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Protestos e saques deixam pelo menos sete mortos no Chile

20/10/2019 21h42

Santiago, 21 Out 2019 (AFP) - A pior eclosão social desde a redemocratização do Chile se intensificou neste domingo, com confrontos violentos e sques que deixaram pelo menos sete mortos e cerca de 1.500 detidos.

Cinco pessoas morreram na tarde deste domingo após o incêndio de uma fábrica de roupa em Renca, no norte de Santiago, que pegou fogo depois de ser saqueada em meio às manifestações no país, informaram fontes oficiais.

"Lamentavelmente, foram encontrados cinco corpos no interior da fábrica, resultado desse incêndio", relatou à mídia local o comandante do Corpo de Bombeiros de Santiago, Diego Velásquez. Dessa forma, há pelo menos sete mortos nos protestos sem precedentes desde a redemocratização do Chile, em 1990.

"Temos cinco pessoas mortas e a ameaça latente de que possam morrer mais", alertou o prefeito de Renca, Claudio Castro, em meio aos muitos saques e incêndios, que se repetem em outros locais de Santiago.

Duas pessoas ficaram gravemente feridas após serem baleadas em um incidente com uma patrulha militar de madrugada.

Diante da virulência das manifestações e dos saques, as autoridades chilenas decretaram toque de recolher no Chile pelo segundo dia, adiantando o início da medida para as 19h00 (horário local), em meio à extensão da convulsão social que afeta o país com manifestações violentas e saques.

A medida vigora "a partir das sete da tarde; estejam em calma e estejam todos em suas casas", disse o general Javier Iturriaga, ao anunciar a medida tomada em meio ao "estado de emergência" em cinco regiões do país.

O presidente do Chile Sebastián Piñera afirmou neste domingo que "a democracia tem a obrigação de se defender".

"A democracia não somente tem o direito, como tem a obrigação de se defender usando todos os instrumentos que entrega a própria democracia e o estado de direito para combater aqueles que querem destruí-la", afirmou o presidente, após se reunir na sede de governo com os presidentes da Câmara dos Deputados, do Senado e da Suprema Corte.

O ministro do Interior, Andrés Chadwick, informou na noite deste domingo sobre a extensão do estado de emergência a cidades do sul e do norte do país.

"Se incorporou o estado de emergência a todas as comunas da região Metropolitana, à cidade de Antofagasta (norte) e Valdivia (sul) e se encontram no trâmite os decretos de emergência para todas as comunas de Valparaíso, para a cidade de Talca, Chillán, e Chillán Viejo, Temuco e Padre Las Casas e para a cidade de Punta Arenas", afirmou Chadwick, em uma mensagem televisionada ao país.

Mais cedo, o Ministério Público informou que até este domingo 1.462 pessoas foram detidas em todo Chile. Desse total de detenções, 614 ocorreram em Santiago e 848 no restante do país.

O centro de Santiago virou um cenário de destruição: semáforos no chão, ônibus queimados, lojas saqueadas e milhares de destroços nas ruas após os protestos iniciados na sexta-feira com o aumento do preço da passagem do metrô, uma notícia que foi o estopim para uma série de reivindicações sociais.

Apesar do toque de recolher ter sido decretado e da mobilização de quase 10.000 militares nas ruas, os distúrbios prosseguiram durante a madrugada em Santiago e outras cidades, como Valparaíso e Concepción, que também foram afetadas pela medida que restringe a movimentação.

Na capital do país, duas pessoas morreram em um grande incêndio após o saque de um supermercado da rede Líder, um dos muitos alvos de ataques dos manifestantes nas últimas horas.

Inicialmente as autoridades haviam anunciado três vítimas fatais no incêndio do supermercado no bairro de San Bernardo, ao sul de Santiago, mas o balanço oficial divulgado neste domingo por Chadwick modificou o número. Ele disse que uma terceira pessoa ficou gravemente ferida, com 75% do corpo queimado.

Chadwick informou ainda que durante a madrugada duas pessoas foram feridas a tiros após um incidente com uma patrulha policial entre Puente Alto e La Pintana.

Os manifestantes também atacaram ônibus e estações do metrô. De acordo com o governo, 78 estações foram atingidas e algumas ficaram completamente destruídas.

O prejuízo ao metrô de Santiago supera 300 milhões de dólares e algumas estações e linhas demorarão meses para voltar a funcionar, afirmou o presidente da companhia estatal, Louis de Grange.

Eixo do transporte público da capital chilena, com quase três milhões de passageiros por dia, o metrô sofreu uma "destruição brutal", afirmou declarou Grange.

Aos gritos de "basta de abusos" e com o lema que dominou as redes sociais "ChileAcordou", o país enfrenta críticas a um modelo econômico em que o acesso à saúde e à educação é praticamente privado, com elevada desigualdade social, valores de pensões reduzidos e alta do preço dos serviços básicos.

A manifestação não tem um líder definido nem uma lista precisa de demandas. Até o momento aparece como uma crítica generalizada a um sistema econômico neoliberal que, por trás do êxito aparente dos índices macroeconômicos, esconde um profundo descontentamento social.

Universidades e escolas suspenderam as aulas na segunda-feira, mas os estudantes convocaram um novo dia de protestos.

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