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Dezenas de milhares de pessoas se reúnem em manifestação pró-democracia na Tailândia

19/09/2020 21h32

Bangcoc, 20 Set 2020 (AFP) - Dezenas de milhares de jovens se reuniram perto do antigo Palácio Real em Bangkok neste sábado(19) para exigir mais democracia, a renúncia do primeiro-ministro e até mesmo uma reforma da monarquia, um assunto tabu na Tailândia.

A manifestação começou no campus da faculdade Thammasat, cenário em 1976 de um massacre no qual dezenas de estudantes pró-democracia foram mortos pelas forças de ordem, apoiadas por milícias ultramonárquicas.

Neste sábado, os manifestantes marcharam em direção à icônica Praça Sanam Luang, em frente ao famoso Grande Palácio, onde alguns devem passar a noite.

No domingo, uma nova caminhada está planejada no centro da capital.

Os jornalistas da AFP no local estimam que havia cerca de 30.000 pessoas, o que torna esta a maior manifestação desde o golpe de 2014 que levou o primeiro-ministro Prayut Chan O Cha, um ex-oficial militar legitimado posteriormente por eleições polêmicas, ao poder.

"É a maior manifestação desde o golpe de 2014", que levou ao poder o primeiro-ministro Prayut Chan O Cha, legitimado desde então por eleições polêmicas, disse à AFP Parit Chiwarak, uma das figuras do movimento.

"É uma virada na história do país", disse Patipat, um professor de 29 anos.

O advogado de direitos humanos Anon Numpa, outra das principais figuras do movimento, adotou uma linha mais firme sobre a reforma monárquica em um discurso inflamado na noite de sábado.

"Meus joelhos nunca vão se dobrar para a ditadura", gritou, reiterando os apelos dos manifestantes para que a família real fique fora da política do reino.

Seu discurso foi recebido com aplausos da multidão.

Os protestos, que tomam as ruas quase todos os dias desde o verão boreal, reúnem principalmente jovens, estudantes e trabalhadores.

Outros militantes pertencentes ao movimento dos camisas "vermelhas", apoiadores do ex-primeiro-ministro no exílio Thaksin Shinawatra, também aderiram ao movimento.

"A juventude deste país não vê futuro", disse Thaksin Shinawatra, derrubado em um golpe há 14 anos, em um comunicado neste sábado, sem endossar explicitamente os manifestantes.

No centro de suas demandas estão o fim do "assédio" aos adversários políticos, a dissolução do parlamento com a renúncia de Prayut Chan O Cha e a revisão da Constituição de 2017, elaborada na época da junta e considerada muito favorável ao Exército.

- Modernizar a monarquia -Parte dos manifestantes vai mais longe, ousando enfrentar a realeza. Algo nunca antes visto no país onde, apesar das sucessivas derrubadas de regimes (12 golpes desde 1932), a monarquia permaneceu até agora intocável, protegida por uma das mais severas leis de lesa-majestade do mundo.

"Não vamos parar até que tenhamos a reforma da monarquia", disse o ativista Panusaya Sithijirawattanakul, que insistiu que seu objetivo não é aboli-la - mas "adaptá-la à sociedade".

Cerca de 10.000 policiais uniformizados e à paisana patrulhavam a área enquanto a multidão aumentava.

Alguns manifestantes usavam coroas falsas, enquanto um grupo carregava um modelo de papelão de um submarino para simbolizar seu descontentamento com os gastos militares.

"As pessoas podem protestar, mas pacificamente e dentro da lei", disse o porta-voz do governo Anucha Burapachaisri.

Os manifestantes prometeram continuar os protestos durante a noite em Sanam Luang, onde Anon disse que colocaria uma réplica de uma pequena placa de bronze que comemora o fim do absolutismo real em 1932 ao amanhecer.

A original foi embutida no chão do Royal Plaza de Bangkok por décadas antes de desaparecer misteriosamente em 2017.

- Teste pró-democracia-Desde 1932, a Tailândia tem visto um ciclo de protestos violentos, com os militares intervindo em mais de uma dúzia de golpes - muitas vezes em nome da proteção da monarquia.

A recente onda de manifestações lideradas por estudantes tem sido em grande parte pacífica. Mas apelos sem precedentes para discussões francas sobre a família real pressionam o reino.

O rei Maha Vajiralongkorn controla o país com o apoio de clãs militares e bilionários e comanda uma fortuna estimada em até 60 bilhões de dólares.

As exigências dos estudantes incluem uma maior prestação de contas das finanças do palácio, a abolição das leis de lesa-majestade e que o rei fique fora da política.

Também querem uma reforma da constituição escrita por militares em 2017, que, segundo eles, inclinou a eleição do ano passado em favor de Prayut, e que o governo pare de "perseguir" oponentes políticos.

Até agora, as autoridades prenderam mais de duas dezenas de ativistas, incluindo Anon, acusando-os de sedição antes de libertá-los sob fiança.

As manifestações do fim de semana serão um teste para o movimento pró-democracia, dizem os analistas, que questionam se sua base de apoio aumentará além da juventude mobilizada em redes sociais.

A Universidade Thammasat tem tradição em ativismo estudantil.

Em 1976, estudantes que protestavam contra o retorno de um ditador militar foram baleados, espancados até a morte e linchados pelas forças do Estado e monarquistas.

Prayut prometeu que as autoridades usariam "medidas brandas" contra os manifestantes "porque são crianças".

Manifestantes se reuniram em Tóquio, Estocolmo e Taipei neste sábado em solidariedade aos jovens de Bangkok, com novos protestos planejados nos Estados Unidos e na França.

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