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A beleza e a força da simplicidade

A chegada ao Pacífico, em Valparaíso, depois de 1.939 km, desde o Atlântico, em 27 dias - Acervo pessoal
A chegada ao Pacífico, em Valparaíso, depois de 1.939 km, desde o Atlântico, em 27 dias Imagem: Acervo pessoal
Diego Salgado

Repórter do UOL desde 2015, com passagens por Estadão e Portal 2014. Ciclista há 20 anos na cidade de São Paulo, já pedalou por 10 países e atravessou sozinho a América do Sul e a Europa. A Oceania é o próximo desafio.

do UOL

31/07/2020 04h00

Pachi arregalou os olhos, numa mistura de ceticismo e encanto. Fez a mesma pergunta umas quatro vezes seguidas e de um jeito bem argentino emendou de novo:

- Não é possível, não é possível. Você veio do Brasil até aqui de bicicleta assim mesmo?

O argentino queria entender como eu havia saído de Rio Grande, no litoral gaúcho, e pedalado sozinho até General Levalle, no centro da Argentina, naquela simplicidade, como se estivesse indo para uma pedalada em São Paulo.

Pois foi assim mesmo que me lancei com cicloviajante. Numa noite, decidi atravessar o continente sem nunca ter pedalado um quilômetro numa estrada. Tracei a rota, estudei noites a fio o caminho, escolhi paradas e sonhei em sair de uma praia do Oceano Atlântico e chegar a uma outra do Pacífico.

Depois disso, convoquei a minha velha bicicleta, companheira de oito anos, uma Caloi aro 26, uma guerreira. Troquei as principais peças na oficina do João, no Butantã, arrumei uma caixa de papelão e embarquei rumo a Porto Alegre numa manhã quente de setembro, sem entender nada de mecânica.

De lá, diante de uma chuva completamente desleal na capital gaúcha, peguei um ônibus até Rio Grande, onde o vento impera, mas não impede de seguir em frente.

Eu carreguei comigo, além da vontade de cumprir o trajeto, as mesmas roupas que me acompanhavam pelas ruas de São Paulo: minha bermuda que vira calça, meu tênis mais parceiro, poucas meias, poucas cuecas, duas camisetas. Uma barraca surrada, também. O colchão inflável eu decidi riscar da lista. O peso não valia o esforço, nem mesmo pelo conforto.

Rota 7 argentina - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Tempestade se formou na Rota 7 argentina, entre Laboulaye e General Levalle
Imagem: Acervo pessoal

Mas naquele dia em General Levalle eu estava de saco cheio. E não era para estar, porque na véspera eu havia alcançado a metade do caminho, em Laboulaye, cidade conhecida por ser o centro exato da argentina, seja de norte a sul ou leste a oeste.

Ao sair da cidade, pressenti que não seria uma boa pedalada. O vento estava forte, e as nuvens carregadas de água não demoraram a aparecer. O céu escureceu de forma assustadora. E a chuva completou o cenário apocalíptico. Encarei a Rota 7, sem acostamento, com caminhões, ônibus, sem nem pensar, porque se pensasse, eu desistiria.

Minha ideia era seguir até Vicuña Mackenna, mas a tempestade me apresentou a General Levalle. Na entrada da cidade, já arrasado pela tempestade, perdi o retrovisor ao deixar a bike cair sozinha numa parada num posto de gasolina. Minutos depois, o pneu furou pela primeira vez em 1.050 km de pedalada.

Se não fosse o bastante, deixei a bike cair mais uma vez, em cima do meu pé. A unha ficou comprometida, e eu voltei a perguntar a mim mesmo por que eu estava ali, numa briga interna e constante.

Mas General Levalle, Pachi e sua turma entrariam na história. Na curta carreira de cicloviajante até aquele momento, criei uma superstição que virou regra. Se o primeiro habitante da cidade fosse receptivo, a noite seria boa e tranquila. Dito e feito. O primeiro cidadão de Levalle parou o carro sem mais nem menos e indicou que havia um camping gratuito mais à frente, no belíssimo lago San Agustín.

