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Apicultores gaúchos temem desaparecimento de abelhas com aumento da liberação de pesticidas

Rio Grande do Sul perdeu cerca de 360 milhões de abelhas desde o fim do ano passado - IStock
Rio Grande do Sul perdeu cerca de 360 milhões de abelhas desde o fim do ano passado Imagem: IStock

17/10/2019 17h50

Por Sérgio Queiroz

CRUZ ALTA, Rio Grande do Sul (Reuters) - Com 35 anos de vivência como criador de abelhas, Salvador Gonçalves da Silva teme que seu trabalho como produtor de mel no Rio Grande do Sul chegará ao fim em breve se o uso de pesticidas nas plantações próximas continuar no ritmo atual.

Ele está entre um grupo de apicultores do Estado que perdeu pelo menos 360 milhões de abelhas entre o fim do ano passado e o começo deste ano devido ao uso de agrotóxicos, segundo análise da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

"É bastante preocupante, porque com essa quantidade de agrotóxicos que o governo federal libera lá em cima, tem liberado nos últimos tempos, isso vem preocupando, porque vai para um ponto assim que nós não vamos ter mais (abelhas)", disse o apicultor à Reuters TV.

"Se continuar nesse ritmo, que a gente espera que não, que não morra tanta abelha, que não venham a morrer mais abelhas, e que a gente consiga produzir (o mel)", acrescentou.

Desde janeiro de 2019, o governo do presidente Jair Bolsonaro aprovou 410 novos agrotóxicos, elevando para 2.476 o total comercializado no país, de acordo com levantamento feito pela Agência Pública e o Repórter Brasil com base em dados publicados pelo governo no Diário Oficial da União.

Os números são divulgados no Twitter na conta "Robotox", criada para informar sobre "todos os novos produtos agrotóxicos que forem liberados no mercado brasileiro", segundo a descrição do perfil.

A liberação de novos pesticidas é defendida pelo governo como forma de aumentar a produtividade da agricultura do país, que é um grande exportador commodities agrícolas.

Em agosto, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse, em resposta a críticas de ambientalistas, que a recente aceleração pelo governo de aprovações de pesticidas não é prejudicial para a segurança alimentar e nem para o meio ambiente. Segundo a ministra, as aprovações mais rápidas dos defensivos agrícolas significam mais tecnologia à disposição do campo.

O próprio presidente Jair Bolsonaro afirmou que os novos pesticidas aprovados pelo governo serão utilizados para substituir produtos antigos, uma forma de a agricultura do Brasil manter a sua competitividade.

"Se nós estivéssemos envenenando nossos produtos, o mundo não os compraria. É simples. Nós somos um país que menos usa agrotóxico na agricultura. Por que novos agrotóxicos? Para substituir os anteriores... Usa-se menos, inclusive", disse Bolsonaro. Ele ressaltou que não é possível fazer a agricultura em larga escala sem o uso de fungicidas, inseticidas e herbicidas.

As abelhas, no entanto, têm sentido fortemente o impacto.

"O grande vilão da história das mortandades agudas (de abelhas) é o Fipronil. Os neonicotinóides têm uma parte também, mas a mortandade aguda foi do Fipronil", disse Aroni Sattler, professor de Agronomia da UFRGS, citando um inseticida de amplo uso. "E não é só no Rio Grande do Sul, é praticamente em todo o Brasil."

Segundo Sattler, somente no Estado foram perdidas 6.000 colmeias devido aos pesticidas, o que representa um total de 360 milhões de abelhas, mas o número real deve ser ainda maior, tanto nas colmeias de produtores como na própria natureza.

Muitos casos não são denunciados porque os apicultores dependem de locais arrendados por produtores rurais, afirmou.

"Esse número pode ser multiplicado por dois e talvez três. Assim mesmo, não temos como avaliar as perdas de colônias em abrigos naturais e nem de abelhas nativas", disse o professor.

(Texto de Pedro Fonseca)

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