PUBLICIDADE
Topo

Notícias

Família contesta versão de que jovem morta por GCM estava em baile funk

Gabrielli Mendes da Silva, de 19 anos, cursava o primeiro ano da faculdade de enfermagem - Arquivo pessoal
Gabrielli Mendes da Silva, de 19 anos, cursava o primeiro ano da faculdade de enfermagem Imagem: Arquivo pessoal
do UOL

Simone Machado

Colaboração para o UOL, em São José do Rio Preto

05/08/2020 19h10

A família da jovem Gabrielli Mendes da Silva, de 19 anos, que morreu depois de ser atingida no peito por um tiro disparado por um guarda municipal, durante uma ação para dispersar a aglomeração em um suposto baile funk, em Rio Claro, interior de São Paulo, contesta a versão apresentada pela GCM (Guarda Civil Municipal). O caso aconteceu na madrugada de domingo (2).

Segundo a família, Gabrielli estava na casa da tia que mora no Jardim Panorama, a um quarteirão de onde o crime aconteceu. Acompanhada por alguns amigos, a jovem se deslocou até a esquina, para aguardar na rua por um carro chamado por aplicativo, quando a GCM teria chegado.

"Estávamos em alguns amigos e primos na calçada em frente à casa da tia da Gabi. Quando era umas 22 horas, vimos que a Guarda Municipal chegou por causa da aglomeração que tinha na rua, resolvemos ir embora e chamamos um Uber", contou Wesley Mendes de Souza, 18 anos. O jovem é primo de Gabrielli e estava com ela no momento do crime.

Wesley contesta a versão da GCM de que os jovens receberam os guardas a pedradas e que um baile funk era realizado no local.

"Alguns motoristas estavam passando com som alto no carro e tinha umas 30 pessoas na rua, mas a gente estava no outro quarteirão, não estávamos na aglomeração. A GCM já chegou com a arma apontada para a gente, não tinha motivo para isso", explicou Wesley.

A mãe da jovem também afirma que a filha estava na casa da tia e não participava de uma festa clandestina. "Ela tinha ido lá conversar e se distrair. Falei com ela era umas 21h30, ela estava na casa da tia e disse que logo voltaria para casa", relatou Amanda Mendes da Silva, em entrevista ao UOL.

Jovem morre atingida por tiro em festa clandestina em Rio Claro - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Segundo a família, Gabrielli estava na casa da tia, a um quarteirão de onde o crime aconteceu
Imagem: Reprodução/Facebook

Bala de borracha

Após ser atingida por um tiro no peito, Gabrielli foi socorrida e levada para o hospital. De acordo com a mãe da jovem, inicialmente eles foram informados de que se tratava de um tiro de bala de borracha.

"Quando chegamos ao hospital vimos que tinha muita movimentação de policiais, eram umas dez viaturas e achamos estranha aquela história. Só depois que meu marido insistiu para saber o que tinha acontecido, é que os guardas falaram que a Gabrielli tinha sido atingida por um tiro de uma arma calibre 12", disse Amanda.

Amigos vão à delegacia

Ontem, oito pessoas, entre amigos e primos de Gabrielli que estavam com a jovem no momento do crime, foram até a delegacia contar a versão deles sobre o ocorrido.

"A gente foi por contra própria, porque não aceitamos essa versão que estão contando. O que aconteceu não foi do jeito que os guardas estão falando. Nós fomos ouvidos, um de cada vez. Esperamos que a justiça seja feita", disse Wesley.

Ainda segundo a família de Gabrielli, um advogado foi contratado para acompanhar o caso. Eles querem provar que a morte da jovem não foi acidental.

"Eu não consigo nem mais ter sentimentos, faltam forças. Mas a justiça será feita", acrescenta a mãe da jovem.

Sede da GCM é alvo de pedradas

Na tarde de domingo (2), após o sepultamento de Gabrielli, moradores fizeram um protesto em frente à sede da Guarda Civil Municipal. Durante a ação, pedras foram atiradas e uma janela foi danificada. Ninguém foi detido.

Em contato com a reportagem do UOL, a Secretaria Municipal de Segurança de Rio Claro explicou que todos os detalhes da ocorrência estão sendo apurados em inquérito policial civil.

"O guarda civil municipal está passando por análise psicológica e ficará afastado dos serviços operacionais até que se concluam as apurações. A Corregedoria da Guarda Civil Municipal de Rio Claro está apurando a conduta de procedimento do GCM na ocorrência e, se for o caso, ele poderá ser até demitido da corporação independentemente da decisão judicial", explicou o órgão em nota.

A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP) também foi procurada e explicou que o caso é investigado pela DIG (Delegacia de Investigações Gerais) da cidade por meio de inquérito policial. "Todas as circunstâncias do crime são apuradas pela unidade. A equipe de investigação realiza diligências e testemunhas estão sendo ouvidas, incluindo familiares da vítima", disse o órgão em nota.

Gabrielli era exemplo na faculdade

Amanda afirma que a filha era uma menina exemplar. Gabrielli trabalhava como auxiliar administrativa em uma empresa multinacional e cursava o primeiro ano da faculdade de enfermagem. A jovem havia se destacado no primeiro semestre e foi homenageada pelos professores ontem, na retomada das aulas.

"Ela trabalhava e pagava a faculdade. Era uma menina que não me dava trabalho com nada. Ainda ontem os professores me falaram que a Gabrielli era a aluna com as melhores notas. Ela era uma menina muito sorridente, que todos gostavam muito", disse Amanda.

O crime que vitimou Gabrielli

Gabrielli morreu depois de ser atingida no peito por um tiro disparado por um guarda municipal, durante uma suposta ação para dispersar a aglomeração em um baile funk, em Rio Claro. Um homem de 29 anos também foi atingido e passa bem.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP), equipes da Guarda Civil Municipal (GCM) foram até o Jardim Panorama verificar uma denúncia de festa clandestina com aglomeração de pessoas. Ao tentar dispersar a multidão, os agentes teriam sido ameaçados por pessoas que participavam do evento.

Ainda segundo a SSP, ao tentar carregar a arma, o GCM de 51 anos efetuou um disparo acidental. Segundo testemunhas, o tiro atingiu Gabrielli na altura do peito.

"O GCM, de 51 anos, tentou carregar seu armamento com munições de borracha, porém disparou acidentalmente e atingiu uma mulher, de 19 anos, que foi socorrida à Santa Casa do município, onde morreu. Um outro homem, de 29 anos, também foi atingido. O GCM envolvido nos fatos foi preso em flagrante e teve sua arma apreendida", explicou a SSP em nota.

Notícias