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Em livro, filósofo francês analisa efeitos sociais do uso da máscara contra a Covid

22/06/2021 13h12

Com a desaceleração da epidemia de Covid-19, o uso da máscara deixou de ser obrigatório nas ruas da França. Mas é possível se acostumar novamente a um mundo onde a proteção facial e o distanciamento social estejam ausentes? Esta é uma das questões colocadas pelo filósofo francês Pierre Dulau em seu livro "Faire Face - Le Visage et la Crise Sanitaire" (O Rosto na Crise Sanitária, em tradução livre), lançado em maio, escrito em coautoria com o também filósofo Martin Steffens.

Com a desaceleração da epidemia de Covid-19, o uso da máscara deixou de ser obrigatório nas ruas da França. Mas é possível se acostumar novamente a um mundo onde a proteção facial e o distanciamento social estejam ausentes? Esta é uma das questões colocadas pelo filósofo francês Pierre Dulau em seu livro "Faire Face - Le Visage et la Crise Sanitaire" (O Rosto na Crise Sanitária, em tradução livre), lançado em maio, escrito em coautoria com o também filósofo Martin Steffens.

Taíssa Stivanin, da RFI

A obra é uma reflexão sobre as consequências sociais a médio e longo prazo das restrições vividas durante o período epidêmico. Um dos autores, Pierre Dulau, conversou com a RFI Brasil sobre como a Covid-19 marcará um período de transição nas relações humanas e na maneira como concebemos o mundo. As pessoas conseguirão, quando a situação estiver sob controle, deixar para trás hábitos que aos poucos foram se integrando ao cotidiano da crise sanitária? Para o autor francês, a epidemia marca uma mudança de paradigma definitivo nas relações sociais, que já vinha sendo impulsionada há décadas pela revolução tecnológica.

RFI Brasil - No livro você utiliza o termo "regime de desconfiança coletiva" para citar as medidas restritivas. Você acredita que essa desconfiança vai continuar após o fim da epidemia?

Pierre Dulau: Uma das teses que eu e Martin Steffens defendemos no livro é que essa crise não é apenas uma crise sanitária. É, antes de mais nada, uma crise antropológica. A concepção do homem está mudando. Um novo contra-social está surgindo, baseado em requisitos de imunidade. Isso é que é preocupante: priorizar a imunidade à coletividade. O passe sanitário é uma maneira de instituir a desconfiança. Como se não quiséssemos nunca mais parar de nos protegermos uns aos outros. Acho que entramos em um regime de desconfiança permanente, onde vivemos com medo, porque o outro aparece como uma fonte de ameaça potencial. Não acredito que essas medidas sejam temporárias ou provisórias. Elas tendem a ser mantidas.

RFI Brasil - No livro, ao falar sobre as máscaras, você descreve um conceito chamado "visibilidade recíproca", lembrando que os primeiros desenhos que as crianças fazem, por exemplo, são o do rosto do pai e da mãe.

PD: Esse princípio de visibilidade recíproca é a essência do livro. A crítica que nós fazemos sobre o uso da máscara parte de uma análise sobre o que é o rosto humano, que tem, pelo menos, duas propriedades: ele traduz nossa singularidade, nosso ser, o que temos de incomparável, insubstituível. O rosto é a personificação do nosso caráter único. O segundo aspecto, ainda mais interessante, é a testemunha do caráter relacional do homem. Não posso enxergar meu rosto, ele é ofertado ao outro quando falo com alguém. Trata-se de um paradoxo: meu rosto é aquilo que tenho de mais pessoal, porque expressa minha singularidade, e é, ao mesmo tempo, algo que não me pertence. A máscara obrigatória nos despersonaliza. Tradicionalmente, a sociedade se baseia em um pacto que devemos ser visíveis e vistos uns pelos outros. Quando todos usamos máscaras, vamos contra essa concepção: construímos uma sociedade contraditória, de evitamento, onde cada um poderia viver e continuar voltado apenas para si mesmo. Essa nova sociedade mutila a vocação relacional do homem e viola o princípio de visibilidade recíproca.  

RFI Brasil - Você lembra de maneira interessante que a lei francesa proíbe esconder o rosto desde 2019, como resposta à onda de atentados jihadistas.

PD: É irônico. Passamos anos explicando que uma mulher não podia circular de burca ou jihab na rua e agora todos os cidadãos andam mascarados. Uma sociedade da dissimulação não pode ser uma sociedade feliz e considerada como uma verdadeira comunidade. Isso é que é preocupante. Muito além da questão sanitária, o que está em jogo é a transformação da imagem do homem e da concepção da sociedade humana.

RFI Brasil - A epidemia vem consolidar a "digitalização" do homem?

PD: Concordo totalmente com você. Tudo está ligado à técnica da experiência. A epidemia participa de um vasto projeto técnico, de normalização da vida humana, no sentido de afastar tudo que pode ser um risco ou incalculável. Não é por acaso que essas medidas de distanciamento social são tomadas ao mesmo tempo em que há o debate sobre o uso da tecnologia de reconhecimento facial. Na China e na Europa, vamos instaurar sistemas que decompõem o rosto humano em dados. Trata-se de reduzir a presença humana a algo calculável, previsível e sem risco.

RFI Brasil - Na sua opinião, a epidemia poderia ter sido gerenciada de uma outra forma?

PD: Não sou político, então não posso dizer como as coisas deveriam ter sido feitas, mas como cidadão, e tentando exercer meu espírito crítico, posso dizer que o que foi feito não deveria ter sido feito. Por exemplo, durante o primeiro lockdown, dizer às pessoas que, se elas ficassem doentes, não deveriam ir ao médico. Essa, não foi uma medida razoável e provocou atrasos em diagnósticos e complicações de doenças. Mais uma vez, não sei o que poderia ter sido feito, mas sei o deveria não ter sido feito. Outro exemplo são as pessoas idosas, que estavam morrendo no hospital e não puderam receber visitas.

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