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'Fui abusado na infância e só agora, aos 47, me sinto livre para o amor'

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Matt Carey é o pseudônimo de britânico que teve a vida profundamente abalada por violência na infância Imagem: BBC

Joanna Jolly e Sarah Bowen - Da BBC Radio 4

2019-05-15T09:05:42

15/05/2019 09h05

Aos 47 anos, *Matt Carey nunca teve uma relação sexual com uma mulher, mas quer se casar e começar uma família.

Com esse objetivo, pela primeira vez, está mergulhando no mundo dos namoros online.

Ele tem dificuldades para encontrar as palavras certas que ajudem a descrevê-lo no perfil de um site de encontros.

"Você é um homem atraente, agradável, inteligente e engraçado", sugere uma amiga, Maddy, que o está ajudando com o texto.

Matt responde com uma risada, discordando.

"Você não precisa revelar demais em um primeiro encontro", aconselha Maddy.

Matt é cauteloso.

"Tudo isso é novo pra mim", diz ele, demonstrando nervosismo ao se imaginar cara a cara com outra pessoa.

De acordo com seus amigos, Matt é um bom partido - um homem gentil e atraente que teve uma carreira de sucesso como administrador de teatro em Londres, o destino para onde seguiu após sair da casa onde vivia e passou a infância, no sudoeste inglês. Nessa cidade, conta ele, acabou sendo vítima de uma série de abusos.

Apesar da imagem que passa, de um homem confiante, o britânico não tem conseguido compartilhar uma vida íntima em toda a sua fase adulta.

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Menino cresceu em uma cidade litorânea do Reino Unido e conta ter sofrido dezenas de abusos Imagem: BBC

Matt contou sua história à Sarah Bowen, na série The Untold, da Radio 4 da BBC.

"Durante muito tempo na minha vida eu fechei as possibilidades para isso (estar com alguém). Eu vivia em um mundo de fantasia ou colocava as mulheres em um pedestal como um meio de não fazer nada", diz ele.

Os medos de Matt sobre entrar numa relação remontam a sua infância em uma cidade litorânea do sudoeste britânico.

Ele cresceu em uma área nobre, com dois irmãos mais velhos e vários amigos para brincar nos parques e dunas de areia na praia - e se considera sortudo por isso.

Mas em um dia quente no local, quando tinha oito anos e entrou em um banheiro público apertado, após jogar futebol, dois homens o seguiram e dariam início a uma história que afetaria profundamente a sua vida.

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Matt aos oito anos de idade: Os abusos aconteciam nessa fase e foram mantidos em segredo por ele durante anos Imagem: BBC

Matt lembra que naquele dia um dos homens elogiou seu desempenho no jogo, dizendo que o menino havia acenado para eles do campo de futebol. Matt, porém, disse que não os reconhecia. Mas os homens insistiram na história, o chamaram de mentiroso e disseram que contariam ao diretor da escola o quanto ele estava sendo mal educado.

Nesse momento, um dos abusadores fingiu que sentia uma dor na região da virilha. O outro disse a Matt que a culpa era dele, por ter ferido seus sentimentos.

Ele disse então que o menino precisava massagear a virilha do homem para fazê-lo se sentir melhor. Matt diz que sabia que aquilo era errado e começou a chorar.

Os homens continuaram insistindo, e, diante da pressão, ele acabou fazendo o que queriam.

"Eu me lembro de ir para casa depois do que aconteceu e da minha mãe perguntando se havia algo de errado comigo."

Matt quase não comeu naquela noite. Ele diz que é difícil descrever o tamanho da confusão na sua cabeça e a culpa que sentia. Ele não achava que poderia contar aos pais porque se sentia, de alguma forma, responsável pelo que havia se passado.

"Foi como estar em um acidente de carro", diz ele.

"Você não sabe o que diabos está acontecendo. Então só se cala e finge que não aconteceu nada".

Aquele não foi, porém, o fim dessa história.

Matt se viu forçado a reencontrar seus agressores nos 18 meses que se seguiram.

Ele foi atacado em mais de 30 ocasiões, em 12 banheiros públicos diferentes e, uma vez, em um apartamento privado.

Em uma dessas ocasiões, outros homens participaram dos abusos, que envolveram outras crianças.

"Eles conseguem controlar você fazendo ameaças de que (se você não aceitar) as coisas vão piorar", diz ele, explicando por que voltou a encontrar os homens. "É como uma força do mal. Você tem medo de que eles te matem, então é obrigado a aceitar".

"O controle da cumplicidade é muito pior do que o abuso - tem ameaças e aquele clima de crueldade."

Fotos escolares dessa época mostram o efeito que os abusos tiveram na infância de Matt.

Uma imagem de antes de esses episódios acontecerem mostra o menino feliz e sorridente com os cabelos loiros bagunçados. Uma outra tirada um ano depois mostra que ele havia arrancado boa parte dos cabelos.

Quando os abusos finalmente acabaram, Matt prometeu a si mesmo que ninguém mais o machucaria. Ele diz que sentiu como se algo dentro dele tivesse desligado.

"Durante a maior parte da minha vida adulta, eu tive problemas reais com questões de intimidade sexual", diz, embora quisesse ter um relacionamento.

"Durante anos, imaginei que o sexo fosse uma coisa extremamente desconfortável e horrível".

