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Com a pesquisa em crise no Brasil, vale apostar em carreiras acadêmicas?

Crise da ciência contribui para a marginalização da pesquisa brasileira no cenário internacional - iStock
Crise da ciência contribui para a marginalização da pesquisa brasileira no cenário internacional Imagem: iStock
do UOL

Jéssica Maes

Colaboração para o UOL

22/01/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Desde 2015, R$ 38 bilhões foram cortados do setor de pesquisa acadêmica, segundo o Observatório do Conhecimento
  • Dificuldades encontradas por pesquisadores vão de falta de fomento a publicar em periódicos e participar de conferências
  • Nesse cenário, faltam estímulos para que crianças e adolescentes enxerguem a ciência como uma opção de carreira a ser seguida

O cenário das carreiras acadêmicas no Brasil vem se deteriorando há alguns anos. Desde 2015, R$ 38 bilhões foram cortados do "setor do conhecimento", somando as perdas acumuladas ano a ano e corrigidas pela inflação. O dado é do Observatório do Conhecimento, grupo composto por associações de docentes das universidades do país.

Considerando estes números, a carreira acadêmica no Brasil ainda é uma boa aposta? Como está o clima e a conjuntura da pesquisa científica no país?

Em 2019, de acordo com o levantamento, o orçamento para produção de conhecimento representou apenas 52% do que estava disponível em 2014 - R$ 15 bilhões a menos. Foram levados em consideração valores empenhados destinados a Instituições Federais de Ensino Superior (IFEs), à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes); e ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

A Capes é vinculada ao Ministério da Educação (MEC) e é responsável por uma parcela das bolsas recebidas por estudantes de graduação e pós-graduação no país. Já o MCTIC abriga o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que arca com custos de manutenção de laboratórios e compra de insumos para pesquisa e com outras dezenas de milhares de bolsas para pesquisadores.

"Os pesquisadores estão tendo dificuldades na manutenção dos laboratórios, aquisição de equipamentos e insumos e isso tudo prejudica a atividade do cientista", conta a vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Fernanda Sobral.

Ela acrescenta que, de maneira geral, faltam estímulos para que crianças e adolescentes enxerguem a ciência como uma opção de carreira a ser seguida. "Desde o ensino básico, nem sempre é mostrado que a ciência é uma coisa possível. Muitos acham que é difícil ou ficam com a ideia do cientista louco dos desenhos. A ciência se faz por meio de curiosidade", diz.

Para os que já descobriram essa curiosidade, ela acredita que a dificuldade para conseguir recursos, sobreviver sendo cientista e se dedicar à pesquisa é desencorajadora. "O jovem que está querendo fazer da ciência a sua profissão fica desestimulado vendo os cortes orçamentários - quando não são cortes, são bloqueios de verbas", afirma.

O desestímulo à carreira científica e a fuga de cérebros (pesquisadores que se mudam para desenvolver suas pesquisas no exterior) são, no entanto, apenas parte do problema. "A grande questão é que isso contribui fortemente para a marginalização da pesquisa brasileira no cenário internacional", afirma Antonio da Nóbrega, reitor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro da diretoria da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

Ele explica que, à medida que a ciência brasileira perde força diante do resto do mundo, diminui também a capacidade de nossos pesquisadores de atrair recursos, publicar em periódicos e participar de conferências. "O dano de reputação é inestimável. Já estamos vendo uma queda no fluxo inverso, no sentido da procura de estudantes estrangeiros pelas vagas de intercâmbio no Brasil. Isso é muito delicado", afirma.

"Prazeroso, mas arriscado"

O cenário atual da ciência no país também é diretamente atingido pelas polêmicas a respeito de universidades, já que mais de 80% dos pesquisadores brasileiros atuam em instituições de ensino superior, segundo indicadores do MCTIC. Em dezembro, foi publicado o relatório Free to Think, que denuncia perseguições a acadêmicos e universidades no mundo, com destaque inédito para o Brasil, que foi capa. O documento destaca um "aumento nas pressões de motivação política nas universidades brasileiras" e "legislações que ameaçam as atividades e os principais valores das universidades".

Para Nóbrega, há uma sensação de incerteza, insegurança e desamparo para quem segue a carreira acadêmica no Brasil hoje. "Como nossos pesquisadores podem investir um tempo considerável de suas vidas pensando nas grandes questões e no desenvolvimento de tecnologias se não sabem se terão dinheiro para pagar o aluguel e para se alimentar no curto prazo?", questiona, destacando, ainda, a preocupação com o clima anti-intelectualismo e deslegitimação do conhecimento científico que existe atualmente.

A Capes anunciou que o pagamento das bolsas de pesquisa ativas está garantido para 2020, e mais 1,8 mil bolsas estão previstas. No CNPq, o rombo que ameaçou o pagamento de bolsas ativas deve ser coberto em 2020, sem previsão de novas bolsas. Já o financiamento de projetos de pesquisa sofreu um corte de 83% no orçamento deste ano, com relação a 2019.

Nóbrega destaca a importância de mobilizações para conseguir verbas por outros canais que não o orçamento do governo federal e de iniciativas de divulgação científica para espalhar informação sobre o tema. "A carreira acadêmica é um projeto coletivo de transformação da realidade social", ressalta."O país só voltará a mostrar índices de crescimento e autonomia sustentáveis com investimento robusto em ciência e tecnologia. A carreira acadêmica é parte central desse processo e força-motriz da pesquisa nacional".

Para Sobral, a curiosidade científica e a satisfação das descobertas fazem com que a carreira na academia ainda seja uma opção gratificante. "É um trabalho prazeroso, mas arriscado.

É aí que está o futuro do país. Nós temos um sistema nacional de ciência e tecnologia consolidado porque temos instituições de pesquisa e agências de fomento (como CNPq, Capes e Finep) consolidadas. O risco é que isso venha a ser rompido."

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