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Residentes do HC reclamam de exploração e formação prejudicada na pandemia

Vista aérea do Hospital das Clínicas de São Paulo - Divulgação
Vista aérea do Hospital das Clínicas de São Paulo Imagem: Divulgação
do UOL

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

10/08/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Mesmo com pouca experiência em clínica médica, médicos residentes foram enviados para a linha frente no HC
  • Nesse período, o HC precisou cancelar exames, consultas e cirurgias, acumulando casos para o pós-pandemia
  • Residentes se queixam de que perderam meses de formação nas especialidades para as quais são contratados
  • HC nega ter havido "exploração" dos médicos em formação e afirma que o recrutamento incluiu todas as categorias

Médicos residentes do Hospital das Clínicas de São Paulo relataram ao UOL queixas em relação às condições de trabalho de quem está ou já esteve na linha de frente no combate à pandemia do novo coronavírus em um dos hospitais mais importantes do Brasil.

"Eu fiquei chocado com a dificuldade para conseguir uma vaga na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) em uma das minhas primeiras noites no 'covidário' do HC", disse, sob condição de anonimato, um dos médicos residentes convocados pelo hospital a trabalhar.

"Covidário" é a forma como ficou conhecido internamente o Instituto Central, o prédio principal do HC. Desde março, seus 900 leitos —utilizados pelas especialidades do hospital— foram destinados ao tratamento de pacientes com covid-19.

Sem mão de obra, o HC cancelou exames, consultas e cirurgias e recrutou para atuar no "covidário" 700 dos seus 1.700 residentes, médicos em formação que ganham uma bolsa do governo para se dedicar às diversas especialidades que tornaram famoso o HC.

A intenção do programa é reduzir o déficit de especialistas no Brasil, já que apenas quatro especialidades concentram 40% dos formados, segundo a USP.

Segundo o HC, a convocação na pandemia incluiu todas as categorias, não apenas residentes. "Não houve exploração, mas aproveitamento da capacidade de trabalho de médicos formados", disse o hospital por meio de nota.

No HC, os residentes trabalham 240 horas mensais em troca de uma bolsa de R$ 3.000 líquidos para se especializarem em clínica geral, pediatria, oftalmologia, ortopedia e endocrinologia, por exemplo. Como foram para a linha de frente na pandemia, receberam um adicional R$ 667 estabelecido pelo Ministério da Saúde. O valor das bolsas "não é definido pelo HC", diz o hospital.

"A premissa é que a gente seja supervisionada", disse uma residente ao UOL. "O HC contratou alguns médicos supervisores por R$ 1.000 o plantão, mas eles raramente têm contato com o doente. O serviço pesado é nosso", afirma.

O "covidário"

Mesmo se dizendo contrariados, os residentes que não se dedicam à clínica médica (especialidade exigida no "covidário") aceitaram a tarefa, mas em pouco tempo a falta de experiência na atividade gerou insegurança. Cada um deles fica responsável pelos cuidados de 6 a 7 pacientes todos os dias, "muita gente para um médico em aprendizado", disse um residente.

Em um de seus primeiros dias no "covidário", um deles afirmou que teve que insistir para conseguir transferir um paciente para a UTI. "Foi como tentar vender um produto", disse. "Eu insistia dizendo 'ele tem múltiplas comorbidades, está usando máscara de oxigênio e não melhora'."

O plantão de 12 horas no "covidário" seguido por 36 horas de descanso aumenta o estresse, dizem os residente ouvidos pela reportagem. "Os doentes ficam muito carentes, querem desabafar, mas é muito trabalho, difícil dar atenção."

Os médicos residentes acumulam a tarefa de ligar diariamente para os familiares para contar a evolução clínica do paciente. "Muitas vezes a notícia é ruim, o doente piorou e precisa ir para a UTI."

Nessa hora, eles lidam com a insatisfação da família, que, segundos os residentes ouvidos, frequentemente fazem pressão pela prescrição de cloroquina, medicamento utilizado no HC apenas em casos graves. A pressão aumenta quando o paciente infectado também tem doença preexistente.

Está bem difícil. Em primeiro lugar, aquela não é especialidade para muitos de nós. Você perde a mão. São oftalmologistas, ortopedistas, cirurgiões, dermatologias que enfrentam séria dificuldade técnica
Residente do HC

Quando falta vaga na UTI, o doente é intubado em um quarto da própria enfermaria, alterando a dinâmica do setor. Eles explicam que o local tem quartos individuais, enquanto na UTI os leitos ficam lado a lado.

"Na UTI a equipe está habituada com a possibilidade de o paciente piorar a qualquer momento. É mais difícil perceber algum problema em um quarto fechado."

Mesmo sem especialização em clínica médica ou infectologia, a gente foi deslocado para tratar uma doença nova. A gente teve de aprender na hora. Há muita insegurança do dia a dia
Residente do HC

Diante do estresse, o HC criou um canal telefônico para ajuda psicológica.

Sem cirurgias

"Como muitas consultas, exames e cirurgias foram cancelados na pandemia, os pacientes originais do HC voltarão mais doentes", prevê uma residente. "Todas as especialidades foram afetadas. Só foi mantido atendimento a quem tem medicação controlada e quadro grave."

Embora as vagas para covid-19 tenham diminuído ao longo de julho, "os leitos desocupados ainda não foram liberados para retomarem suas especialidades", afirma um residente.

Eles defendem que os infectados passem a ser encaminhados para hospitais secundários, já que o HC é terciário, destinado à alta complexidade. Desde o início da pandemia, o HC cuidou de mais de 4.000 pacientes graves "e contou com o esforço de todos os seus colaboradores para realizar estes atendimentos", diz o hospital.

Surpresa

Apesar de muitos residentes venham retomando sua rotina, 350 profissionais foram surpreendidos na sexta-feira (31) com um comunicado da diretoria enviado sem assinatura pelo WhatsApp.

O pedido é que os residentes dediquem dois plantões de 12 horas de sua carga mensal no "covidário" até o fim de agosto. Para os médicos, a formação em suas especialidades já foi comprometida.

"Em uma reunião, o CNRM (Comissão Nacional de Residência Médica) comunicou que não haverá extensão de prazo de residentes para este ano. A possibilidade de complementação da formação dependeria de patrocinadores, apenas para poucos e não de forma integral", afirmou ao UOL a Amerusp (Associação dos Médicos Residentes da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

"Deixei de lado os colírios, lentes e meus instrumentos cirúrgicos para me dedicar à pandemia", diz uma residente de oftalmologia. "Estava cursando o ano mais importante da minha residência, mas já não tenho garantias de que terei esse período reposto."

Foi construída essa imagem de heróis no HC. Mas não foi isso que aconteceu. Os residentes que ficaram na linha de frente foram muito desvalorizados. A falta de transparência da diretoria com os departamentos incomoda. Nem os chefes sabem quando o centro cirúrgico será reaberto. A gente não se forma e os pacientes aguardam indefinidamente.
Residente do HC

O complexo afirma que "fez uma proposta de reposição de aprendizado aprovada em todas as instâncias, inclusive com a presença de representantes dos residentes, que previa o aumento de um mês, com bolsa, no período de residência".

"Essa proposta foi reavaliada em assembleia pela Amerusp, com mais de 600 residentes, que decidiu pela não extensão de um mês e que a reposição fosse feita na grade remanescente", diz em nota. "Diante dessa decisão, para as áreas que ainda foram avaliadas como necessárias, foi oferecido um curso de três meses na Escola de Educação Permanente do Hospital das Clínicas."

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