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Você já viu como é feita uma guitarra ou um baixo? Conheça cada passo

Eduardo Heering

Do BOL, em São Paulo

27/03/2018 07h00

Você é daqueles que curtem tocar baixo ou guitarra como hobby? Ou simplesmente curte ouvir uma boa música? Então você provavelmente vai gostar de saber como são feitos esses instrumentos. O BOL passou um dia na última fábrica a produzir guitarras e baixos em linha no Brasil e mostra para você como é feito um instrumento. 

Atualmente, todas as outras marcas brasileiras produzem seus instrumentos na China. A própria Tagima transferiu a construção de suas linhas mais básicas e de seus violões para o país oriental, reduzindo assim os custos de fabricação.

Com produção média de 150 peças por mês, a fábrica da Tagima em São Bernardo do Campo (SP) é responsável apenas pela manufatura da linha "Handmade Brazil", que, como o próprio nome diz, mantém todo o trabalho quase que 100% artesanal. 

Última fábrica de guitarras e baixos do Brasil mantém processo quase artesanal - Eduardo Heering/BOL
Última fábrica de guitarras e baixos do Brasil mantém processo quase artesanal
Imagem: Eduardo Heering/BOL
Como é feito

O processo começa na estufa, que conserva em estoque o material bruto para abastecer a linha por até três meses. Segundo Agnaldo Moreno, responsável por coordenar a produção da marca, toda a madeira utilizada nos instrumentos é de reflorestamento, tem origem registrada e aprovação do Ibama.

Os equipamentos podem ser feitos de madeiras variadas. Entre as utilizadas por eles, estão: mogno, mapple, marfim, cedro, marupá e pau-ferro. O tipo de madeira influencia não apenas o visual, mas o som do instrumento. "Madeiras mais densas possuem uma sonoridade diferente das mais leves", explica Agnaldo.

"Algumas madeiras são consagradas, mas existem madeiras maravilhosas que são quase inviáveis economicamente", explica o luthier Márcio Zagannin. Com quase 30 anos de experiência na área, Zagannin desenvolve e assina todas as criações da marca, além de supervisionar toda a produção da Tagima desde 2006.

"Determinamos isso no começo do projeto: esse instrumento vai ser um de superacabamento? Vai atender a qual demanda? Para cada um a gente vai ter que escolher de acordo com a necessidade sonora, estética e econômica", explica Zagannin. Ele também destaca que até o estilo musical tem influência na escolha da madeira.

Ao entrar na linha de montagem, a tábua passa por um torno que corta o formato bruto do modelo, com todas as cavidades para a parte elétrica e furos para parafusos. A partir daí o processo é totalmente artesanal.

A madeira passa por um equipamento que faz o formato bruto do instrumento. É a única fase automatizada dentro de toda a linha de montagem - Eduardo Heering/BOL
A madeira passa por um equipamento que faz o formato bruto do instrumento. É a única fase automatizada dentro de toda a linha de montagem
Imagem: Eduardo Heering/BOL
Cada um dos setores da fábrica trabalha para entregar sua parte de um lote de 10 instrumentos no dia. Com base nas informações enviadas pela equipe de vendas e marketing, um calendário define quais os modelos a serem feitos no mês.

No setor de acabamento, corpo e braço do instrumento passam por processos que dão as linhas arredondadas, curvas mais suaves e o formato final da madeira. Finalizada a parte de marcenaria, os instrumentos recebem um tratamento à base de poliéster, sobre o qual são aplicadas as cores e, se necessário, o verniz.

Muita calma nessa hora

Uma vez pintado e envernizado, o conjunto de braço e corpo passa 30 dias dentro de uma estufa. A temperatura é mantida entre 26ºC e 27ºC, e a umidade do ar nunca passa de 50%. É fundamental que todos os processos pelos quais a tinta passa ocorram dentro da estufa. Todo o trabalho pode ser perdido se o tempo não for respeitado.

A secagem da pintura e verniz é o ponto mais delicado e longo da produção. Um instrumento só pode deixar o ambiente controlado após 30 dias - Felipe Druda/BOL
A secagem da pintura e verniz é o ponto mais delicado e longo da produção. Um instrumento só pode deixar o ambiente controlado após 30 dias
Imagem: Felipe Druda/BOL

No polimento, o instrumento ganha o aspecto espelhado que o comprador espera ver. Em seguida ele vai para a célula de montagem. Além de unir corpo e braço, o setor instala captores, parte elétrica, plug para o cabo, ponte e tarraxas - que seguram as cordas no instrumento -, seletores e botões de volume.

Agora falta pouco! Um músico é responsável pela entonação do instrumento, um processo que regula cada um dos detalhes, deixando-o pronto para ser tocado. Antes de entrarem na caixa, 100% dos instrumentos são testados por um músico profissional, que avalia a necessidade de passar por mais regulagens. Em média, um instrumento demora 45 dias para ficar pronto.

Segundo Agnaldo, a guitarra mais simples produzida pela marca no Brasil custa cerca de R$ 1,2 mil para ser produzida. Na loja, sai por cerca de R$ 2 mil. Já a mais cara custa cerca de R$ 6 mil e é vendida por cerca de R$ 8 mil, variando de acordo com região e revendedor.

"Já na caixa, os instrumentos ganham um aroma de madeira, para que o comprador, ao abrir a embalagem, tenha todos os sentidos afetados", explica Agnaldo.

O processo de criação de um novo modelo

BOL

Por dentro da marca

A fábrica da Tagima conta atualmente com 12 funcionários na linha de montagem. Mas o diretor da marca, Marco Vignoli, vê a fábrica operando com no máximo metade de sua capacidade e diz que o objetivo agora é obter mais importância no cenário pela qualidade do produto.

Para reduzir custos, linhas de entrada e violões da Tagima são fabricados na China - Eduardo Heering/BOL
Para reduzir custos, linhas de entrada e violões da Tagima são fabricados na China
Imagem: Eduardo Heering/BOL
"Nosso sonho é poder apresentar um instrumento que seja equiparado aos melhores do mundo. Nós respeitamos o que a Fender [marca norte-americana de instrumentos] representa para os fãs de rock, mas vemos que podemos fazer instrumentos tão bons quanto", afirma o executivo.

Apesar de a Gibson, uma gigante centenária do setor, estar em crise e perto de abrir falência, Marco vê oportunidades no mercado de instrumentos. "A Gibson também atua em outras áreas de equipamentos de áudio. É um cenário muito específico. Do nosso lado, em 2017 nós crescemos 12% e os números de 2018 nos mostram resultados ainda melhores. Mas outras marcas podem ver a situação de maneira diferente", garante o diretor.

Hoje, a marca tem um escritório na Califórnia, nos EUA, e começou a exportar as primeiras peças feitas no Brasil. "Nós queríamos estar no berço de tudo", defende Marco Vignoli.

Em território nacional, Vignoli explica que o mercado sempre foi muito concentrado no Sudeste, principalmente no estado de São Paulo, em parte pela região ter um poder aquisitivo mais alto, mas revela que hoje mais de 20% da produção é consumida pelo Nordeste do país.

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