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Venezuela: Brasil age contra tensão e teme fluxo represado de refugiados

Agentes do Exército, Força Nacional e Polícia Rodoviária Nacional montam bloqueios na faixa de fronteira em Pacaraima (RR) - EDMAR BARROS/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Agentes do Exército, Força Nacional e Polícia Rodoviária Nacional montam bloqueios na faixa de fronteira em Pacaraima (RR) Imagem: EDMAR BARROS/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
do UOL

Luis Kawaguti

Do UOL, no Rio

27/02/2019 18h31

O governo federal está agindo para reduzir a tensão na fronteira com a Venezuela e para tentar evitar novos protestos violentos de imigrantes contra forças de segurança de Caracas na divisa entre os dois países. Em paralelo, as Forças Armadas traçam planos para absorver um possível aumento na entrada de venezuelanos no Brasil quando a situação na fronteira se estabilizar, segundo disse ao UOL um membro da cúpula das Forças Armadas.

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, determinou no último dia 21 o fechamento da fronteira terrestre que liga a cidade brasileira de Pacaraima (RR) com a cidade venezuelana de Santa Elena de Uairén. O mandatário queria evitar a entrada de remédios e alimentos disponibilizados pelo governo brasileiro desde sábado (23).

Contrário a Maduro, o governo de Jair Bolsonaro (PSL) decidiu reconhecer o líder opositor Juan Gauidó como presidente interino da Venezuela. O mesmo movimento foi feito pelos Estados Unidos.

A tensão militar se elevou com o deslocamento de tropas do lado venezuelano na semana passada. No fim de semana, houve distúrbios envolvendo manifestantes no trecho de rodovia que liga os postos de fronteira dos países.

Quando caminhões de mantimentos foram impedidos de entrar na Venezuela, imigrantes venezuelanos que estavam do lado brasileiro da fronteira atiraram pedras em tropas venezuelanas --que responderam com balas de borracha e gás lacrimogêneo.

Apesar de ser contrário a Maduro, o governo brasileiro enviou um reforço de policiais federais e tropas da Força Nacional para o posto de fronteira em Pacaraima para dissuadir novos confrontos.

Exército não reforça tropa na fronteira

Segundo o integrante da cúpula das Forças Armadas, o Brasil teme que pequenos choques e incidentes na faixa de fronteira --que são corriqueiros em uma situação normal-- ganhem grandes proporções e agravem a crise diplomática entre os dois países.

Por causa disso, mesmo após relatos de que militares venezuelanos teriam cruzado a faixa de fronteira na região de mata (longe dos postos de controle) para abordar brasileiros e venezuelanos em trilhas na zona rural, o Exército não reforçou suas guarnições na faixa de fronteira.

A ideia é distensionar a região para evitar um eventual confronto entre militares brasileiros e venezuelanos. "Ninguém quer um choque nesse momento, nem nós, nem os venezuelanos, seria negativo para os dois lados", disse o militar que pediu para não ter o nome revelado. 

Em paralelo, integrantes do governo fazem discursos afastando a possibilidade de conflitos e afirmando que não haverá qualquer tipo de ação brasileira em território venezuelano.

Na segunda-feira (25), o Grupo de Lima, órgão multilateral formado por países americanos, rejeitou uma ação militar na Venezuela contra o governo de Maduro. O comandante do Exército, general Edson Pujol, disse ontem ao jornal "Folha de S.Paulo": "é óbvio que todos nós queremos a paz. Ninguém quer confusão, muito menos envolvendo dois países".

Fluxo migratório represado

Desde o fechamento da fronteira, o fluxo de imigrantes venezuelanos que entram diariamente no Brasil vem caindo, pois ocorreram confrontos na cidade de Santa Elena de Uairén e a travessia da fronteira agora acontece por meio de trilhas na zona rural.

No último dia 21, quando a fronteira ainda estava aberta, 700 venezuelanos foram recepcionados pela Operação Acolhida --uma força-tarefa de apoio a refugiados que envolve autoridades federais e agências internacionais. No dia 22, os atendimentos caíram para 350; no dia 23 foram 115; no dia 24, 116 e no dia 25, 84.

A reportagem apurou que o governo federal teme que esse fluxo possa aumentar significativamente se a situação na fronteira se estabilizar, pois muitos imigrantes estariam esperando a travessia voltar a ser segura e um fluxo represado pode se deslocar de uma só vez.

Outra hipótese é que a ocorrência de mais confrontos no interior da Venezuela, entre apoiadores de Maduro e do autoproclamado presidente interino Juan Guaidó, faça com que mais pessoas busquem refúgio no Brasil.

Em ambos os casos, o plano de contingência do Brasil é aumentar emergencialmente o número de militares, servidores e os recursos disponibilizados para a Operação Acolhida. Atualmente, a ação é conduzida por um batalhão de 500 militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

No cenário da crise na Venezuela, a maior preocupação das Forças Armadas sempre foi a questão dos refugiados --e não a possibilidade de conflitos armados entre brasileiros e venezuelanos.

Em 2017, o Brasil, os Estados Unidos, a Colômbia e outras nações americanas começaram a treinar juntos para atender a uma crise de refugiados na região amazônica em um exercício militar internacional chamado Amazonlog

Em março de 2018, com o aumento do fluxo migratório em Roraima, uma operação real, mas sem a participação americana, foi estabelecida em Pacaraima e Boa Vista --Operação Acolhida.

Em 2017, quase 80 mil venezuelanos entraram no Brasil pela fronteira norte. Em 2018, o número passou de 194 mil. Parte dessas pessoas foi para outros estados e parte deixou o país.

Atualmente, a operação acolhida mantém 12 abrigos --um em Pacaraima com 438 indígenas e 11 em Boa Vista, onde estão mais de 5.800 imigrantes venezuelanos. O objetivo da operação é ajudar que essas pessoas se estabeleçam em outros estados brasileiros.

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