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Só Brasil e México reabrem com alta de óbitos entre os dez mais atingidos

4.jun.2020 - Trabalhadores fazem fila para entrar em fábrica em Chihuahua, no México - David Peinado/Xinhua
4.jun.2020 - Trabalhadores fazem fila para entrar em fábrica em Chihuahua, no México Imagem: David Peinado/Xinhua
do UOL

Rodrigo Mattos

Do UOL, no Rio

06/06/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Entre os 10 países com mais óbitos, só Brasil e México reabrem com alta de mortes
  • Assim como Bolsonaro, presidente do México minimizou gravidade do coronavírus
  • SP, RJ, CE e PA flexibilizam isolamento sem queda em mortes; só AM teve redução
  • Países europeus e EUA só relaxaram restrições após 3 semanas de redução de mortes
  • Fiocruz lista metas para reabertura, como redução do contágio e de mortes por 3 semanas

O Brasil começou a reabertura após isolamento social pelo coronavírus enquanto ainda há ascensão do número de mortes na maioria dos estados mais afetados. É uma lógica contrária ao que ocorreu em outros países que já relaxaram suas restrições. Dos dez países mais atingidos pela covid-19, sete deles só reabriram quando houve queda constante de mortes —somente o México afrouxou as restrições com óbitos em alta.

Nesta semana, Amazonas, Ceará, Pará, Rio de Janeiro e São Paulo iniciaram medidas de reabertura da economia em diferentes níveis e regiões. Eles estão entre os estados com mais mortes e casos de coronavírus no país. Dos cinco, apenas o Amazonas começou a relaxar o isolamento com óbitos em queda nas últimas semanas. As estatísticas nacionais também não mostram redução das mortes.

Não foi a realidade vista no mundo, segundo levantamento feito pelo UOL. Dos dez países com mais óbitos no mundo, Estados Unidos, Reino Unido, França, Espanha, Itália, Bélgica e Alemanha reabriram setores da economia quando já acumulavam três semanas seguidas de quedas em mortes. O Irã afrouxou o isolamento quando havia oscilação para baixo e para cima nos óbitos.

"A Europa só pensou em relaxamento depois de um mês de pico", afirmou o sanitarista da Fiocruz Christovam Barcellos.

Já o México, assim como o Brasil, reduziu as restrições sociais nesta semana quando ainda há crescimento constante de mortes. Os óbitos semanais ficaram em 2.536 na última semana, contra 1.712 no meio de maio.

O presidente mexicano, Andrés Manuel Lopez Obrador, assim como Jair Bolsonaro (sem partido), minimizou a gravidade do coronavírus no início da epidemia. Chegou a recuar e decretar o lockdown. Mas reabre a economia também com ascensão de mortes no país. A América Latina é considerada atualmente o epicentro da epidemia pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Na Europa e nos EUA, houve mais cautela. Todos os países europeus com mais mortes, que reabriram em datas diversas de maio, tinham verificado quedas nas mortes. Espanha e França, por exemplo, tiveram o número de óbitos reduzidos pela metade nas três semanas anteriores ao fim do distanciamento social.

Os EUA têm um quadro mais complexo, dividido por estados como o Brasil. As medidas de relaxamento às restrições foram diferentes nas 50 unidades da federação e ocorreram no período de final de abril a maio. Estados mais atingidos como Nova York ou cautelosos como a Califórnia seguem com uma reabertura ainda lenta e local.

Sexto país com maior número de infectados, a Índia adotou estratégia similar ao Brasil. Resolveu reabrir setores da economia no final de maio apesar de acumular três semanas de alta de mortes. A medida foi tomada por pressão sobre o governo pelos efeitos econômicos do lockdown e foi criticada por cientistas.

A evolução da covid nos estados em reabertura

Fora o Amazonas, o Rio e São Paulo continuam a ter crescimento de mortes nas últimas três semanas. O número de óbitos no estado fluminense foi de 1.357 na semana anterior ao começo da reabertura, contra 1.082 no período anterior. Em São Paulo, o total de mortes atingiu 1.447 na última semana contra 1.397 no intervalo anterior.

