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Universidade no foco da espiral de violência em Hong Kong

Phoebe Kong , William Yang, Mathias Bölinger (av)

18/11/2019 14h38

Não parece haver saída para a escalada entre manifestantes radicais e a polícia. Muitos estudantes se sentem envolvidos numa "batalha última" por suas liberdades.Também nesta segunda-feira (18/11) estão interditadas as ruas que levam à Universidade Politécnica de Hong Kong, em cujo campus milhares de ativistas se entrincheiraram. Enquanto agitadores lançam coquetéis molotov e causam incêndios, a polícia emprega gás lacrimogêneo. Um policial disparou três tiros com a pistola de serviço ao ver sua vida ameaçada – segundo a narrativa oficial. Ninguém foi atingido.

"Já preparei meu testamento", revela uma estudante à repórter da DW, pedindo para permanecer anônima. Apesar da mobilização policial maciça, ela quer continuar oferecendo resistência pacífica. "Doeu-me muito ao ser atingida pelo jato do canhão d'água, apesar de estar desarmada. Mas não deixo que a polícia destrua a minha vontade."

Um estudante foi igualmente alvo de um jato de água tingida de azul. "A gente teve que recuar. Os companheiros dos outros fronts não podiam nos apoiar." "Queremos pedir desculpas", acrescentou, por seu "front" não ter conseguido repelir a ofensiva policial.

Também os partidos pró-democráticos do território semiautônomo chinês estão apreensivos com a escalada de violência. No início de novembro, a deputada democrata Claudia Mo Man-ching comentou, em entrevista à DW: "Ao que tudo indica, muita gente jovem em Hong Kong está pronta a sacrificar a própria vida em nome do direito eleitoral geral e a imposição das exigências políticas. Para eles, o protesto é uma 'batalha última'."

O campus da Universidade Politécnica se situa defronte à Hung Hom Station, o nó rodoviário central da cidade. Ali se cruzam duas linhas de metrô, a East Rail e a West Rail. Além disso, 18 trens partem diariamente dela em direção à China continental.

Na segunda-feira, o afluxo de passageiros é significativamente menor do que o normal. Em Hung Hom, portanto em território de Hong Kong, há um ano e meio policiais chineses realizam os controles de fronteira – mais um indicador da crescente ingerência de Pequim sobre assuntos do território.

A "ajuda voluntária" dos soldados do Exército de Libertação Popular chinês estacionados em Hong Kong, que, à paisana, retiravam no sábado as barricadas de rua em torno da caserna, é interpretada como mensagem de advertência do governo chinês. Os militares podem ser mobilizados tanto contra manifestantes pacíficos quanto contra agitadores. Oficialmente, contudo, a administração local precisaria solicitar ajuda ao governo central.



Para os estudantes entrincheirados na instituição universitária, está bem presente a lembrança do massacre da Praça da Paz Celestial de Pequim, em 1989. "Precisamos fazer de tudo para evitar uma repetição da tragédia de 4 de junho no campus da Universidade Politécnica", frisa Owan Li, porta-voz da associação estudantil local. Segundo ele, domina "pânico puro".

Li se diz a favor de uma solução política. Ele concorre a um dos 18 postos de conselheiro distrital, como candidato independente da ala democrática, um posto que tem apenas função consultiva em questões locais de Hong Kong. As eleições estão marcadas para o domingo, 24 de novembro, mas poderão ser adiadas devido à confrontação continuada.

"O Partido Comunista, o governo e a polícia de Hong Kong estão convencidos de que devem adotar um curso rigoroso contra os baderneiros violentos", comenta Kong Tsung-Gan, autor crítico ao regime de Hong Kong. Ele estava no campus, na madrugada desta segunda-feira. "O que a polícia fez, seguia essa lógica. Ela demonstra o curso do governo de forma excepcionalmente rígida."

Numa coletiva de imprensa na tarde de segunda-feira, o chefe da força-tarefa da polícia em Kowloon, Cheuk Hau-yip, apelou aos ocupadores para que deixassem o campus. Aparentemente tentando conter as lágrimas, ele se dirigiu aos repórteres: "Por favor, digam aos manifestantes que se submetam à polícia e a um processo de Estado de direito. É exatamente isso o que eles exigem."

Hau-yip assegurou que se atém ao princípio da menor violência, mas tem que manter todas as opções em aberto. "A polícia pode e vai aplicar armas letais, se necessário." Até agora, um agente da lei só foi ferido na perna por uma flecha, mas um projétil desses também poderia ser fatal, advertiu.

Nesse ínterim o Supremo Tribunal de Hong Kong derrubou a recém-imposta interdição de mascaramento durante os protestos. Os juízes consideraram que as resultantes restrições dos direitos fundamentais iam "mais longe do que seja razoavelmente necessário". Assim, os manifestantes poderão continuar portando máscaras.

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Autor: Phoebe Kong , William Yang, Mathias Bölinger (av)

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