No local, fui recebido com água e recebi outra indicação: o espaço exato onde eu poderia montar o acampamento. Pois foi lá que Pachi apareceu, esbaforido após uma corrida em volta do lago. Conversamos sobre futebol, sobre as minhas condições, sobre a estrada.

Acampamento - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Acampamento à beira do Lago San Agustín: paz depois de apuros na estrada
Imagem: Acervo pessoal

Em meio à conversa, o argentino se afastou, retirou o celular do bolso e fez uma ligação, meio às escondidas. Escutei, sem querer, que ele havia pedido autorização à esposa para me levar para um jantar na casa da família. Pachi ainda garantiu que levaria a minha bike para uma revisão completa na oficina La Bicicletería.

Despedimo-nos e marcamos o encontro familiar para dali a duas horas. Tempo para eu montar a barraca e tomar um banho tranquilo nas instalações do camping vazio. No chuveiro, desabei. Chorei como poucas vezes na vida, porque o dia tinha sido tão difícil e eu estava numa situação completamente favorável. Um milagre. A água estava quente, eu jantaria com pessoas legais e eu já tinha superado metade do trajeto.

Pachi continuou embasbacado o restante da noite. Ao lado da esposa, Vanessa, ofereceu um belo churrasco e, na garagem, mostrou sua bike de treino. Depois, emendou, de novo:

- Eu ainda não acredito que você veio até aqui assim, sem roupa de ciclista, sem sapatilha, nem nada. Como pode? Como você aguenta?

Pachi - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Ao lado de Pachi, amigo argentino que me recebeu em General Levalle
Imagem: Acervo pessoal

Eu expliquei a Pachi que, além de gostar de simplicidade, tudo aquilo era uma forma de me fortalecer. O mínimo de melhora em algumas condições dali em diante já teria um grande efeito positivo. Na minha segunda cicloviagem, por exemplo, rendi-me ao colchonete e achei tudo mais fácil. O tênis e a bermuda, esses, foram mantidos como parceiros, como não poderia deixar de ser.

Eu dormi feliz aquele dia e até abri uma exceção. Deixei a minha bicicleta com pneus murchos na casa de Pachi, mesmo acostumado a dormir ao lado dela todos os dias na barraca, numa parceria de 24 horas.

Eu e Pachi nos encontramos às 9h para ir até a Bicicletería. No tempo do conserto, fui apresentado a outras pessoas de Levalle. Todos queriam entender como fui parar ali e até entrevista à rádio FM Centro Levalle eu dei — e ainda ganhei uma camisa do Rosario Central do fanático Rodrigo, empolgado em saber do meu apreço pelo time.

O dia rendeu ainda um café com os irmãos de Pachi, uma conta perdoada na bicicletaria e um almoço final com o argentino anfitrião. Ele fez macarrão, abriu umas cervejas e conversamos mais sobre simplicidade.

Eu segui, nunca mais vi Pachi e sua família, embora eu tenha marcas de todos eles. Há um adesivo da Bicicletería colado em minha bike. Pachi, a turma do rádio, vira e mexe, mandam notícias.

E não foi só Levalle. A história de repetiu em Vedia, Diego de Alvear, Rufino, La Dormida e Uspallata. Todos palcos da beleza e da força da simplicidade.

Em tempo: repeti a mesma estratégia na Europa, exato um ano depois, em mais 2.000 km de deslocamento de bicicleta sozinho. O tênis, a bermuda, a bicicleta, minhas companheiras diante de vastas solidão, gentileza e simplicidade. Solidão da estrada, gentileza das pessoas e simplicidade minha.

Rota 7 - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Minha primeira cicloviagem durou 27 dias e incluiu passagens por Brasil, Uruguai, Argentina e Chile
Imagem: Acervo pessoal

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