Ceará e Pará tiveram oscilações para cima e para baixo sem caracterizar queda constate. O estado nordestino teve 645 óbitos na última semana antes da reabertura, 745 no período anterior, e 559 anteriormente —trajetória similar a do Pará, que chegou a um pico de 1.053 mortes há duas semanas.

Nos números do Brasil inteiro, a última semana antes das reaberturas teve 6.464 mortes, a anterior, 6.681, e a outra 5.273. Pior, a partir de terça-feira (2), o país registrou três dias seguidos de recorde de mortes diárias. Ou seja, não há tendência de queda dos óbitos no país.

Os critérios da Fiocruz para reabertura

Ao tratar da reabertura do Rio, a Fiocruz elaborou um documento em que lista indicadores que deveriam ser atingidos para se relaxar o isolamento social. São itens como taxa de contágio, número de internações, leitos disponíveis, aumentos de casos e número de mortes. A evolução dos óbitos é o indicador que pode ser medido com mais confiabilidade e comparado com o padrão adotado no mundo.

Baseada em parâmetros de outros países e normas da OMS, a Fiocruz criou uma espécie de guia com parâmetros para reabertura. No entanto, uma parte dos critérios é de difícil aplicação no Brasil pela falta de confiabilidade dos dados.

"O que está acontecendo é a omissão do Ministério da Saúde. Poderia ter esse papel. Não está disponibilizando todos esses dados. Cada um está criando um painel. Cada um tem critério diferente. Há pouco tempo, o município do Rio decidiu mudar o critério de óbitos por covid", lembrou Christovam Barcellos, que trabalhou na elaboração do documento.

Veja a seguir os índices avaliados pela Fiocruz:

  • Houve queda da taxa de propagação da doença?

Esse índice busca medir qual o índice de reprodução da doença em uma determinada localidade. O ideal é que o número seja abaixo de 1, o que significa que uma pessoa, em média, infecta menos de uma pessoa. Assim, a epidemia estaria controlada no país ou estado.

"Esse é um dado importante que mostra que existe um arrefecimento da epidemia. É um cálculo complicado. Não é só baseado em casos novos. São casos que surgiram: teve hospitalização? Foram assintomáticos? Esse cálculo é muito perigoso no Brasil [pela falta de dados]. Teria de obter evidências claras de que houve diminuição."

Entre os dados que são possíveis obter com certeza que indicam a taxa de reprodução, está a evolução do número de mortes. O documento indica a necessidade de queda por três semanas.

Além disso, aponta que deveria haver diminuição no número internações em hospitais por duas semanas.

  • Sistema de saúde tem capacidade de atender?

Esse índice avalia se o número de casos que exigem internação é menor do que o de leitos disponíveis, principalmente UTIs. No Rio, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) se baseou nesse número para instituir a reabertura de setores. Mas a ocupação de leitos no estado continua acima de 80%.

"O índice avalia a pressão sobre o sistema de saúde, mas também os leitos que estão disponíveis, o grau de saturação de UTI principalmente e a fila. O importante é saber se existe uma fila de internação. Podem ter pessoas deixando de serem atendidas", completou Barcellos.

  • Sistema de vigilância é capaz de identificar novos casos?

Esse índice avalia a capacidade de o estado ou país identificar em 24 horas novos casos. Para isso, tem de haver um sistema de testagem em massa, e o número de exames aplicados tem que ser conhecido para se verificar a eficiência do sistema.

Depois de identificado o caso, há itens citados pela Fiocruz para monitoramento posterior. Ou seja, identificar pessoas que tiveram contatos com uma pessoa infectada e verificar se contaminados cumprem a quarentena. Essas foram medidas adotadas pela Alemanha e Coreia do Sul para controlar a epidemia.

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