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Molise, a região da Itália famosa por 'não existir'

Alex Sakalis - Da BBC Travel

17/11/2019 18h13

Nos últimos anos, Molise foi da obscuridade para meme. Agora, os habitantes locais estão tentando usar isso para construir uma identidade própria para a região e atrair turistas.

Molise, uma pequena região no sudeste da Itália, é famosa por uma coisa: ela não existe.

Bem, tecnicamente, existe. Como uma das 20 regiões oficiais da Itália, Molise tem um status igual ao da Toscana, da Lombardia ou de Piemonte. Realiza eleições regionais e participa das eleições nacionais. Faz fronteira com as regiões de Abruzzo, Puglia, Lazio e Campania, todos lugares indiscutivelmente reais.

Então, por que os italianos gostam de fingir que Molise não existe?

"Vi essa piada pela primeira vez na internet há vários anos", diz Enzo Luongo, jornalista e autor do livro Il Molise Non Esiste (Molise não existe, em tradução livre). "As pessoas começaram a postar a hashtag #ilmolisenonesiste tirando sarro do pequeno tamanho da região e de nossa relativa obscuridade na Itália."

No entanto, o que surpreendeu Luongo foi a criatividade dos comentários inspirados pela hashtag, que variaram de divertidos ("eu escrevi 'Molise não existe' como meu status no Facebook. Meu professor de geografia curtiu.") aos absurdos ("conheci um cara de Molise que estava fazendo seu ano sabático na Itália").

A região até então ignorada parecia ter despertado repentinamente uma criatividade latente entre os italianos.

A "conspiração Molise" tornou-se uma espécie de fenômeno cultural na Itália, gerando livros, músicas, vídeos, peças teatrais, reportagens e muito mais. Foi citada por todos, desde o comediante Beppe Grillo até o ex-primeiro-ministro Matteo Renzi.

Uma página popular do Facebook chamada Molis't - lo non credo nell'esistenza del Molise (Molis't - eu não acredito na existência de Molise, em tradução livre) é toda baseada nessa piada e fatura com ela, vendendo produtos como camisetas e canecas.

Artigos científicos inventados foram publicados especulando sobre a existência da região, enquanto memes comparam Molise ao mundo fantástico de Nárnia e recriam mapas da Itália com um buraco negro onde a região deveria estar.

Um vídeo no YouTube de 2015, intitulado dramaticamente IL MOLISE NON ESISTE!! (Molise não existe!!, em tradução livre), tem mais de 1,6 milhão de visualizações, mais de cinco vezes a população da região, de 305 mil habitantes.

Em poucos anos, Molise passou da obscuridade para se tornar, sem dúvida, a piada nacional da Itália.

Uma região à margem da história da Itália

O balneário de Termoli, no litoral de Molise, é uma pitoresca cidade pesqueira murada voltada para o Mar Adriático. Na paisagem, se destaca um formidável castelo do século 11.

Para a maioria dos visitantes, a atração principal é sua praia e cabanas de pesca tradicionais que ficam sobre palafitas.

A cidade também abriga a rua mais estreita da Itália, A Rejecelle, que tem 34 cm de largura e pela qual os pedestres precisam segurar a respiração e encolher a barriga para conseguir passar.

"Dez anos atrás, quando dizia a outros italianos que eu era de Molise, eles ficavam com uma cara confusa. Eles literalmente nunca tinham ouvido falar de nós", diz Maria Laura Pace, que mora na cidade.

"Agora, quando menciono Molise, riem e dizem que Molise não existe. De certa forma, é um progresso. As pessoas daqui estranharam um pouco no começo, mas, agora, acho que aceitamos o absurdo de tudo isso. Quero dizer, é claro que existimos!"

Ao longo da história da Itália, Molise sempre esteve à margem. Nos tempos antigos, era o lar dos samnitas, uma tribo misteriosa que travou inúmeras batalhas com os romanos antes de ser subjugada no século 3 a.C..

Pobre e montanhosa, foi amplamente ignorada pelos romanos e novamente pelos lombardos, normandos, Bourbons e outros que passaram por lá.

Área periférica do novo Reino da Itália em 1861, tornou-se parte da região de Abruzzo e Molise, criada após a Segunda Guerra Mundial. Separou-se de Abruzzo em 1963 para se tornar a mais nova região da Itália ? e a menos conhecida.

As razões para a separação de Molise de Abruzzo são misteriosas, e muitos moradores argumentam que talvez a divisão tenha sido um erro e que eles deveriam voltar a se unir com aquela região, com a qual Molise compartilha fortes laços culturais.

Um dos 'ultimos lugares autênticos' do país

Outros, como Pace, têm muito orgulho de sua região. Há alguns anos, ela voltou do exterior para se juntar à Moleasy, uma rede de empreendedores locais que busca impulsionar o turismo na região.

