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Guaidó tenta mobilizar partidários nas ruas contra Maduro

16/11/2019 20h34

Caracas, 16 Nov 2019 (AFP) - Diante da embaixada da Bolívia e de milhares de seguidores, o opositor Juan Guaidó pediu neste sábado (16) para a população protestar até a queda do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, que também reuniu milhares de apoiadores e assegurou ter derrotado uma nova investida golpista.

Com um megafone, o líder opositor, reconhecido por cerca de 50 países como presidente encarregado da Venezuela, pediu para seus partidários não desistirem e seguirem o exemplo da Bolívia, onde a pressão popular e a intervenção militar precipitou a renúncia do presidente Evo Morales, que estava no poder há 14 anos.

A Bolívia "conseguiu a liberdade com a união de todos os fatores (...), é momento de continuar até que o ditador vá embora e ter eleições livres", disse Guaidó.

O opositor marchou até a embaixada depois de falar por telefone com a presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez - opositora que substituiu Morales após sua renúncia -, e liderar uma manifestação de cinco mil pessoas na praça José Martí, em Caracas.

"Precisamos da Força Armada", clamou Guaidó, que dez meses depois de ter se proclamado presidente encarregado não conseguiu quebrar o apoio dos militares a Maduro.

O dirigente pediu apoio à sua "agenda de conflito", como se refere às reivindicações de vários setores atingidos pela pior crise econômica da história recente no país petroleiro, inclusive uma marcha de estudantes universitários, prevista para a quinta-feira.

"Não há fórmula mágica e vejam que tentamos de tudo", admitiu do alto da plataforma de um caminhão.

"É nosso momento como cidadãos de insistir até que o poder das armas esteja do lado da Constituição", clamou mais uma vez no Twitter Guaidó, que não conseguiu quebrar o apoio dos militares a Maduro.

A participação deste sábado esteve longe das dezenas de milhares de pessoas que acompanharam Guaidó no começo do ano, embora tenha sido a mais representativa desde 1º de maio, um dia após o frustrado levante militar liderado por Guaidó, que acusa Maduro de ter sido reeleito mediante uma fraude em 2018.

"Evo já foi embora, Maduro vai embora, a Venezuela grita, queremos liberdade!", repetia o pedreiro Rafael Castillo, de 65 anos, agitando um osso bovino. As manifestações, que se estenderam a outras cidades e países como Espanha e Estados Unidos, transcorreram sem incidentes.

- Liderança em questão - Milhares de chavistas vestidos de vermelho se mobilizaram no centro de Caracas em apoio a Maduro, que se declarou vitorioso ante supostos planos da oposição e dos Estados Unidos para derrubá-lo, impulsionados pela queda de Morales.

"Ontem ficaram loucos (...), porta-vozes enlouquecidos dos Estados Unidos, [dizendo] que tinha chegado a hora, que eles hoje, 16, dariam um golpe de Estado", afirmou Maduro, que se dirigiu à multidão por telefone usando alto-falantes.

O dia foi chave para a liderança de Guaidó, que nos últimos meses não conseguiu organizar manifestações maciças como as que acompanharam sua autoproclamação em janeiro. Ele também enfrenta críticas de um setor da oposição que o acusa de falta de firmeza.

Para o cientista político Jesús Castillo-Molleda, se neste sábado não acontecesse "nada extraordinário", a liderança de Guaidó corria o risco de ir para o "congelador".

A base opositora mostra cansaço. "Se não for hoje, podemos dizer que nos ferramos. Precisamos que venham forças militares de fora", declarou à AFP José Goyo, de 64 anos, que sobrevive com remessas de familiares que emigraram, assim como uns quatro milhões de venezuelanos desde 2016.

Carlos Caballero, manifestante de 32 anos, foi expulso aos empurrões após exibir um cartaz que dizia "Guaidó trapaceador", tornando-se um trending topic no Twitter da Venezuela.

Uma consulta da empresa Delphos destaca que 38% dos opositores desejam que surja um novo líder.

A economia venezuelana encolheu 50% desde 2013, enquanto a inflação, segundo o FMI, chegará a 200.000% este ano, uma situação que se agrava com sanções de Washington, que incluem um embargo petroleiro.

- "Em defesa de Evo" - Na sexta, homens armados invadiram a sede do partido de Guaidó em Caracas e levaram computadores, denunciou o opositor, que não estava no local.

"Estou aqui em defesa de Evo e do povo boliviano", indicou à AFP David Pérez, de 41 anos, com cartazes alusivos ao ex-presidente boliviano, que renunciou, afetado por denúncias de fraude nas eleições que lhe deram um quarto mandato.

Provocando a ira de Maduro, Trump advertiu que a explosão de violência na Bolívia enviava um sinal forte aos "regimes" da Venezuela e da Nicarágua, enquanto o Comando Sul americano destacou que monitorava "atentamente a situação" na Venezuela, pedindo aos militares venezuelanos para proteger o direito de protesto dos cidadãos.

Maduro enfrentou várias ondas de manifestações que deixaram 200 mortos desde 2014.

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