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Coronavírus: França planeja saída do confinamento por etapas, mas processo deve durar meses

Homem observa o Mediterrâneo na avenida Promenade des Anglais, em Nice, na França - VALERY HACHE/GETTY
Homem observa o Mediterrâneo na avenida Promenade des Anglais, em Nice, na França Imagem: VALERY HACHE/GETTY

02/04/2020 13h13

Os franceses estão confinados desde 17 de março, uma medida já prorrogada pelo governo ao menos até 15 de abril. Na noite de quarta-feira (1°), o primeiro-ministro Edouard Philippe anunciou que o fim do isolamento não será realizado simultaneamente em todo o país e ocorrerá aos poucos e por etapas. O processo que deve durar meses.

Segundo Philippe, provavelmente o fim do confinamento não será feito "em uma só vez, em todos os lugares, por todo mundo. A estratégia do governo francês será apresentada dentro de breve, garantiu o premiê.

"Pedimos para várias equipes trabalharem sobre essa questão estudando a oportunidade e a possibilidade de um desconfinamento que será regionalizado, que obedecerá a uma política de testes, em função, talvez, das faixas etárias", indicou o premiê. "Será um longo combate, que implicará em notícias ruins e decepções", salientou Philippe.

A estratégia é inédita já que, segundo Philippe, "nunca se confinou tanta gente assim". Por isso, de acordo com a porta-voz do governo, Sibeth Ndiaye, o executivo trabalha dentro de "diferentes cenários". No entanto, segundo ela, na espera de dados científicos, o governo "não é capaz hoje de dizer em qual momento essa crise vai acabar".

Evolução da epidemia

Arnaud Fontanet, chefe da unidade de Epidemiologia de Doenças Emergentes do Instituto Pasteur é um dos membros do conselho científico criado pelo governo em 11 de março para a gestão da crise ligada ao coronavírus. Em entrevista à RFI, ele afirma que o fim do confinamento vai depender da evolução da epidemia na França.

"O confinamento foi decretado porque observávamos um fluxo massivo de pacientes nas UTIs das regiões mais atingidas pela epidemia. Esperamos ver os primeiros resultados desta medida durante essa semana. Devemos começar a ver diminuir o número de admissões nas emergências dos hospitais, dependendo do respeito do confinamento", afirma.

O especialista lembra, no entanto que isolar as pessoas em suas casas é uma medida temporária. "O confinamento traz uma solução a curto prazo, mas não a longo prazo. O dia em que as pessoas saírem de suas casas, o vírus vai voltar a circular, porque mais ninguém foi contaminado. Vamos estar um pouco na situação que vivíamos antes do confinamento", explica.

Em entrevista à rádio France Info, o diretor-geral da Saúde da França, Jérôme Salomon, afirma que, mesmo após a reabertura de escolas e empresas, "continuaremos aplicando medidas para evitar o contágio, como lavar as mãos e manter a distância entre as pessoas durante meses". Segundo ele, eventos e aglomerações farão parte da última etapa do desconfinamento.

Testes em massa e identificação dos imunizados

O presidente do Conselho Científico, Jean-François Delfraissy, sugere a realização de testes em massa com todas as pessoas que apresentarem sintomas da Covid-19 - estratégia utilizada pela Coreia do Sul. Por isso, o ministro da Saúde, Olivier Verán, prometeu a realização de cerca de 50 mil exames por dia até o final de abril e mais de 100 mil por dia até o mês de junho.

Outra etapa importante da luta contra o coronavírus será identificar quem está imunizado. Por isso, o governo se prepara para realizar análises dos anticorpos presentes no sangue das pessoas para determinar quem já foi contaminado. Entretanto, não se sabe, até o momento, se a imunidade é desenvolvida após o contágio ou se ela é temporária ou definitiva.

O infectologista belga Nathan Clumeck, citado pelo Journal du Médecin, acredita que os testes sanguíneos poderiam rapidamente permitir a "liberação sem riscos de milhares de pessoas cujo trabalho é essencial para o funcionamento da sociedade". No entanto, as pessoas não imunizadas deveriam esperar uma desaceleração da epidemia.

Reabertura das fronteiras

O governo francês prevê tirar os cidadãos do isolamento por regiões. Já a reabertura das fronteiras nacional só ocorrerá na reta final do processo, daqui a vários meses.

Como o primeiro-ministro francês, o pesquisador italiano Fabrizio Pregliasco defende um desconfinamento gradual, "em função das faixas etárias, com grandes precauções para as pessoas idosas e com saúde frágil".

O processo será longo e delicado. Afinal, na ausência de uma vacina ou um de tratamento eficaz, o fim do isolamento pode resultar em um novo aumento das contaminações. Segundo o epidemiologista Antoine Flahault, "seria necessário entre 50% e 66% de pessoas infectadas e depois imunizadas para acabar com a pandemia".

A França ainda está longe desta percentagem: segundo um estudo do Imperial College de Londres, publicado na segunda-feira (30), apenas 3% dos franceses foram contaminados até o momento. Na quarta-feira (1°), o país registrava 57 mil casos de infecção confirmados por testes e 4.032 mortes, 509 apenas nas últimas 24 horas. Mais de 6 mil pessoas estão internadas em estado grave nas UTis dos hospitais franceses.

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