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Não há como saber se "pior" do óleo ainda está por vir, dizem especialistas

24.out.2019 - Trabalho de remoção do óleo na Praia do Janga, em Paulista, na região metropolitana do Recife (PE) - Tiago Queiroz/Estadão
24.out.2019 - Trabalho de remoção do óleo na Praia do Janga, em Paulista, na região metropolitana do Recife (PE) Imagem: Tiago Queiroz/Estadão
do UOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

04/11/2019 13h03Atualizada em 04/11/2019 15h49

Resumo da notícia

  • Bolsonaro disse em entrevista que pior do óleo "ainda está por vir"
  • Especialistas, Marinha e Ibama não sabem a quantidade de óleo vazado
  • Por isso são mais cautelosos em fazer qualquer afirmação sobre o futuro

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) causou impacto ao dizer em entrevista que "o pior ainda está por vir", se referindo ao óleo que atinge a costa do Nordeste desde o final de agosto. Entretanto, órgãos oficiais e especialistas afirmam que não é possível saber se chegará mais ou menos óleo à região.

Hoje, o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, afirmou hoje que o governo não dispõe da informação sobre a quantidade total de óleo. "Nós não sabemos a quantidade derramada, o que está por vir ainda", disse. "É difícil, porque ele [o óleo] fica a meia água, é imperceptível."

O comandante de Operações Navais da Marinha, o almirante Leonardo Puntel, que coordena o trabalho das equipes no Nordeste, afirmou que a chegada do óleo às praias dá sinais de estar diminuindo.

"O que nós estamos vendo nos últimos dias é um arrefecimento real, estatístico, da quantidade de óleo que está chegando às praias. Há mais de seis dias que não chega óleo a Pernambuco", disse.

"Ele [Bolsonaro] está se baseando na ideia de que vazou mais [óleo]. Se vazou mais, teoricamente teria mais óleo para chegar [à costa], mas eu não sei de onde ele tirou essa informação de que vazou mais. A quantidade que vazou, acho, ainda é incerta, a não ser que ele tenha aquelas imagens de satélite", afirma o professor Carlos Teixeira, do Instituto de Ciências do Mar da UFC (Universidade Federal do Ceará).

O UOL teve acesso ao relatório feito pela empresa que captou as imagens de satélite. Elas apontam que, no dia 29 de julho, uma mancha de 200 km de extensão foi flagrada a cerca de 700 km ao leste do litoral paraibano. O suspeito do derramamento é o navio grego Bouboulina.

Entretanto, nenhum trecho do relatório fala sobre a quantidade vazada.

Segundo o professor, é provável que parte do óleo vazado nem sequer chegue à costa. "Ela talvez se perca pelo caminho, fique lá no fundo do oceano mesmo. Mas a gente não sabe, têm muitas questões aí para afirmar que o pior ainda está por vir", diz. "Eu diria que pode vir mais, ser pior do que a gente já viu. Mas neste momento a gente não sabe", completa.

Além de especialistas, Marinha e Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis) também afirmam em suas páginas ser impossível saber se a chegada do óleo está próxima de acabar ou seguirá afetando praias.

"Não é possível prever com segurança as localidades que podem ser atingidas pelo óleo", diz o Ibama.

Bolsonaro sobre o óleo: "O pior ainda está por vir"

AFP

"As manchas se concentram em camada subsuperficial, o que impede a visualização por satélite, sobrevoo e monitoramento com sensores para detecção de óleo. Nesse contexto, o monitoramento realizado por agentes de campo em inspeções regulares nas praias e estuários é indispensável", afirma.

Cada vez mais praias ao sul são atingidas por vestígios do óleo, já que os novos aparecimentos têm sido predominantemente na Bahia, próximo ao Espírito Santo. Contudo, segundo a Marinha, isso não é suficiente para garantir que manchas chegarão ao Sudeste.

"Não há como prever se o óleo avançará para outras praias, pois ele é conduzido pelas correntes marítimas, que são influenciadas pelos ventos locais e regime das marés, e não são visíveis na superfície, a não ser muito próximo da costa, nas arrebentações. As correntes sofrem alteração de direção e intensidade constantemente. No momento, vistorias embarcadas e aéreas, em andamento, não identificaram manchas de óleo no mar", diz.

Até o momento, segundo o Ibama, 321 praias foram atingidas em 125 municípios. Até agora, mais de 4.000 toneladas de resíduos foram retirados de praias.

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