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Reação da Bolsa depende de qualidade de pacote econômico, diz firma global

Frederico Sampaio, diretor de investimentos da Franklin Templeton, fala sobre impacto do coronavírus na Bolsa - Diego Aguiar
Frederico Sampaio, diretor de investimentos da Franklin Templeton, fala sobre impacto do coronavírus na Bolsa Imagem: Diego Aguiar
do UOL

João José Oliveira

do UOL, em São Paulo

30/03/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Frederico Sampaio, diretor de investimentos da Franklin Templeton, que cuida de R$ 3,8 tri no mundo, diz que coronavírus foi uma "bomba" no mercado
  • Para ele, se pacote do governo for bem aplicado, mercados reagem mais rapidamente
  • Maior lição da crise: quem precisa de dinheiro imediato não deveria estar na Bolsa

O impacto da pandemia do coronavírus sobre os mercados é muito maior que o provocado por outras crises que o mundo já atravessou. Por isso, é impossível tentar prever agora em que momento os investimentos, em especial nas Bolsas, vão começar a se recuperar de forma sustentável. No caso do Brasil, o grau de incerteza é ainda maior por causa da falta de sintonia entre governantes, afirma Frederico Sampaio, diretor de investimentos da Franklin Templeton no Brasil, uma das mais tradicionais casas de investimento do mundo.

"Foi como se tivesse soltado uma bomba", afirma o diretor da empresa, fundada em 1947 e que cuida hoje de mais de US$ 753 bilhões (R$ 3,84 trilhões) de milhões de clientes em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde existe desde 1998. Para Sampaio, que atua no setor há mais de duas décadas, a recuperação dos mercados depende diretamente da atuação do governo. Isso porque as necessárias restrições à circulação de pessoas e ao funcionamento das empresas - para conter o avanço da doença no país - vão provocar recessão.

O diretor da Franklin Templeton no Brasil diz que, se o governo adotar um plano focado nos mais vulneráveis e, depois da crise, retirar os gastos extras de cena, o endividamento do setor público será pontual e haverá uma recuperação da economia. "E quanto mais rápido for a retomada da economia, mais rápido a Bolsa se recupera", diz Sampaio.

Segundo ele, se o governo for "estabanado", piorando os fundamentos da economia, o mercado vai ficar preocupado com a sustentação da dívida, os juros vão subir e o país volta ao cenário anterior, o da armadilha de crescimento baixo. Nesse caso, investidores podem deixar de buscar aplicações de risco no Brasil.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

UOL: Qual pode ser a extensão do impacto do coronavírus na economia brasileira?

Frederico Sampaio: Todos sabem que a tendência é de uma revisão da atividade para pior de forma geral. Mas a medição disso é muito difícil hoje porque ainda não temos dados econômicos relevantes em quantidade para termos uma dimensão exata de qual será.

Nos mercados, o impacto já está acontecendo. Até porque os mercados antecipam o que vai acontecer na economia. E isso explica por que a queda foi dessa forma em velocidade e profundidade. Foi como se tivesse soltado uma bomba no mercado.

Por que essa crise é diferente da de 2008?

A crise de 2008 foi gerada no exterior, sem ligação local e muito baseada na qualidade no risco de crédito que os bancos lá fora tinham em balanço. Era uma crise financeira em instituições financeiras, algo muito ligado ao sistema financeiro. E de lá teve as ramificações para o restante da economia.

Dessa vez é uma crise parecida com uma guerra. Não é uma crise financeira. E acabou pegando o Brasil, que foi contaminado.

Por outro lado, o governo não tem maioria no Congresso, o que dificulta o encaminhamento das soluções.

Enxerga uma recuperação em que horizonte?

Agora a gente vai começar a colher os dados para saber como isso vai impactar de fato. A grande discussão no mercado é qual vai ser o ritmo da recuperação. Não sabemos ainda o tamanho da primeira perna (de retração).

