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Em feira popular do NE, eles aprenderam na marra a vender roupa online

Comerciantes da Feira da Sulanca, em Caruaru, entregam pedidos da feira virtual - Arnaldo Félix/Prefeitura de Caruaru
Comerciantes da Feira da Sulanca, em Caruaru, entregam pedidos da feira virtual Imagem: Arnaldo Félix/Prefeitura de Caruaru
do UOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

06/06/2020 04h00

Diz a canção imortalizada por Luiz Gonzaga que "de tudo que há no mundo, nela tem pra vender." A música se refere à tradicional feira de Caruaru, no Agreste de Pernambuco, que tem mais de 200 anos de história e, pela primeira vez, está suspensa há mais de dois meses por conta da pandemia de coronavírus. O jeito de sobreviver e evitar a quebradeira geral foi fazer vendas online. O problema é que a maioria dos feirantes não fazia ideia de como realizar isso. Muitos não tinham nem redes sociais e tiveram de aprender na marra.

O local é uma mistura de shopping ao céu aberto e feira-livre. Reúne diferentes feiras, cada uma especializada num tipo de artigo. Tem roupas, calçados, artesanato (barro, couro, bordados), bijuterias, eletrônicos, gastronomia (sarapatel, buchada, carne de sol), frutas e verduras, ferragens, cama, mesa e banho, entre muitos outros itens.

Inexperiência digital

O setor de roupas é chamado de Feira da Sulanca. Sem ter como vender a produção de roupas na região, feirantes começaram a buscar algo inédito para a maioria: usar ferramentas tecnológicas para fazer e-commerce. Para isso, eles tiveram de vencer o desconhecimento e a inexperiência com o mundo digital, e aos poucos comemoram bons resultados da recém-criada "Sulanca Delivery".

Na Sulanca de Caruaru, o carro-chefe são as roupas produzidas no polo de confecções do Agreste (que inclui Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe) e vendidas para lojistas de todo o país que visitavam o local.

R$ 20 milhões faturados em um mês

Somente em maio, a versão virtual da feira faturou R$ 20 milhões com as vendas.

Antes da pandemia, a feira ocorria uma vez por semana e levava de 30 mil a 40 mil pessoas por edição. "Nessa época de São João e no fim de ano, esse número chega a 60 mil, 70 mil pessoas", afirma Pedro Moura, presidente da Associação de Sulanqueiros de Caruaru.

Segundo a associação, cada feira tem um faturamento médio de R$ 30 milhões, chegando a mais de R$ 50 milhões nas feiras especiais.

Perto do que movimentava, o valor ainda é baixo, mas graças à modalidade os sulanqueiros estão conseguindo vender suas peças e garantir seu sustento.
Pedro Moura

Não tinham nem redes sociais

Pedro Moura conta que os feirantes precisaram mergulhar em um mundo novo para se adaptar à pandemia. "As pessoas estão vendendo via redes sociais, pelo Whatsapp. É uma novidade para quase todos, mas eles estão conseguindo", diz.

Mas isso não ocorreu do dia para noite. O primeiro desafio para retornarem as vendas foi ingressar no mundo virtual —a maioria dos feirantes e suas marcas nem sequer mantinham redes sociais.

O feirante Alessandro de Vasconcelos disse que chegou a entrar em desespero nos dois meses rm que não vendeu nada. "Quando começou essa onda [do coronavírus], a gente não vendeu nada. O que vendeu na última feira foi com o que a gente conseguiu comer nesse tempo. Não tinha venda de jeito nenhum", afirma.

Foi então que Vasconcelos decidiu fazer um Instagram para sua marca, a Kattixo Jeans.

