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Análise: sem revisão de modelo, ódio e polarização continuarão a ser o filão das redes sociais

20/10/2020 14h53

As redes sociais estão no "banco dos acusados" depois do atentado terrorista contra o professor Samuel Paty, na França. Os diretores locais das empresas Facebook, Google, YouTube, Twitter, Tiktok e Snapchat foram convocados nesta terça-feira (20) pela ministra francesa para a Cidadania, Marlène Schiappa, para discutir um reforço na luta contra o ciberislamismo. Para muitos analistas, no entanto, a iniciativa tende ao fracasso se o modelo econômico das plataformas digitais não for revisto.

As redes sociais estão no "banco dos acusados" depois do atentado terrorista contra o professor Samuel Paty, na França. Os diretores locais das empresas Facebook, Google, YouTube, Twitter, Tiktok e Snapchat foram convocados nesta terça-feira (20) pela ministra francesa para a Cidadania, Marlène Schiappa, para discutir um reforço na luta contra o ciberislamismo. Para muitos analistas, no entanto, a iniciativa tende ao fracasso se o modelo econômico das plataformas digitais não for revisto.

Dominique Baillard, da RFI

Os vídeos que questionavam o professor, assassinado na sexta-feira (16) por ter mostrado caricaturas de Maomé durante uma aula sobre liberdade de expressão, circularam no Facebook e no WhatsApp. O autor do ataque tinha uma conta Twitter identificada pelo governo francês como radical. As relações entre as mensagens e o ato terrorista ainda não foram comprovadas, mas as redes sociais não conseguiram escapar de acusações.

Para analistas ouvidos pela RFI, pedir às plataformas para combater mensagens que propagam o ódio e a violência não passa de uma medida cosmética, que não questiona o modelo econômico desses meios digitais.

"As redes são feitas para captar nossa atenção e para isso a emoção é mais útil do que a inteligência", explica Thomas Huchon, jornalista especializado em internet e desinformação. "No modelo econômico do Facebook e de outras plataformas, é o mais forte que ganha, é o fascismo, não a democracia", afirma.

O mais forte, no caso, é o que atrai mais seguidores ou recebe mais curtidas. As redes não procuram deliberadamente incitar o ódio racial, nem desinformar ou distorcer o debate político, mas deixam proliferar, ou até potencializam os conteúdos que geram visitas e aumentam, dessa maneira, os investimentos publicitários.

O Facebook foi questionado por seu papel nas eleições de Donald Trump, em 2016, e de Jair Bolsonaro, em 2018. A rede social também é acusada de atiçar o ódio contra a minoria muçulmana rohingya em Mianmar.

Enquanto a lista de controvérsias aumenta a cada dia, Mark Zuckeberg resiste. Durante muito tempo, o criador do Facebook negou, depois reconheceu os fatos, mas continua a se recusar a publicar informações que demonstrem, por exemplo, de que maneira a rede transmitiu falsas informações postadas por partidários de Trump.

Isto o obrigaria a revelar o funcionamento dos algoritmos, misteriosas arquiteturas digitais que não são neutras, mas construídas por engenheiros seguindo instruções. A prioridade é dada aos conteúdos mais polarizadores, independentemente do impacto que causem.

Uma investigação do Wall Street Journal revelou, entre outras informações, que o Facebook teria colocado em segundo plano a revista Mother Jones, classificada à esquerda, porque não gerava visitas suficientes. Dessa maneira, a rede social tomou, por razões de rentabilidade, uma decisão que tem consequências para o debate político americano.  

Problemas jurídicos

Na França, a legislação vigente torna praticamente impossível atacar essas empresas estrangeiras. Nos Estados Unidos, a seção 230 do "Communications Decency Act", uma lei aprovada em 1996, estabelece as responsabilidades das redes sociais. As plataformas não são consideradas como editores de conteúdo, mas como simples divulgadores.  

O texto imaginado há 30 anos, antes mesmo do aparecimento das redes sociais, é muito contestado. Trump diz que deseja revogá-lo, enquanto seu adversário democrata Joe Biden promete reformá-lo. Na Europa, uma nova diretiva deve delimitar as atividades das redes, mas especialistas acreditam que o problema essencial é o da transparência dos algoritmos, que deveriam poder ser verificados.

Enquanto as reformas não chegam, as plataformas já dispõem de ferramentas bastante elaboradas para moderar os conteúdos. A questão é que elas não são utilizadas, segundo Maelle Gavet, representante nos Estados Unidos do organismo French Tech. Por falta de seriedade, covardia ou para preservar os lucros, nenhuma rede social publica dados completos sobre conteúdos litigiosos e sobre as ações realizadas para evitar problemas legais. Os esforços para sanear as redes sociais têm um custo para estas empresas: para modificar seu modelo econômico, elas teriam que diminuir os lucros com publicidade e as novas regras do jogo poderiam facilitar a chegada de novos concorrentes.

Por isso, contrariamente às declarações que fazem, as redes sociais não têm pressa de agir, mas a regulação do setor parece urgente e indispensável.

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