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Mutações do coronavírus levam cientistas a considerar "reforço" de vacinas

Preparação para aplicação de dose de vacina contra a covid-19 no Espírito Santo - Governo do Espírito Santo
Preparação para aplicação de dose de vacina contra a covid-19 no Espírito Santo Imagem: Governo do Espírito Santo
do UOL

Leonardo Martins

Do UOL, em São Paulo

17/04/2021 04h00

Cientistas responsáveis pelo desenvolvimento de vacinas contra covid-19 ao redor do mundo têm estudando a aplicação de uma "dose de reforço" nas pessoas que foram imunizadas contra a infecção pelo novo coronavírus.

O surgimento de novas variantes do Sars-Cov-2, processo de mutações que já era esperado pela comunidade científica, estimularam ainda mais o início das atualizações das vacinas já existentes para que protejam contra variantes que já estão se disseminando.

As pesquisas começaram a ser feitas ao menos pela Pfizer, Moderna e Instituto Butantan. Ainda não é possível afirmar qual deve ser o intervalo de tempo entre a segunda dose e a dose extra, mas, segundo especialistas, esse tempo será diferente para cada imunizante.

Isso porque a composição das vacinas são diferentes. No caso da CoronaVac, principal vacina utilizada no Brasil e fabricada pelo Butantan, o imunizante usa pedaços do vírus da covid-19 inativado para gerar anticorpos. A tecnologia permite que o corpo impeça ou dificulte a entrada do vírus nas células, sendo possível proteger contra a maioria das variantes da Sars-Cov-2.

Mas uma nova variante, identificada em Sorocaba, no interior de São Paulo, tem intrigado os cientistas. Semelhante à variante sul-africana, a mutação sorocabana se mostrou mais resistente à proteção da CoronaVac segundo um estudo feito por pesquisadores chineses.

Os estudos dessa e de outras novas variantes, inclusive, fizeram com que o Butantan adiasse a entrega dos documentos à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para ter autorização para iniciar os testes de fase 1 da vacina Butanvac, que será produzida em São Paulo. Os cientistas paulistas querem incluir todas as mutações no escopo de testes da nova vacina.

Embora não ainda não tenham uma conclusão fechada sobre a CoronaVac, pesquisadores do laboratório paulista dizem que o intervalo para a dose de reforço de vacinas semelhantes ao imunizante contra a covid-19 é de um a cinco anos.

Pfizer e Moderna

Já no caso dos laboratórios norte-americanos Pfizer e Moderna, a discussão sobre uma dose extra se dá com mais urgência. As vacinas das duas empresas usam diretamente DNA's, RNA's ou "clones" adaptados apenas da Sars-Cov-2 para provocar o sistema imune e produzir anticorpos. Nesse caso, a vacina deve ser atualizada com novas variantes à medida em que elas apareçam.

Pesquisadores da Moderna disseram estar estudando uma dose extra da vacina nesta semana durante um congresso coordenado pela Covax, aliança internacional de vacinas coordenada pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Em um novo estudo divulgado nesta semana, a taxa de eficácia geral da vacina da Moderna caiu de 94,1% (em dezembro) para 90% atualmente. A empresa não confirmou se a redução se dava pelo surgimento de novas variantes, mas lembrou que está desenvolvendo vacinas atualizadas.

Já a Pfizer, em nota publicada no site da empresa, disse que os participantes dos estudos da dose de reforço devem tomar a vacina de seis meses a um ano depois da imunização total.

"Discussões com autoridades regulatórias estão em andamento com relação a um estudo adicional que permite o registro usando uma vacina de mRNA com uma sequência variante; isso forneceria uma solução flexível para adaptar rapidamente a vacina para uso contra a linhagem B.1.351 ou outras novas cepas que possam surgir", concluiu.

Ao menos três variantes nascidas no Brasil preocupam as autoridades. São elas a P.1, identificada em Manaus e considerada mais transmissível e mais infecciosa, a P.2, identificada no Rio de Janeiro, e a descoberta em Sorocaba, no interior de São Paulo, que é uma variação de uma variante sul-africana e mais resistente à CoronaVac.

Para médicos, ainda é cedo para falar em dose extra

Especialistas ressaltam que ainda é muito cedo para falar na necessidade de uma dose extra das vacinas, mas dizem não seria uma surpresa caso isso fosse necessário. O epidemiologista e ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas, Pedro Hallal, afirma que a necessidade de uma dose de reforço deve valer para todas as vacinas contra a covid-19.

"Na ciência é constante a avaliação de novos modelos para aumentar a eficácia dos produtos existentes. Se os estudos mostrarem que uma dose extra pode aumentar a proteção, a tendência é que a maioria das vacinas adote protocolos clínicos utilizando essa estratégia", disse.

Na mesma linha, o presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Renato Kfouri, diz que há diversas opções de doses de reforço a serem estudadas.

"As doses de reforço vão depender de dois dados: se for identificada perda de proteção com as outras doses ou com o surgimento de novas variantes. Mas ainda é muito preliminar. Há outras saídas, como as adjuvantes [composto que dificulta a replicação do vírus nas células], as vacinas bivalentes, as trivalentes — todas com as variantes necessárias, como funciona na vacinação da gripe", concluiu.

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