"Queremos compartilhar nosso amor por nossa região. Temos montanhas e mar, aldeias antigas incríveis, festivais, comida deliciosa - tudo dentro de uma pequena área geográfica. Ao contrário da maioria das outras partes da Itália, aqui você ainda pode encontrar a vida como ela costumava ser, inalterada por séculos."

A Moleasy concentrou-se no desenvolvimento do slow tourism, com uma proposta diferente do turismo de massa do restante do país, com hotéis dispersos, excursões gastronômicas, estadias em fazendas, visitas culturais.

"Estamos tentando atrair pessoas que já estiveram em Roma, Veneza, Florença e estão procurando algo completamente fora do mapa. De certa forma, somos o último grande ponto desconhecido da Itália."

Pace vê o fenômeno "Molise não existe" como uma oportunidade para dar à região uma identidade única. "Nunca seremos Toscanos, mas não queremos ser Toscanos. Queremos ser Molise", diz ela.

A catedral de Termoli, um elegante edifício românico construído nos séculos 12 e 13, sobreviveu ao saque da cidade por piratas otomanos em meados dos anos 1500. Hoje, é um local popular para casamentos e shows.

"Dentro desta igreja, estão as relíquias de São Timóteo, o primeiro evangelista cristão que viajou com São Paulo e é citado no Novo Testamento", diz Pace.

"É incrível que nossa pequena região possua artefatos tão importantes. Se isso estivesse em outro lugar, seria a principal atração turística. Se ao menos as pessoas soubessem que isso está aqui..."

No interior de Molise, vilarejos dispersos, com suas torres de sino finas como lápis e casas amontoadas, parecem desaparecer no pé das vastas montanhas.

Muitos ainda estão conectados por antigos caminhos de pastoreio que estão sendo redescobertos lentamente como trilhas para caminhadas.

Um deles é Agnone, lar da Fundição de Sinos Marinelli. Criada em 1339, é o mais antigo empreendimento do tipo em operação contínua no mundo, além de ser a empresa familiar mais antiga da Itália e a fornecedora oficial de sinos para o Vaticano.

Marinelli se tornou um símbolo do espírito Molise: sem turistas para interromper o ritmo normal da vida aqui, a tradição reina suprema.

"Molise é um dos últimos lugares autênticos da Itália. Na verdade, eu diria que é um lugar realmente atemporal", diz Simone Cretella, um político local da região.

"Infelizmente, o Estado nunca acreditou que poderíamos atrair turistas. Achavam que a única maneira de impulsionar nosso desenvolvimento seria por meio da indústria, então, construíram muitas fábricas aqui. Agora, as fábricas fecharam, e os jovens estão indo embora novamente."

Em uma região que historicamente lutou contra a pobreza, o isolamento e os terremotos, o problema do despovoamento está sempre presente, tanto que, segundo o jornal britânico The Guardian, o governo da região oferece dinheiro às pessoas que se mudarem para Molise.

O investimento privado na região permanece baixo, a infraestrutura é ruim e o desemprego é alto, o que força muitos jovens a sair dali em busca de trabalho. Para alguns, "Molise não existe" é menos uma piada e mais uma previsão sobre o futuro da região.

"Ninguém quer deixar Molise. Temos tanta beleza e cultura aqui. Sinto-me orgulhosa por morar em uma região assim", diz Cretella.

"O que precisamos é de turismo. Precisamos que os jovens permaneçam e desenvolvam sua região por meio do turismo sustentável. Sinto que isso poderia realmente salvar Molise."

Como Pace, Cretella vê o meme "Molise não existe" como uma oportunidade sem precedentes de promover a região em casa e no exterior. "'Molise não existe' é, de certa forma, uma marca perfeita", diz ele.

"Isso favorece nossos pontos fortes: nosso mistério, nossa peculiaridade, o fato de que aqui é um lugar intocado pelo turismo. Isso gera uma curiosidade que faz as pessoas quererem descobrir nossa região e, quando o fazem, sempre ficam surpresas com a beleza e diversidade. Ninguém que vem a Molise sai decepcionado. Só precisamos divulgar essa mensagem."

Cretella passou grande parte de seu mandato tentando convencer as autoridades de turismo a adotar uma estratégia de marketing baseada na suposta inexistência da região, sem sucesso. Uma das desvantagens de viver em uma região "atemporal", explica, é que é difícil mudar a mentalidade das pessoas.

Apesar disso, está convencida de que o turismo é o futuro de Molise e que a Conspiração Molise estará no centro disso. "Afinal", ele disse, "quem não gostaria de visitar uma região que não existe?"

*Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site da BBC Travel.


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