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Trabalhadores do setor de carne exigem mais medidas contra coronavírus

Bruno Cecim/Agência Pará
Imagem: Bruno Cecim/Agência Pará

Jen Skerritt e Tatiana Freitas

02/04/2020 14h18

Um número crescente de trabalhadores essenciais para garantir a oferta de carne no mercado global exige que empresas reforcem as medidas para protegê-los contra o coronavírus.

Com a confirmação de casos de funcionários e maior absenteísmo em diferentes países, sindicatos começam a cobrar ações. Alguns trabalhadores da linha de frente chegaram a fazer paralisações. Esse cenário aumenta a probabilidade de protestos generalizados que podem ameaçar a oferta global de carne, justo quando cadeias de suprimentos enfrentam gargalos e supermercados tentam manter as prateleiras abastecidas em meio à corrida por alimentos.

Faz parte do dilema enfrentado por produtores de carne e agrícolas em uma pandemia: como manter o mundo alimentado e proteger funcionários. Abatedouros e frigoríficos aceleram a higienização das operações, estabelecem horários de almoço escalonados e medem a temperatura de funcionários, mas sindicatos dizem que ainda não é suficiente.

"Estão com medo de tomar a decisão de que é preciso aumentar o distanciamento entre os trabalhadores para 1,5 metro de distância um do outro, porque a produção vai despencar", disse Paula Schelling, presidente interina do conselho nacional de inspetores de alimentos da Federação Americana de Funcionários do Governo.

O primeiro caso de um funcionário de um grande produtor de carne dos EUA que testou positivo para o vírus foi divulgado na semana passada pela gigante avícola Sanderson Farms. Desde então, surgiram casos em várias empresas, como em frigoríficos da JBS, em Iowa, e da Harmony Beef, em Alberta.

No Brasil, um juiz determinou o fechamento ou redução das operações de dois frigoríficos da Seara, pertencente à JBS, em Santa Catarina, após um pedido do sindicato local, que alegou questões de segurança. Um dia depois, a JBS conseguiu reverter a decisão, porque o processamento de alimentos é considerado atividade essencial.

Os trabalhadores ainda se sentem inseguros, disse Celso Elias, diretor de imprensa do sindicato, em entrevista por telefone.

A JBS citou suas rígidas medidas para garantir a saúde e a segurança dos funcionários, como práticas para reduzir a aglomeração de pessoas. "A empresa comprovou à justiça federal por documentos, fotos, vídeos e elementos juntados aos autos do referido processo, que está adotando todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde e do Ministério da Saúde", informou a JBS em comunicado.

Outras empresas brasileiras também começam a ser afetadas por movimentos de funcionários pedindo mais segurança. Unidades dos frigoríficos Marfrig e Minerva no Uruguai ficarão paralisadas por oito dias durante uma greve organizada por um sindicato local, segundo fontes do setor. O sindicato, conhecido como Foica, reivindica um maior distanciamento entre os trabalhadores dentro das fábricas.

Nos EUA, o distanciamento social não é possível em unidades de processamento onde funcionários trabalham lado a lado, e o Departamento de Agricultura não oferece material de proteção aos inspetores de segurança do consumidor ou de alimentos como máscaras ou álcool gel, disse Schelling, da Federação Americana.

A Liga de Cidadãos Latino-Americanos Unidos, a maior organização latina de direitos civis dos EUA, disse que os trabalhadores estão sendo expostos "com poucos recursos". O grupo pede ao Departamento do Trabalho que forneça diretrizes claras sobre materiais de segurança adequados, dias de folga remunerados e exames regulares de saúde para trabalhadores.

A força de trabalho ao longo da cadeia alimentar também começa a se organizar em uma ação coordenada para exigir mais proteção aos funcionários que precisam trabalhar durante a pandemia.

Contratações

Assim como hospitais procuraram profissionais com experiência em tratamento intensivo, algumas empresas buscam criar uma equipe de emergência para manter os frigoríficos funcionando.

A gigante de frango BRF anunciou a contratação de mais de 2 mil pessoas no Brasil e em outros países para substituir os que possam ser afastados por causa da pandemia, disse o presidente Lorival Luz.

A JBS USA decidiu pagar bônus para reter funcionários enquanto contrata mais pessoas para garantir o funcionamento dos frigoríficos se o número de casos entre empregados aumentar.

"Existe um risco, mas precisamos equilibrar isso, pois temos a responsabilidade de continuar produzindo alimentos", disse André Nogueira, que comanda as operações nos EUA, em teleconferência na semana passada. "Não podemos parar. Caso contrário, vamos ter um grande problema para toda a nação."

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