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Macri usa cúpula do Mercosul para tentar reconquistar reduto de esquerda

Natacha Pisarenko/AP Photo
Imagem: Natacha Pisarenko/AP Photo
do UOL

Talita Marchao

Do UOL, em Santa Fé (Argentina)

16/07/2019 04h00

Ao atrair autoridades do Mercosul para a reunião de cúpula que ocorre hoje e amanhã na cidade de Santa Fé, no norte da Argentina, o presidente Mauricio Macri quer mostrar muito menos a periferia mais empobrecida da cidade, porta de entrada de quem vem do aeroporto, e muito mais o desenvolvimento da capital da província de mesmo nome, que hoje tem dezenas de prédios altos em construção por todo o centro.

Candidato à reeleição, o presidente argentino vê, com a realização do evento, uma oportunidade de tentar recuperar ao menos parte do eleitorado perdido em uma das maiores províncias do país. Nas eleições provinciais, ocorridas no primeiro semestre, o espaço foi perdido para políticos opositores.

A realização da cúpula do Mercosul em Santa Fé já estava definida antes mesmo de o partido de Macri ser derrotado nas eleições para governador, de junho.

O candidato de Macri, José Corral, ficou em terceiro lugar na disputa, com apenas 18% dos votos. O eleito foi Omar Perotti, candidato do Partido Justicialista, de Cristina Kirchner.

Após a vitória, Perotti manifestou --de forma tímida-- seu apoio à chapa conhecida na Argentina como "Fernández-Fernández", em referência ao candidato principal Alberto Fernández, que foi chefe de gabinete de Néstor, e à própria Cristina Kirchner, cujo outro sobrenome é Fernández.

Os resultados das eleições regionais dos últimos meses sinalizaram uma dura derrota para o governo --os peronistas ganharam na maior parte das cidades.

Em Santa Fé, a terceira maior província do país em população, o peronismo voltou ao poder depois de 12 anos, derrotando o Partido Socialista.

A província, onde também fica a cidade de Rosário, representa cerca de 8% do eleitorado argentino, atrás de Córdoba e da região de Buenos Aires, a maior do país e que deve decidir a disputa entre Macri e Fernández.

Em Santa Fé, ao lado dos chefes de Estado do Brasil, Jair Bolsonaro (PSL); do Uruguai, Tabaré Vasquez; e do Paraguai, Mario Abdo, Macri tem a oportunidade de celebrar os sucessos do acordo comercial recém-fechado com a União Europeia e tentar atrair novamente uma parcela do eleitorado que o elegeu em 2015 --a província foi uma das que assegurou a vitória sobre o candidato kirchnerista.

Em entrevista ao UOL, o analista Andrés Malamud diz que, apesar da liderança inicial de Cristina Kirchner nas pesquisas de intenção de voto, as sondagens atuais mostram números semelhantes entre as duas chapas, sinalizando que os números de Macri têm melhorado.

"Há analistas que acreditam que não teremos segundo turno nas eleições de outubro. Mas só será possível saber com clareza qual é a situação exata depois das PASO", diz Malamud, em referência às eleições primárias simultâneas obrigatórias, em agosto, quando todo o eleitorado argentino deve ir às urnas para votar nas chapas dos partidos --como as principais coligações possuem uma chapa única, as PASO funcionarão como uma espécie de pesquisa de intenção de voto com todos os eleitores.

O chanceler argentino, Jorge Faurie, é nascido em Santa Fé e celebrou o anúncio da escolha da cidade para sediar o encontro.

Na Argentina, a realização de grandes eventos como a cúpula do Mercosul não é só uma oportunidade de atrair investimentos e movimento para as cidades, mas principalmente de agradar aliados políticos --e isso é algo que Cristina e Néstor também fizeram no passado. Assim, mostram que o interior do país não está sendo deixado de lado pelo governo.

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