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Suspeitos em golpe de R$ 880 milhões são presos em resort de luxo

O resort de luxo onde foram presos suspeitos de golpe milionário - Reprodução
O resort de luxo onde foram presos suspeitos de golpe milionário Imagem: Reprodução
do UOL

Daniel Leite

Colaboração para o UOL, em Juiz de Fora

19/08/2019 17h34

A polícia divulgou hoje detalhes sobre as investigações de um golpe praticado contra pelo menos seis mil pessoas de todas as regiões do país em um esquema de pirâmide financeira. O mentor e um laranja dele foram presos num eco resort de luxo, alugado ao custo de R$ 30 mil mensais, no distrito de Arraial d´Ajuda, em Porto Seguro (BA), no início do mês.

Marcel Mafra Bicalho, 35 anos, e o concunhado dele, Leonardo Oliveira Silva, de 32, movimentaram cerca de R$ 880 milhões em cerca de 4 anos, de acordo com o que foi apurado até agora. Eles negam os crimes.

A prisão ocorreu após seis meses de investigações. No local, também foram apreendidos dois veículos - uma Land Rover avaliada em R$ 400 mil e uma Ford Ranger de R$ 130 mil - armas e munições. A residência tem piscina, academia e central de monitoramento com pelo menos 16 câmeras.

Bicalho, mentor do golpe de acordo com a polícia, chegou a afirmar que ele e um familiar ganharam na Mega Sena para justificar a vida que levava.

Seis seguranças armados moravam no eco resort porque o suspeito tinha "medo de ser morto", segundo o delegado Gustavo Barletta. No momento da prisão, Bicalho se escondeu em um quarto imaginando ter sido encontrado por um dos seus credores. E chegou a dizer aos policiais estar "aliviado" com a prisão tamanho o medo de ser assassinado.

Para manter a vida de luxo e com proteção, o gasto dele era de R$ 100 mil por mês, de acordo com as investigações. A empregada doméstica do imóvel recebia R$ 5 mil. Alguns seguranças tinham salário de R$ 10 mil.

Suspeito publicava vídeos "ensinando" a investir

Bicalho se apresentava como mestre em investimentos. Em 2017, começou a publicar, em uma rede social, vídeos de um curso "ensinando" como investir. As primeiras pessoas que compraram as "aulas" foram convencidas a aplicar dinheiro na empresa dele. Vendo os resultados financeiros, logo passaram a trabalhar para o suspeito para captar outros interessados em injetar dinheiro, dando início ao golpe.

Para exemplificar, a polícia explicou que o investidor iniciava com R$ 5 mil e recebia R$ 8 mil nos primeiros meses, ou seja, lucro de mais de 50%. Para alavancar e manter o esquema, o suspeito chegou a pagar vários integrantes do grupo para criar credibilidade.

Os ganhos oferecidos eram "exorbitantes e irreais", de acordo com o delegado. O lucro prometido variava de 30% a 100%, e em uma de suas últimas investidas, o suspeito ofereceu uma margem muito maior. "Ele chegou a oferecer 500%. São lucros que não existem em lugar nenhum do mundo", afirma Barletta.

O esquema cresceu e o próprio mentor confessou para a polícia ter se assustado com a dimensão tomada.

Suspeitos de golpe entram em resort de luxo - Reprodução
Suspeitos de golpe entram em resort de luxo
Imagem: Reprodução

Golpe foi descoberto e suspeito se escondeu em resort de luxo

Depois de fazer uma espécie de sabatina com Bicalho, um grupo de internautas que se diz especialista em atuar contra pirâmides financeiras afirmou se tratar de um "charlatão", segundo as investigações.

A partir disso, a má reputação passou a ser divulgada na internet. Bicalho, então, começou a ser cobrado por vários credores para pagar os investimentos. No termo usado no mercado de investimentos, "a bolha estourou", segundo a polícia.

Ao notar que não conseguiria arcar, o mineiro de Montes Claros resolveu se esconder em Porto Seguro, onde comprou uma casa e carros de luxo. Depois, se mudou para o eco resort.

No início do ano, a polícia mineira foi procurada por pessoas se dizendo vítimas da pirâmide. Com o andamento das investigações, outros investidores com altos prejuízos foram descobertos em todas as regiões do país, dando início à operação que culminou com as prisões.

Para os investigadores, Bicalho disse não ser estelionatário. Segundo sua versão, os investimentos no mercado financeiro deram errado. Afirmou também que vai tentar ressarcir as pessoas lesadas, sem detalhar como. Leonardo recebia R$ 8 mil por mês e disse que apenas "acompanhava" o líder do esquema.

Os dois vão responder por organização criminosa, lavagem de dinheiro e estelionato. Bicalho é investigado também por possível evasão de divisas. A polícia quer saber se ele abriu contas no exterior para ocultar os ganhos financeiros.

Prejuízos individuais chegaram a ultrapassar R$ 1 milhão

A maior parte das vítimas com os prejuízos mais altos é do Nordeste, especialmente do Ceará. Há pelo menos um caso investigado em que o rombo foi de R$ 2 milhões.

"A gente tem certeza que tem uma pessoa que [o prejuízo] foi mais de R$ 2 milhões. O próprio investigado fala. Mas na verdade ele não fala que aplicou golpe. Ele acredita que ele quebrou, que fez investimento errado e quebrou, mas que quer pagar todo mundo. O discurso dele é esse", afirma o delegado.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado no 2° parágrafo desta matéria, o nome do preso é Marcel Mafra Bicalho, e não Marcel Biafra Bicalho. A informação já foi corrigida.

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