Virar adolescente também foi difícil, a ponto de ele querer que existisse uma pílula que impedisse o desenvolvimento do seu apetite sexual. O menino se sentia confuso e envergonhado. Ele se sentia sujo por dentro, por causa dos desejos que tinha, embora já fosse quase um rapaz.

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Na adolescência, o menino lutava com a própria intimidade. Ele diz que se sentia confuso e envergonhado Imagem: BBC

"Eu simplesmente fugia de qualquer menina que demonstrasse interesse ou se aproximasse de mim. Meu medo era que em algum momento ela quisesse fazer sexo."

Jogar rúgbi ajudou o menino a expressar seus sentimentos, especialmente a raiva que sentia. Enfrentar outros jogadores agressivamente virou uma forma de lidar com o sentimento de intimidação que tinha na presença de outros homens.

Outra "muleta emocional" foi o álcool.

Matt começou a beber quando tinha 15 anos. Aos 17 ele chegou a roubar para comprar bebida.

"No começo eu bebia porque dava prazer, porque me sentia muito melhor bêbado do que sóbrio", diz ele.

O problema, porém, ficou tão grave que ele começou a sofrer tremores, palpitações e "apagões".

Certa vez, depois de uma noite fora, ele teve uma alucinação de que Hitler, Stálin e Mussolini estavam de pé ao lado de sua cama. Em vez de parar, ele decidiu beber mais.

Quando estava com 20 anos, ele teve um colapso nervoso e foi expulso da universidade. Foi aí que voltou a viver com os pais, sabendo que precisava de ajuda. Isso o levou a um grupo de Alcoólicos Anônimos, onde encontrou um "senso de espiritualidade" que se tornou a base para sua cura.

Admitir e lidar com o problema do álcool foi um caminho para que começasse a se abrir sobre o abuso sexual que sofreu. Durante anos, ele havia mantido a história em segredo.

"Você se sente tão conivente com aquilo e a manipulação força o seu silêncio. Você não conta a ninguém - você tenta esconder a todo custo. É uma negação consciente que você faz para sobreviver", diz ele.

Um psicólogo incentivou Matt a se abrir para os pais. Inicialmente, ele foi cauteloso, não queria magoá-los. Embora soubesse que eles não eram responsáveis pelo abuso, ele sentia raiva por não ter recebido proteção dos pais. Já conversar com a irmã, Caroline, foi mais fácil.

"O sentimento foi de culpa", conta ela. "Me perguntei por que fui capaz de ajudá-lo. Eu era a irmã mais velha mandona que achava que cuidava dele, então foi muito perturbador descobrir que isso tinha acontecido e que eu estava completamente por fora."

Caroline pensou em aconselhar Matt a ir à polícia, mas se deu conta de que não haveria provas para sustentar uma acusação. Ela então se ofereceu para fazer o que fosse preciso para ajudá-lo a se curar e a viver uma vida plena.

Ao longo dos anos, Matt recebeu ajuda de vários tipos de terapia e viajando para a Índia e o Brasil.

Ele aprendeu a lidar com seus gatilhos emocionais e a superar o mal estar que sentia por estar fisicamente próximo a outra pessoa.

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Viajar para a Índia em 2016 foi uma das estratégias que ele tentou em busca de "cura" Imagem: BBC

Mas os resultados vieram aos poucos. Matt diz que demorou 20 anos para conseguir se lembrar completamente da coerção e das ameaças que havia sofrido. Ele diz que foi só aí que entendeu que o abuso não foi culpa dele.

"Isso me permitiu seguir em frente e deixar de sentir vergonha", diz.

À medida que se abria mais sobre sua história, sua confiança crescia. Hoje, ele ajuda outras pessoas que passaram por experiências parecidas e está considerando aderir a uma campanha da Sociedade Nacional para a Prevenção da Crueldade contra Crianças (NSPCC, da sigla em inglês), que ajuda crianças a saber a quem recorrer se estiverem sendo abusadas.

Em sua vida pessoal, o progresso tem sido mais tímido.

Ainda que tenha conseguido completar um perfil em um site de encontros, durante meses ele evitou relacionamentos "ao vivo".

Em especial, ele temia que as pessoas com quem saísse quisessem saber por que ele não bebia e por que não teve relacionamentos anteriores. Ele se sentia inseguro pelo fato de nunca ter tido um relacionamento baseado em igualdade, partilha, gentileza e amor - e que sua única experiência de sexo ter sido a que teve durante os meses de abusos.

"Se a outra pessoa em um encontro sentir que você está escondendo alguma coisa, isso pode causar um estranhamento. Talvez seja melhor ser aberto (sobre essa história)", diz.

Finalmente ele teve coragem de publicar seu perfil online. Quase imediatamente recebeu respostas promissoras.

Agora Matt está pronto para seu primeiro encontro marcado no site - um café com uma mulher com quem acredita ter muito em comum.

Ele diz que está se esforçando para não pensar demais no que vai dizer e fazer. Ele sente que deu um enorme passo adiante.

"Muito da vergonha que eu sentia por causa do abuso ficou para trás, então eu não sinto necessidade de me desculpar pelos efeitos colaterais que eu tive", diz Matt. "Eu aceito que estou com medo, mas também me sinto feliz porque há uma chance de a minha vida não se resumir aquele abusos. Eles não são tudo na minha vida."

*Matt Carey é um pseudônimo.

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