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Histórica maré humana transborda Hong Kong em defesa das suas liberdades

2019-06-16T16:59:00

16/06/2019 16h59

Javier García.

Hong Kong, 16 jun (EFE).- Uma impressionante maré humana de mais de um milhão de pessoas transbordou neste domingo as principais avenidas do centro de Hong Kong em defesa do marco de liberdade da ex-colônia britânica, cada vez mais ameaçada pela crescente influência da China continental.

Poucos na cidade poderão lembrar uma manifestação como a de hoje na qual, segundo passavam as horas, milhares e milhares de cidadãos de todas as classes continuaram se somando às centenas de milhares que tinham começado a marchar na primeira hora da tarde.

Ninguém parecia querer perder o protesto: jovens, adultos, idosos, famílias com crianças pequenas e bebês, incapacitados em cadeiras de rodas, professores, estudantes, trabalhadores, todos iam desembocando como uma correnteza nas principais avenidas do centro de Hong Kong.

A imensa maioria deles vestidos de preto, em sinal de luto pela perda de liberdades que, segundo sua opinião, está ameaçando a região nos últimos anos e que terminou por concretizar-se no projeto de lei de extradição impulsionada pela chefe do governo local, Carrie Lam.

"Fora Lam, não à lei de extradição à China", gritavam em cantonês os manifestantes que desfraldavam também cartazes como "Hong Kong Livre" e "Não à brutalidade policial", enquanto caminhavam pacificamente entre os grandes arranha-céus da ilha que abriga o centro da região administrativa.

"Se essa lei for aprovada, o modelo de 'um país, dois sistemas' que a China se comprometeu a respeitar pelo menos até a transferência final da soberania no ano 2047, seria destruído", disse à Agência Efe Monique Mok, uma estudante de literatura de 22 anos que vestia uma camiseta preta com o lema: "Queremos conservar nossa democracia".

Ao final da manifestação à meia-noite, dez horas depois do seu início, os organizadores da Frente Civil de Direitos Humanos cifravam a participação em "quase dois milhões de pessoas", o que equivaleria a 30% dos habitantes da região e o dobro da estimativa no domingo anterior.

Por sua parte, a polícia local falou em 338.000 participantes, embora tenha reconhecido que não contabilizou as pessoas nas ruas adjacentes, apenas as do percurso original.

Em qualquer caso, se tratou da maior manifestação registrada em Hong Kong em décadas, pelo menos desde a transferência à China da soberania britânica em 1997.

Um protesto que desta vez o governo local não podia dissolver com policiais como fez na quarta-feira passada, algo que atiçou ainda mais os ânimos da população como ficou patente hoje.

Muita gente, especialmente os mais velhos, assegurava ter comparecido à manifestação pela indignação que lhe causaram as imagens das ações policiais da quarta-feira, poucas vezes vistas na cidade.

"Não queremos ver uma Praça da Paz Celestial em Hong Kong", comentou à Efe o professor universitário aposentado Dan Yiu enquanto tentava a duras penas fazer passar o carrinho da sua neta entre a multidão.

"Se a China tem que tomar o controle total do nosso território dentro de 28 anos, queremos que pelo menos o faça mais devagar, não a esta velocidade", clamava Yiu.

Seis horas depois do início da manifestação e diante da sua gigantesca amplitude, Lam emitiu um comunicado no qual pediu desculpas aos habitantes de Hong Kong e prometeu "sincera e humildemente aceitar todas as críticas", embora não tenha falado em nenhum momento de sua renúncia.

"A chefe do Executivo reconhece que as deficiências no trabalho do governo criaram controvérsias substanciais e disputas na sociedade, decepcionando e entristecendo muita gente", se limitou a assinalar a nota.

A renúncia de Lam era um dos pedidos mais escutados entre os manifestantes, que a acusam de ter atiçado a sociedade de Hong Kong ao impulsionar a lei de extradição e não ter sabido tramitar a situação criada.

Caso não apresente sua renúncia, só a retirada total do controverso projeto pode ser capaz de acalmar os ânimos dos manifestantes, que também exigem a libertação dos detidos e que se deixem de definir os protestos como "distúrbios".

Enquanto isso, o novo capítulo da crise está marcado para amanhã, segunda-feira, quando os moradores de Hong Kong estão convocados para uma greve geral. EFE

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