marcio Reis acabou preso sob a suspeita dos crimes de esbulho e posse de arma por cerca de nove meses na penitenciária de Altamira. A CPT afirma que durante a ação, o fazendeiro acusou o padre Amaro de estar comandando ocupação da fazenda Santa Maria. Ainda segundo a comissão, Reis foi pressionado a incriminar Amaro, mas se recusou. O religioso, porém, foi preso.

No ano passado, Reis foi absolvido da acusação de esbulho, mas condenado a dois anos de prisão pelo crime de posse de arma. Ele foi preso novamente e ficou por cerca de cinco meses.

A CPT afirma que existe em Anapu uma milícia rural composta por pistoleiros, organizada por madeireiros e grileiros de terras públicas. "Quem contraria seus interesses está sentenciado à morte", denuncia a entidade, destacando que lideranças estão indo embora de Anapu com medo de serem assassinadas. "Enquanto isso, a grilagem e o desmatamento avançam sobre as áreas de assentamento criados", diz.

O UOL tentou localizar o fazendeiro Silvério Albano Fernandes durante o dia de hoje, mas não conseguiu. A reportagem também tentou localizar os advogados dele, mas sem sucesso,

Notícias