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RJ: Polícia removeu sem perícia mortos em operação, dizem moradores da Maré

22.abr.2021 - Rabecão da Defesa Civil remove corpos em operação na Maré - Arquivo pessoal
22.abr.2021 - Rabecão da Defesa Civil remove corpos em operação na Maré Imagem: Arquivo pessoal
do UOL

Igor Mello

Do UOL, no Rio

23/04/2021 04h00

Moradores do Complexo da Maré, conjunto de favelas da zona norte do Rio, denunciam que a Polícia Civil acionou um rabecão para remover os corpos de três mortos durante operação na manhã de ontem (22) sem contudo chamar a perícia ou preservar o local. A remoção foi confirmada pela Defesa Civil.

De acordo com relatos de moradores, colhidos pela ONG Redes da Maré, os três homens foram mortos na rua das Oliveiras, na comunidade Baixa do Sapateiro. Policiais civis acionaram um veículo da Defesa Civil para remover os corpos —os protocolos determinam que, em caso de homicídios, o local seja preservado para a realização de perícia.

Um morador fotografou o rabecão da Defesa Civil no local. Segundo Lidiane Malanquini, coordenadora do eixo de direito à segurança pública e acesso à Justiça da Redes da Maré, a população descreveu a ação em detalhes.

"Quando a gente chegou no local, os corpos já não estavam mais lá. E o relato dos moradores é que o rabecão chegou e tirou. Segundo eles, a própria Polícia Civil não acionou a perícia", afirma.

Em nota, a Polícia Civil afirmou que "três suspeitos atacaram os policiais a tiros e morreram em confronto".

Em casos de homicídios cometidos por policiais em serviço, o local deve ser isolado e a perícia técnica —também vinculada à Polícia Civil— precisa ser acionada para produzir um laudo de local. Contudo, policiais frequentemente desfazem a cena do crime para prejudicar investigações, geralmente sob a justificativa de prestação de socorro às vítimas.

A operação na Maré ocorreu nas comunidades da Baixa do Sapateiro, Morro do Timbau, Nova Maré e Conjunto Ribeiro Dantas —todas dominadas pelo TCP (Terceiro Comando Puro). Ela foi deflagrada pela Desarme (Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos), em conjunto com a Subsecretaria de Inteligência da Polícia Civil e a Core (Coordenadoria de Recursos Especiais).

Na ação, Rubens Ricardo da Silva, conhecido como Rubinho do Aço, foi preso. Apontado como traficante, ele é um dos fundadores do TCP e tentou furar um bloqueio policial usando documentos falsos, segundo a Polícia Civil. Foram apreendidos na ação um fuzil calibre 556, duas pistolas importadas e drogas.

Segundo levantamento da Redes da Maré, três unidades de saúde tiveram que ser fechadas por conta da ação policial, fazendo com que cerca de 200 pessoas deixassem de ser vacinadas contra a covid-19.

Denúncias de arrombamentos e carros danificados

Além da remoção dos corpos, moradores do Complexo da Maré denunciaram potenciais abusos durante a operação da Polícia Civil.

Nas redes sociais, há relatos de carros e motos danificados por caveirões que circulavam nas comunidades, além de denúncias de arrombamentos e invasões de casas nas quatro comunidades afetadas. Também houve denúncias sobre voos rasantes de helicópteros durante a operação.

Outro lado

Procurada pelo UOL, a Secretaria Estadual de Defesa Civil confirmou ter feito a remoção de três corpos no Complexo da Maré durante a operação. Segundo o órgão, eram três homens com idades em torno de 25 anos sem identificação.

A Polícia Civil foi questionada duas vezes por e-mail a respeito da remoção dos corpos, mas não respondeu. Em nota, afirmou que a ação teria respeitado as restrições para operações em favelas impostas pelo STF (Supremo Tribunal Federal) no âmbito da ADPF (Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental) 635, sobre violência policial no Rio.

"A Secretaria de Estado de Polícia Civil (Sepol) informa que todas as operações realizadas para localizar criminosos e apreender armas e drogas e eventuais produtos de crime são comunicadas aos órgãos cabíveis e pautadas por informações da área de inteligência e seguem a todas as determinações legais, priorizando sempre a preservação de vidas, tanto de policiais quanto da população", diz a corporação.

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