Foi tudo tão rápido que ainda não deu tempo para as autoridades reagirem. Veja o caso do comércio: fechou as portas e não sabe nem como vai pagar salários.

O Brasil vinha passando por um processo de migração, em que os investidores estão saindo de ativos de menor risco para aplicar em ativos de perfil mais arrojado. Isso deve ser revertido?

Ainda é muito cedo para saber o impacto dessa crise sobre esse movimento. Há tantos pontos pendentes que seria irresponsável traçar uma previsão. Mas podemos ver alguns cenários possíveis.

Vemos um movimento deflacionário e recessivo. O Fed (banco central dos EUA) já cortou juros a zero, o BC aqui no Brasil também cortou juros. Então, esse movimento não fará os juros subirem, pelo menos por enquanto.

Ao mesmo tempo, os ativos de risco caíram, como a Bolsa. Assim, temos um ponto de partida, em termos de preços desses ativos, que torna os juros menos interessantes em relação à Bolsa olhando o longo prazo. Mas ainda estamos no começo desse processo.

A que devemos ficar atentos?

Qual será o pacote de ajuda? Se o pacote de ajuda for bem feito e não criar despesas adicionais permanentes, teremos uma chance maior de a economia se recuperar mais rapidamente.

Tem que ser um plano pontual que atenda os mais vulneráveis, pequenos e médios empresários, os autônomos, pessoas que não têm rede nenhuma de proteção.

O governo não pode repetir o erro de 2008, quando atendeu parcelas que não necessariamente precisavam e que acabaram se transformando em despesas permanentes.

Se tivermos um plano voltado para os mais vulneráveis e, depois da crise, o pacote sai de cena, o endividamento do setor público será pontual e teremos uma recuperação da economia.

E quanto mais rápido for a retomada da economia, mais rapidamente a Bolsa se recupera.

Mas se for algo estabanado, piorando os fundamentos da economia, o mercado vai ficar preocupado com a sustentação da dívida, os juros vão subir e voltamos para o cenário anterior, o da armadilha de crescimento baixo.

E nesse caso, a migração em busca de ativos de risco pode parar.

No contato com os clientes, qual tem sido a recomendação da empresa?

Verdade que todos ficaram preocupados e chocados. Mas o impacto foi tão rápido que muita gente nem conseguiu reagir. E diferentemente de outras crises, quando era possível tirar o dinheiro da Bolsa, por exemplo, e colocar em uma aplicação de renda fixa, que dava 14% ao ano, agora isso não é possível.

Então não vimos tantos saques. E essa é nossa recomendação. Olhando o cenário de médio e longo prazo, a Bolsa estará mais alta no futuro.

O problema é navegar nessa situação. Vimos o impacto nos mercados, e agora vamos ver os impactos na Economia. E essas notícias não ajudam o ambiente. Mas em algum momento o ambiente começa a melhorar, e o mercado passa a melhorar também.

Enquanto isso, o mercado está disfuncional, com variações que não são normais. Para quem não precisa mesmo dos recursos, o mais indicado é esperar.

Qual o aprendizado que fica?

Preciso falar que passamos por um evento raro e radical. Talvez tenhamos uma lição exagerada. Um evento muito improvável de acontecer novamente.

Dito isso, o que precisa ser aprendido são algumas lições: não se pode colocar todos os ovos em uma cesta só; é preciso ter planos de investimento em horizontes mais longos.

E é importante ter um plano de investimento de acordo com o momento de sua vida. Se você é uma pessoa jovem, você pode ter uma perda agora, mas poderá ter tempo para recuperar. Vale lembrar que muita gente ganhou muito dinheiro porque crises como essa também são grandes oportunidades.

Mas se você tem fluxo de caixa com demandas e saídas em prazos curtos, você não poderia estar em Bolsa ou outros ativos de risco de forma geral. Ou seja, é fundamental casar seu portfólio com seu perfil.

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