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'Moro e Bolsonaro: vejo uma coisa só', diz mulher do ministro

Presidente Jair Bolsonaro e ministro da Justiça, Sergio Moro, em Brasília - Adriano Machado/Reuters
Presidente Jair Bolsonaro e ministro da Justiça, Sergio Moro, em Brasília Imagem: Adriano Machado/Reuters

Rafael Moraes Moura

Em Brasília

16/02/2020 17h00Atualizada em 16/02/2020 21h08

Em 2016, no auge da Operação Lava Jato, a advogada Rosângela Wolff Moro criou uma página no Facebook chamada "Eu moro com ele". O objetivo era reunir as homenagens feitas às investigações e, especialmente, os elogios direcionados ao seu marido, o então juiz federal Sergio Moro, que cuidava dos casos em Curitiba.

A página acabou desativada com a proximidade das eleições de 2018, mas o casal continua com forte presença nas redes sociais. No mês passado, após a mulher "pegar no pé", Moro abriu uma conta no Instagram, onde já é seguido por 1,1 milhão de pessoas.

Rosângela tem 305 mil seguidores no seu perfil. Lá, publica fotos de viagens e registros de encontros com o marido, e tece comentários sobre questões que abalaram o Judiciário, como a criação do juiz de garantias e o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) que derrubou a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância.

Também já simulou estar atrás das grades, espaço para onde foram despachados investigados por decisões de Moro. "Sensação de estar presa é estarrecedora. Não façamos nada de errado. Basta seguir o conselho de nossos pais", escreveu Rosângela.

Especializada em Direito Tributário, a advogada rejeita o rótulo de "digital influencer", mas abraça a alcunha de "fã número 1" do marido. Ela recebeu a reportagem na última quarta-feira para uma rara conversa em Brasília, no escritório da Federação Nacional das Apaes, entidade voltada para ajuda às pessoas com deficiência intelectual, uma de suas bandeiras pessoais.

O casal Sergio e Rosângela Moro -
O casal Sergio e Rosângela Moro

Diante do clima de radicalização política no país, Rosângela acha que não dá para levar tudo "a ferro e fogo" na internet.

Tem pessoas (nas redes sociais) que respondem com vocabulário mais pesado, num tom mais de 'vamos comprar uma briga', mas não é o meu objetivo perder energia nisso.
Rosângela Wolff Moro

Elogios ao governo

Católica, ela carrega na carteira um medalhão com a imagem de duas santas: Terezinha das Rosas e Rita de Cássia. Tenta se manter alheia às guerras políticas de Brasília, marcada na última semana por mudanças no ministério de Bolsonaro e pelo avanço militar na equipe.

Sobre o governo, Rosângela é só elogios, inclusive à campanha da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, que traz a abstinência sexual como uma das formas de evitar a gravidez precoce.

"A gravidez precoce é um problema, traz consequências, faz com que a jovem perca parte da sua vida. Tudo tem a sua fase", afirmou a advogada, mãe de dois filhos. Sobre Bolsonaro, avalia que, ao contrário dos antecessores, o presidente não fez loteamento político dos cargos e evitou o "toma lá, dá cá".

No mês passado, o presidente deu sinais de que esvaziaria o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Ameaçou retirar funções de Moro, mas não foi adiante. A investida ocorreu justamente no momento em que a popularidade de Moro ultrapassa a dele. O ex-juiz federal de Curitiba é cotado como eventual candidato ao Palácio do Planalto, em 2022.

Rosângela, no entanto, garante que Moro e o chefe formam um time.

O ministro até brincou esses dias: 'Ah, vou tatuar na testa que não vou ser o presidente'. O ministro é da equipe do presidente Jair Bolsonaro, dá total apoio para o presidente, inclusive no futuro aí, na reeleição.
Rosângela Wolff Moro

Ela opta pela diplomacia quando a reportagem lhe indaga como se define. Bolsonarista ou morista?

Sou pró-governo federal. Eu não vejo o Bolsonaro, o Sérgio Moro. Eu vejo o Sérgio Moro no governo do presidente Jair Bolsonaro, eu vejo uma coisa só.
Rosângela Moro

Derrotas do marido

Para a advogada, a derrubada da execução antecipada de pena, que abriu caminho para a soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a criação do juiz de garantias —medida prevista na lei anticrime, que acabou suspensa por decisão do STF— não representaram uma derrota de Moro, mas, sim, da sociedade.

"Conhecendo a história do Judiciário, a exigência de dois juízes pode ser uma grande dificuldade, na medida em que há comarcas que não têm nenhum", afirmou Rosângela.

Quando o ministro Luiz Fux, do STF, suspendeu o dispositivo, ela escreveu no Instagram: "We trust (nós confiamos) em Fux." O comentário fez alusão à mensagem vazada "In Fux we trust", que Moro enviou ao coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, conforme revelado pelo site The Intercept Brasil.

Rotina de 'gerente de banco'

Rosângela compara a atuação do marido ao trabalho de um gerente de banco que sai todo dia cedo, pela manhã, para trabalhar.

Eu não interfiro. Minha função é trazer leveza ao nosso relacionamento, na relação com os nossos filhos.
Rosângela Moro

O "gerente", aliás, está cotado para uma vaga no STF, que vai ser aberta em novembro, com a aposentadoria do ministro Celso de Mello. Alguma expectativa? "Melhor ele concluir o trabalho dele como ministro da Justiça. As pessoas estão felizes, os números de violência estão diminuindo. O presidente vai decidir na hora certa o que pretende para o país", desconversou.

Liberal na economia, conservadora nos costumes

A mulher de Moro se define como liberal na economia —defende interferência mínima do Estado— e conservadora nos costumes. É contra o aborto.

Sou absolutamente a favor da vida. Sou contra o aborto. Agora, eu acho que você penalizar, criminalizar, talvez não seja a saída, porque as mulheres pobres, que se submetem a condições desumanas, acabam sendo criminalizadas.
Rosângela Moro

Na avaliação de Rosângela, que gosta quando o marido abre a porta do carro para ela, pois vê nessa atitude um gesto de gentileza, o verdadeiro feminismo consiste em dar o direito de escolha para cada mulher ser quem quiser.

"Quem quiser trabalhar só em casa, que seja feliz. Não dá para ter radicalismo nisso", resumiu a advogada. Nas horas livres, acompanha documentários e seriados. Abandonou, porém, "O Mecanismo", que retrata os bastidores da Lava Jato. "Perderam a oportunidade de contar uma história incrível."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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