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Bloqueio da Noruega afetará monitoramento de biomas, diz ex-diretor do Inpe

O ex-diretor do Inpe Ricardo Galvão - Lucas Lacaz/Estadão Conteúdo
O ex-diretor do Inpe Ricardo Galvão Imagem: Lucas Lacaz/Estadão Conteúdo
do UOL

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

16/08/2019 19h05

Ex-diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o físico Ricardo Galvão disse hoje que o bloqueio de repasses de R$ 134 milhões da Noruega para o Fundo Amazônia não terá reflexos imediatos, mas serão sentidos a médio e longo prazo.

Ontem, como resposta a uma reformulação do Ministério do Meio Ambiente brasileiro na gestão do fundo, o governo norueguês anunciou o congelamento.

Gerido pelo BNDES, o Fundo Amazônia é destinado para ações de preservação ambiental e combate ao desmatamento. Sozinha, a Noruega doou 94% da verba arrecadada até hoje, que chegou a R$ 3,4 bilhões.

"Pode haver um impacto principalmente nas pesquisas e no monitoramento da Amazônia", disse Galvão. O físico destacou que o projeto realizado pelo Inpe para monitoramento de biomas está, no momento, garantido pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

"Imediatamente não vai haver impacto, porque o projeto já está assinado com o BNDES. Mas, se esses países pararem de fornecer fundos para esses projetos mais avançados, vai ter impacto sim nos trabalhos sobre o desmatamento na Amazônia", afirmou, sem especificar datas.

Galvão falou hoje em uma palestra realizada na USP (Universidade de São Paulo) sobre autonomia e liberdade científica.

Mais de uma vez, ele defendeu ser preciso lutar contra ataques à ciência "independentemente de orientação partidária".

Com críticas ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o físico, que foi exonerado após uma troca de farpas pública com o presidente Jair Bolsonaro (PSL), mandou recados de resiliência aos cientistas brasileiros.

"Eu nunca tinha ouvido um ministro de Estado do governo brasileiro dizer que todas as instituições científicas do Brasil estavam aparelhadas pela extrema-esquerda", afirmou, em referência a Salles, com quem travou embates no programa Painel, da Globo News.

"Infelizmente, essa ideia está espalhada em partes do governo", disse. "Comecei a me questionar se estamos de volta às trevas", completou, mencionando casos de pesquisadores que foram perseguidos dentro e fora do Brasil durante a ditadura militar.

O físico se emocionou diversas vezes ao falar das histórias dos colegas e das mensagens de apoio que recebeu após sua exoneração. "Não estamos de volta às trevas, porque a comunidade científica não se abalará", afirmou.

Ele foi ovacionado pela plateia, composta em grande parte por estudantes e professores universitários.

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