Nunca tinha vendido nada pelo Instagram. Criamos e começaram umas vendas, mas muito tímidas, coisas aqui em Caruaru mesmo: era uma menina que queria um short, a a gente ia levar. Aí então começamos a divulgar, comecei a distribuir meu cartão, e o pessoal começou a pedir. E bateu junto com a ideia da prefeitura de colocar a gente no polo, que ficou muito bom. É graças a isso que a gente está conseguindo escapar.
Alessandro de Vasconcelos

Vendas não chegam a 20% do que eram

Apesar de conseguir sobreviver, ele ressalta que as vendas estão em quantidade muito menor que em época de feira tradicional.

Não chega a 20% do que a gente vendia. Antigamente um cliente pedia 200 peças, a gente preparava do 36 ao 44, em pacotes de 10. Hoje ele está pedindo um pacote sortido de 10, 20 peças. Veja a diferença", explica.
Alessandro de Vasconcelos

Com 15 anos de feira da Sulanca, Aldo José também lembra que nas duas primeiras semanas de feira suspensa ficou sem vender nada. Ele é o proprietário da Delta Surf Wear, que produz camisas masculinas com personagens e macacões e vestidos femininos.

Antes da covid-19, apenas 10% de seus negócios eram fechados por Whatsapp —e todos com clientes que ele já havia fidelizado.

Vendemos para todo o Brasil, e aí veio aquela parada total. De repente tive a ideia de montar grupos de Whatsapp de fornecedores e compradores. Tivemos alguns percalços, mas é tudo fácil. Basta persistir.
Aldo José

Vendas boas, mas com lucro menor

Segundo ele, as vendas do momento "estão superando o esperado".

Não pensava em vender tanto pelo momento que vivemos", diz, citando que, por semana, está entregando em média 70 pedidos. "São vendas de atacado, o que gera um volume bom. Só atendemos acima de 20 peças.
Aldo José

Para quem é vendedor, diz José, a negociação online tem diferenças.

Para vender no Whatsapp e fidelizar, a gente já dá o preço do atacado, que é mais barato que a feira, não tem isso de brigar preço com cliente. Você tem de botar o mais barato que você pode. O lucro da gente caiu em torno de 30%.
Aldo José

Plataforma digital

Para ajudar os feirantes, a Prefeitura de Caruaru criou uma plataforma digital que cadastra comerciantes e vendedores. Para garantir a segurança do negócio e da entrega, foi alugado um estacionamento de um centro comercial para receber os ônibus que passaram a ir a Caruaru apenas com motoristas e ajudantes para buscar as mercadorias vendidas de forma digital. Foi aí que nasceu a "Sulanca Delivery."

feira de caruaru - Arnaldo Félix/Prefeitura de Caruaru - Arnaldo Félix/Prefeitura de Caruaru
Ônibus chegam a Caruaru só com motorista e ajudantes para buscar mercadorias
Imagem: Arnaldo Félix/Prefeitura de Caruaru

E o negócio está dando certo. O faturamento praticamente dobrou em quatro edições da feira. A expectativa é que neste mês ainda mais feirantes e compradores se cadastrem e façam negócios.

A Sulanca é o pulmão da nossa economia. Devido ao fechamento dela, pensamos em algumas estratégias que pudessem manter a economia girando de alguma maneira, e uma delas tinha a iniciativa de fomentar as vendas online com o público da feira. Daí surgiu a ideia do Delivery Sulanca, que é uma plataforma digital específica para esse fim.
Anderson Oliveira, gerente operacional da Unidade de Gestão de Feiras e Mercados da Prefeitura de Caruaru

Em meio à pandemia, os sulanqueiros já sabem que a feira nunca mais voltará a ser a mesma após essa incursão no e-commerce.

Vão existir duas feiras: a online e a presencial. Quem começou a vender, não vai parar mais. É um caminho sem volta.
Pedro Moura

Imagem aérea mostra como era a Sulanca de Caruaru antes do coronavírus - Rafael Lima/Acic Caruaru - Rafael Lima/Acic Caruaru
Imagem aérea mostra como era a Sulanca de Caruaru antes do coronavírus
Imagem: Rafael Lima/Acic Caruaru

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